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Por que falar de vaidade depois do prêmio

O reconhecimento público não é ponto de chegada, mas de partida. O mais importante começa agora

POR:
NOVA ESCOLA
LEANDRO BEGUOCI,

LEANDRO BEGUOCI,
Diretor editorial e de conteúdo

O futuro é incerto, exceto em algumas raras situações. Uma delas é fruto da vaidade. Logo depois de um prêmio, o vencedor se acomoda com as glórias. Acha que não tem mais nada a fazer - e confunde fazer com "provar algo a alguém". E aquela pessoa cheia de energia começa a murchar, perdida nas armadilhas da vida.

Da Bíblia ao poeta Gregório de Matos, são muitos os alertas contra os sentimentos de onipotência e autoglorificação que nos tomam depois de uma grande conquista. O trabalho duro nos leva a lugares inimagináveis. E a vaidade, aos poucos, vai minando o  esprendimento, a colaboração e a entrega que nos fizeram chegar até o lugar em que estamos - agora ocupado pela adulação.Com o tempo, só restam a impotência, a solidão e a saudade dos dias efêmeros de glória.

"Caramba, por que uma mensagem tão pessimista em uma edição comemorativa?" Não é pessimismo, é realismo. Conheço gente muito boa que já tropeçou nos elogios e nos troféus - é um buraco muito fácil de se meter e muito difícil de sair. Quando o assunto é Educação, isso fica ainda mais problemático, por três motivos.

O primeiro é o contraste. Nós sabemos que a vida do professor não é fácil. Falta reconhecimento, entre inúmeras outras faltas. Quando ele vem com força, como no Educador Nota 10, é difícil resistir à embriaguez da vitória. É uma ressaca de glória depois de meses ou anos de abstinência de carinho. O ponto é que o educador vai voltar para a escola e precisa ter a cabeça no lugar para continuar mudando a realidade em que está.

O segundo motivo é inerente à carreira. Educação é trabalho coletivo. É feita com alunos, com pares, com as famílias. Se essas pessoas percebem Por que falar de vaidade depois do prêmio O reconhecimento público não é ponto de chegada, mas de partida. O mais importante começa agora  que foram (ou são) apenas degraus para uma grande vaidade se manifestar, elas se afastam. Ninguém quer ser usado dessa forma.

O terceiro amarra os dois anteriores. A parte mais poderosa do trabalho começa depois do prêmio. Há muitos vencedores do Educador Nota 10 que continuaram criando projetos inovadores, assumindo escolas ainda mais desafiadoras, formando outras pessoas. A legitimidade que conquistaram os ajudou a ter um impacto ainda maior na Educação. Se o educador cair na vaidade, todo esse potencial é desperdiçado.

Por isso, os educadores nota 10 de 2017 merecem não apenas os nossos aplausos. Para que eles continuem indo longe, também precisam do nosso apoio quando estiverem desanimados (é normal) e de um puxão de orelhas (metafórico e terno) quando se perderem entre os tantos flashes que vêm a partir de agora. Eles devem ser relembrados nos bons e maus momentos do valor que eles têm e da responsabilidade que conquistaram, nos bons e nos maus momentos. Afinal, o melhor troféu não é aquele que brilha na sala. É aquele no qual a gente pode subir e trazer junto milhares de outras pessoas.

Um grande abraço e, qualquer coisa, é só me escrever: leandro@novaescola.org.br

Ilustração: ADRIANA KOMURA