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Como usar a tradução online

O Google Tradutor é só uma parte do grande quebra-cabeça que leva seus alunos a traduzir de verdade

POR:
Patrick Cassimiro, Maggi Krause e Camila Camilo

Ele está a um clique. É gratuito, simples de usar e rápido. O aplicativo do Google Tradutor roda facilmente em celulares. Como até quem é fluente em inglês tem dúvidas de vez em quando, vai ver que você mesmo utilizou a ferramenta antes dos seus alunos. Segundo o Google, nenhum país recorre a ela tanto quanto o Brasil.

O aplicativo facilita, por exemplo, identificar palavras desconhecidas durante a leitura de um texto em língua inglesa. Por isso, mesmo que você o considere um atalho, não faz sentido proibir seu uso em aula. Mas vale a pena esclarecer os estudantes sobre suas limitações. Sandra Durazzo, diretora da Target Idiomas, explica: "Para casos pontuais, como uma receita culinária, ele funciona. Mas para textos que exigem interpretações elaboradas e a percepção do contexto comunicativo, como um poema, não".

O xis da questão está no sistema. Ele é programado para reconhecer cada palavra e convertê-la ao idioma desejado, tomando por base seu significado literal. Por isso, quando o que importa é a adequação ao contexto ou o sentido dentro da frase, o risco de falha é alto (veja exemplos abaixo). Outro caso acontece quando duas palavras têm a mesma grafia, mas significados diferentes, seja em português ou inglês. Se o aluno procura por "manga", o Google Tradutor informa em inglês: mango. E ele está certo, mas no contexto frutas ou alimentos. Se o estudante quer escrever sobre moda, a palavra que ele procura é sleeve.

Memória, boca e olhos

É verdade que o Google Tradutor melhorou bastante desde que foi criado, em 2006. A ferramenta é programada para se aperfeiçoar conforme mais gente pede para traduzir um termo ou frase. A cada demanda por uma informação, ela usa a memória acumulada. Por isso, quanto mais for usada, menos falha. Ainda assim continua sendo uma máquina, com dificuldade de perceber nuances como formalidade e informalidade, figuras de linguagem ou contextos comunicativos.

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Baixe o app Google Tradutor para celular. Clique no ícone de câmera, ative a tradução simultânea e aponte o celular para a tela abaixo. Compare as traduções com as que aparecem e entenda a dificuldade do app para traduzir certas expressões.

 

AO PÉ DA LETRA

Essas palavras e expressões são difíceis de traduzir. Entenda o porquê

Correto e literal
Repare que, abaixo do verbete, o Google coloca a definição em inglês. Consultá-la é um modo de familiarizar a turma no uso do dicionário monolíngue.
Fora de contexto
A tradução correta seria malpassado. A ferramenta não entende o contexto culinário, que descreve o ponto da carne.
Cuidado com homônimos
O Google apresenta o substantivo, que se refere ao tempo presente. Mas fique atento: poderia ser o verbo apresentar.
Transposição complexa demais
A expressão em inglês tem o sentido de economizar. Um profissional de tradução escolheria uma equivalente, como "apertar o cinto".
Expressões não são percebidas Como traduz cada palavra de forma literal, ignora a expressão idiomática, que significa "isso me faz lembrar de algo".

Várias facilidades da tecnologia foram aproveitadas nas versões para computador e celular. Ele conta com um ícone de áudio: basta clicar nele para saber como é a pronúncia da palavra. Com o aplicativo no celular, se o usuário apontar a câmera para um texto, vê na tela a devolutiva imediata na língua selecionada (tente fazer isso nas palavras acima). Tantos recursos encantam os usuários, mas os especialistas dizem que, embora tenha tradutor no nome, não é isso que ele faz. "Tradução significa transpor os significados de uma língua para outra. É uma tarefa complexa, que exige compreensão da cultura e muito conhecimento do idioma", argumenta Laura Nassar, coordenadora de Inglês do Colégio Oswald de Andrade, em São Paulo.

Dentro da aula, isso significa que a ferramenta online pode ser usada, mas não é suficiente. A turma do 6º ano da EM Albert Schweitzer, em Curitiba, estudou as classificações dos animais em inglês. Para preencher fichas preparadas pela professora Clarice Maria Raimundo, as crianças coletaram informações sobre hábitat, alimentação e função de cada bicho. "Temos um laboratório de informática só para as aulas de Língua Estrangeira, então pedi que elas pesquisassem na internet, mas só em sites em inglês." Durante a atividade, o Google Tradutor foi utilizado, assim como ou- tros dicionários online, para esclarecer palavras desconhecidas. A professora fez intervenções e dividiu com todos as dúvidas mais gerais. "Deixo claro que a recomendação é não jogar frases inteiras no Google. Há diferenças entre as línguas, como os pronomes e a conjugação verbal, que podem gerar confusão", comenta.

Mais referências para consultar online

Traduzir é conhecer os dois idiomas, os contextos em que a comunicação ocorre, e saber qual expressão em uma língua dá conta do significado passado pela outra. Nessa tarefa, é preciso ter habilidade para consultar dicionários. "É importante criar o hábito de checar o sentido em mais de um lugar e, com o tempo, ir avançando do dicionário bilíngue (inglês?portugês) para o monolíngue (apenas em inglês)", explica a coordenadora Laura.

Um hábito que não faz sentido

Christina Zaccarelli, professora da rede privada de ensino em São Paulo, volta e meia percebe que seus alunos dos anos finais do Ensino Fundamental estão utilizando muito a ferramenta, inclusive para transpor textos inteiros do inglês para o português ou vice-versa. Como alternativa a esse comportamento, ela pede que pesquisem em fontes diversas na internet o significado de expressões idiomáticas como piece of cake ou to cut corners. Quem trouxer a informação correta mais rápido, ganha o desafio. Os estudantes logo notam que o Google Tradutor não dá conta do sentido do mesmo modo que dicionários mais específicos (leia no quadro acima). Christina problematiza a ferramenta e explica que as estruturas das duas línguas são diferentes, por isso a transposição exige mais cuidado. "Mostro porque o aplicativo falha em certas situações. Isso abre um diálogo com os alunos, que entendem como usar a tecnologia de um jeito inteligente", conta a educadora.

Imagens: PATRICK CASSIMIRO