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Da Guerra Fria à amizade colorida

Entenda a relação de amor e ódio entre os protagonistas do maior embate ideológico do último século

POR:
Larissa Darc, Lucas Magalhães e Leandro Beguoci

Esta reportagem é um desafio - para nós e para vocês. Como falar das relações entre dois gigantes mundiais, Estados Unidos e Rússia, para alunos que só têm vagas ideias sobre geopolítica? Como explicar dois personagens tão complexos como os presidentes dos dois países, Donald Trump e Vladimir Putin?

Fizemos esse exercício aqui. E achamos que há dois pontos que se conectam imediatamente com os alunos. EUA e Rússia vivem uma situação de "amigos e rivais". É uma relação de amizade e disputa fácil de ser identificada pelos seus alunos. E, para sorte da sua aula (e deste texto), há personagens fascinantes que ajudam a contar a história desta relação, que você conhece nas ilustrações que acompanham este texto.

A aproximação

Os dois países eram gigantes meio deslocados no mundo no final do século 19. Os EUA preferiam ficar isolados na América. A Rússia até tentava ter mais poder, mas era sempre marginal. O grosso da política mundial se desenrolava na Europa Ocidental. A relação EUA-Rússia era tão fria e distante que eles puderam fazer um negócio inimaginável: os norte-americanos compraram o Alasca e se transformaram em vizinhos do país que, apenas algumas décadas depois, se transformaria no seu principal rival.

Em 1917, acontece a Revolução Russa. Os czares são derrubados do poder pelos comunistas. Os EUA, nessa época, já eram um país capitalista importante - mas não um protagonista. Já o status da Rússia, que cresceria e mudaria de nome para União Soviética, se transforma. Quando os bolcheviques de Lênin e Stálin chegaram ao poder, eles mostraram que as ideias de Karl Marx (1818-1883) podiam ter aplicação prática e representavam uma alternativa para a ordem então dominante. A União Soviética não ganhou peso por causa da sua economia, mas por uma ideia aplicada. Mais uma oportunidade de desafiar o conhecimento convencional que muitos estudantes têm. Costumamos associar poder econômico com poder no planeta, mas os comunistas de 1917 mostram que as coisas nem sempre são assim.

  • FRANKLIN ROOSEVELT

1882-1945
O mais longevo presidente americano tinha um sorriso largo, era colecionador de selos e vivia numa cadeira de rodas, por causa da poliomielite. Mas não era nada frágil. Na Segunda Guerra, se uniu à União Soviética para derrotar os nazistas e mudou o status dos EUA no mundo

  • RONALD REAGAN

1911-2004
O presidente americano que derrotou a União Soviética foi galã de Hollywood e fez política como cowboy de cinema: chamou a União Soviética para um duelo de vida e morte. E venceu 

  • JOSEF STÁLIN

1878-1953
O ditador russo era um louco genocida, responsável pela morte de milhões de pessoas. Mas, na política, era pragmático. Diante de Hitler, se uniu aos EUA

  • MIKHAIL GORBACHEV

1931-
Ganhador do Nobel da Paz, entendeu que precisava melhorar as relações com os EUA e acabar com a linha dura soviética. Entrou para a história como o homem que acabou com a Guerra Fria - e com o poder do seu país

  • DONALD TRUMP

1946-

Apresentador de TV, magnata e tuiteiro. O atual presidente americano é conhecido pelos seus acessos de raiva públicos. Até agora, ele se mostra disposto a isolar o país do mundo

  • BILL CLINTON

1946-

No seu governo, os EUA assumiram o papel de potência solitária. Clinton simbolizava um país otimista e disposto a ser modelo para o mundo. Nem Clinton nem os EUA conseguiram...

  • BÓRIS IÉLTSIN

1931-2007

Experimente procurar pelo nome dele no YouTube. Frequentemente bêbado em público, o presidente Iéltsin representava uma Rússia cambaleante e perdida

  • VLADMIR PUTIN

1952-

Putin é um ex-agente da KGB que adora se exibir nas redes sociais. Tem o sonho de devolver protagonismo mundial ao país

A amizade

A Primeira Guerra Mundial mudou o balanço de poder. Países como a Alemanha perderam muito. França e Inglaterra também se enfraqueceram. Parecia claro que os EUA tinham um espaço a ocupar. Mas não queriam. Havia uma corrente muito forte por lá chamada isolacionismo. A tese era de que os EUA não deveriam se meter na Europa. Surpreendente quando a gente aprende esse conceito 100 anos depois, não?

Mas os EUA foram obrigados a sair dessa posição nos anos 1940. Os nazistas assumiram o poder na Alemanha e criaram a máquina de guerra jamais vista na Europa. Parecia que Hitler e seus generais iriam colocar toda a Europa sob jugo nazista. E aí o jogo muda novamente. Por razões diferentes, União Soviética e EUA se aliam à Inglaterra. Então vem a vitória contra o nazismo. Parecia que a relação entre os dois gigantes poderia ficar tranquila, certo?

Mas os dois gigantes adormecidos do final do século 19 queriam dominar o mundo. E foi o que fizeram. Os EUA influenciaram toda a Europa Ocidental (oeste) e a Rússia o lado oriental (o leste). As relações amistosas se transformaram numa rivalidade explosiva. O mundo deixava de ter vários países competindo para ter dois polos.

A rivalidade

A tensão entre os dois países ficou tão grande e complexa que foi preciso criar um conceito novo para definir aquele momento inédito: a Guerra Fria. EUA e Rússia inauguraram um tipo de conflito em que eles brigavam, mas quase nunca diretamente. Não havia lutas diretas entre soldados, mas disputas sobre quem era mais poderoso ou quem influenciava mais territórios. E batalhas por ideias e modelos. Comunismo ou capitalismo? Quem tinha a melhor ideia para o planeta? Mais uma oportunidade para dialogar com seus alunos. As guerras podem tomar muitas formas.

Vitória e derrota

EUA e União Soviética, embora rivais, sabiam que tinham de manter um saudável equilíbrio porque o mundo poderia ser destruído neste processo. Ronald Reagan, quando foi eleito presidente dos EUA, não pensava assim. Ele queria acabar com a União Soviética. E jogou alto. Promoveu uma corrida armamentista, uma disputa para ver quem conseguia ter mais força militar.

A União Soviética não conseguiu acompanhar. E então o comunismo caiu. Vale dizer para os seus alunos que o mundo em que vivem nasceu de um fato que parecia impossível para os avós deles. O mundo bipolar se transformaria num mundo unipolar: os EUA eram o líder do planeta e seu modelo se transformaria numa inspiração.

Nova ordem

Quando a União Soviética acabou, a Rússia que surgiu era um país caótico e humilhado. Os EUA, um país triunfante e otimista. Mas... as coisas mudam. Os EUA se viram diante de novos adversários, os terroristas. Também viveram uma série de crises econômicas e lutaram em várias guerras, no Iraque e no Afeganistão, que atraíram uma enorme antipatia mundial. Já a Rússia se reorganizava. Vladimir Putin virou presidente do país. O petróleo trouxe uma bonança econômica. E, com ela, os velhos planos de ressuscitar o protagonismo perdido no final dos anos 1980.

E então nós chegamos à situação que nos levou a fazer este texto - e sua inspiração de aula. Putin foi acusado de interferir nas eleições americanas para eleger Donald Trump. E, segundo os analistas, ele não fez isso porque gostava dos cabelos dourados do presidente americano. Para Putin, Trump é um presidente isolacionista, como os líderes americanos do começo do século 20. Ele só quer saber dos EUA, e não do mundo. Uma ótima oportunidade, então, para a Rússia voltar a ser grande. Resta saber se conseguirá.

Imagens: RAFAEL NUNES