Não deixe os mais rápidos para trás

Variar as propostas de atividade evita que sempre os mesmos sejam os primeiros a terminar

POR:
NOVA ESCOLA
Felipe Bandoni,

Felipe Bandoni,
doutor em Biologia pela USP e professor na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo.

"Já terminei!" Quantas vezes por semana você escuta essa frase? E em quais oferece ao aluno algum desafio extra? Em geral, nossa preocupação com os estudantes de ritmo mais lento ou produção insatisfatória nos faz preparar atividades de recuperação, pensar novos caminhos para ensinar, enfim, investir tempo de trabalho individual e coletivo para ajudá-los. Só que nas mesmas turmas temos alunos rápidos e com bom desempenho, e eles acabam em segundo plano.

Encontrei as diferenças mais gritantes de ritmo na Educação de Jovens e Adultos. Percebi que, para alguns, minhas aulas se tornavam pouco desafiadoras e eles ficavam impacientes com os colegas que se alongavam mais nas tarefas. Em alguns casos extremos, isso resultou até em abandono da escola. Essa situação me obrigou, junto com meus colegas, a refletir seriamente sobre as diferenças e experimentar estratégias para incluir os mais rápidos na dinâmica da turma.

Quando alguém termina muito antes do planejado, em primeiro lugar, verifico se a atividade pedida foi cumprida com qualidade. A velocidade, muitas vezes, dá margem à falta de acabamento: letra apressada e ilegível, textos sem revisão e com muitos erros, desenhos precários, que os próprios alunos reconhecem como resultado da pressa. Nesses casos, aponto falhas e proponho melhorias, orientando um cuidado maior com a produção. Para alguns estudantes, aprender a controlar a impaciência para executar um trabalho com qualidade é mais relevante do que o conteúdo em si.

Outra estratégia é organizar uma monitoria, propondo que os alunos mais rápidos auxiliem os que ainda não finalizaram a tarefa. Isso mobiliza habilidades além das costumeiras, pois é preciso comunicar-se claramente e saber ajudar sem fazer pelo outro. Noto que isso aumenta a empatia dos adiantados pelas dificuldades dos colegas e os casos de intolerância diminuem. Algumas vezes, esses alunos percebem que a interação também os beneficia do ponto de vista conceitual, pois é preciso conhecer bastante um assunto para ensiná-lo. Não raro surgem dúvidas justamente na hora em que se preparam para dar explicações.

Vale lembrar que alunos com bom desempenho em uma tarefa podem patinar em outras. Variar as propostas de atividade evita que os primeiros a terminar sejam sempre os mesmos. Me lembro de um adolescente que era superrápido na elaboração de textos, mas lento nas tarefas que exigiam manipulação (como as do laboratório de Ciências). Alternando os dois tipos de produção, eu consegui que ele avançasse mais no que não sabia fazer bem. Propor trabalhos em grupo também é valioso, pois todos precisam conciliar seus ritmos para finalizar a tarefa. De todo modo, costumo ter na manga atividades de aprofundamento, mais difíceis de serem executadas, pois assim garanto que os alunos mais velozes se sintam sempre desafiados e motivados para o estudo.

Ilustração: ADRIANA KOMURA

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