Sala de Aula | HISTÓRIA | Sala de aula

Idade acima da média

Ela foi difamada por séculos como uma época feia, suja e malvada. Chegou a hora de recontar essa história - e reconquistar a atenção dos alunos

POR:
Pedro Annunciato, Carla Almeida e Leandro Beguoci

A Idade Média é vista como um tempo de opressão e imundície. Por causa destas características nada abonadoras, é difícil falar dela - quanto mais engajar os alunos. Mas, e se eu te contasse que esse período era muito mais do que dor e ranger de dentes?

Era uma vez o Império Romano. Suas fronteiras se estendiam do norte da Europa ao oriente. Quando ele desmoronou, em 476, nasceu um novo tempo, fragmentado e inquieto. A escravidão foi, aos poucos, extinta. As mulheres deixaram de ser propriedade. Surgiram a assistência social e as universidades. Igrejas e seus vitrais iluminados mudavam a paisagem. No que hoje é Portugal e Espanha, judeus, cristão e árabes (que desfrutavam de banhos sensuais de fazer inveja aos mais libertinos de hoje) conviviam relativamente bem. Isso também é Idade Média.

Sim, teve violência, miséria e grandes tragédias, como a da peste negra do século 13. O que pouca gente conta é que houve muito mais. A historiografia já abandonou há pelo menos um século a ideia de que tudo era atraso durante aqueles mil anos após a queda do Império Romano. Mas será que essas descobertas já chegaram às escolas - e, mais importante, à sua classe?

Antes de examinar como a Idade Média aparece nas salas de aula, é preciso recuar no tempo para entender de onde vem essa péssima fama.  Em seu livro O Mito da Idade Média, a historiadora francesa Régine Pernoud (1909-1998), uma referência no tema, explica que tudo começa com o Renascimento italiano. Em Florença, os artistas redescobriram (e idealizaram) a época de ouro de Roma e Grécia. Embora os medievais nunca tenham desprezado a antiguidade clássica, gregos e romanos eram vistos mais como referências do que como um horizonte a atingir. Na Renascença, isso muda. Sai a inspiração, entra a imitação.

A partir daí, os homens desse novo período passaram a forçar um contraste com a era anterior. "O próprio uso do termo ?renascimento? já é pejorativo. Joga luz sobre uma corrente e sombra sobre o passado", explica Flávio de Campos, professor de história medieval da USP e um dos grandes especialistas brasileiros no assunto. Afinal, renascer significa tirar da morte - e a Idade Média ganha contornos sombrios.

Séculos mais tarde, a ojeriza ao período ganha ainda mais força, especialmente por causa da Revolução Francesa. Para destruir a reputação da nobreza e da Igreja, os revolucionários reforçaram o estereótipo, em contraste com as luzes que eles trariam à humanidade.

Mas, aos poucos, a escola vem incorporando as novas descobertas e abandonando os preconceitos. O próprio Flávio é autor de uma coleção que integra o catálogo do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) e garante que nenhuma obra séria admite mais expressões como "Idade das Trevas", por exemplo. Ele opina, porém, que ainda se dá uma ênfase excessiva nos currículos ao Renascimento, o que pode gerar distorções.

CRISTÃOS E CIVILIZADOS
Este é um dos vitrais da Catedral de Leão, que começou a ser erguida no século 13, na Espanha. Ele representa uma procissão, que, no conjunto, compõe uma narrativa gloriosa sobre um povo que havia reconquistado a própria terra expulsando os árabes da Península Ibérica

Novos caminhos

A Idade Média concentra desafios comuns aos conteúdos de História. É um período distante, não homogêneo e longo, o que exige recortes tão grandes que, inevitavelmente, muita coisa fica de fora. Por isso, o professor José Guilherme Zago, que já foi formador do Programa Instituição de Bolsas de Iniciação a Docência (Pibid), sugere estratégias de comparação. Por esse método, é possível comparar a vida num feudo "clássico", bem conhecido nas escolas brasileiras, com a formação dos reinos da península ibérica, muito marcada pela presença árabe. Isso ajuda a compreender a formação de Portugal e oferece uma ligação muito interessante para falar da chegada dos europeus ao Brasil. Também vale relacionar conceitos conhecidos pelos alunos, como fronteiras, e explicar como elas eram diferentes naquela época.

Para ajudar você, professor, a dar conta dessa tarefa complicada, NOVA ESCOLA traz alguns pontos de partida. Além de derrubar mitos mais comuns, há também sugestões de obras que você pode estudar e até levar para a sala de aula.

CORES VIVAS
As inovações técnicas da Idade Média francesa originaram jóias da arquitetura gótica, como a Catedral de Notre-Dame, construída a partir de 1163. Nela, também se pode encontrar grandes vitrais como este, que retrata a cultura camponesa e a trajetória de reis e rainhas. Em outros, aparecem os temas bíblicos, que serviam de catequese para os analfabetos

DAS TREVAS À LUZ

Os mitos sobre a Idade Média que as pesquisas já desmontaram

1. PARTICIPAÇÃO FEMININA

O mito
As mulheres não tinham nenhuma importância na vida familiar, política e na sociedade.

A realidade
Sim, havia caça às bruxas e não existia uma espécie de "feminismo medieval". Mas essa é uma pequena parte da história. A Idade Média foi um período de ascensão para as mulheres, especialmente por causa da centralidade da Virgem Maria na religião cristã, que modificou a mentalidade da época em relação ao sexo feminino. Os reis passaram a ser coroados com as rainhas, que governavam de verdade. As comunidades monásticas femininas também tinham enorme poder, e muitas abadessas comandavam feudos gigantescos. Há registros, principalmente na França, que permitem verificar essa influência também na vida cotidiana: as mulheres tinham voz na família, voto nas decisões das aldeias e, em Paris, exerciam diversas profissões de prestígio.

2. INQUISIÇÃO

O mito
Os tribunais católicos espalharam terror pela Europa e queimaram milhões de pessoas.

A realidade
A inquisição teve diferentes contornos em cada lugar e faz parte de um mundo em que a religião tinha um papel estruturante, diferente do que tem hoje. Como o Estado ainda não existia como o conhecemos, a Igreja assumiu o papel da justiça comum e religiosa - que, na verdade, se confundiam. Além disso, estudos recentes mostram que a maior parte dos processos terminava inocentando os acusados de heresia. E, ao contrário do que se imagina, eles tinham direito à defesa. Entre os condenados, só uma pequena parte recebia pena de morte - cerca de 2% na Espanha, por exemplo, o que corresponderia a pouco mais de 2 mil pessoas ao longo de cerca de dois séculos. Nos EUA, como comparação, cerca de 1500 criminosos foram executados de 1976 até hoje.

3. A VIDA INTELECTUAL

O mito
A mentalidade medieval era obscurantista, sobrepunha a fé à razão e barrava a ciência.

A realidade
A Idade Média produziu grandes pensadores que se caracterizavam exatamente pelo esforço em harmonizar fé e razão humana. O maior exemplo talvez seja o próprio Tomás de Aquino (1225-1274), frade de enorme influência na Teologia e na Filosofia. E foram as descobertas que começaram nesse período que criaram as condições para que a Europa se lançasse às grandes navegações. A Igreja era a principal financiadora das ciências e foi a inventora das universidades. Mesmo episódios controversos merecem ser esclarecidas. A condenação de Giordano Bruno (1548-1600), por exemplo, não se deu por suas ideias astronômicas (que, aliás, já eram debatidas nos meios acadêmicos desde muito antes), mas pelo seu pensamento religioso, considerado gnóstico na época.

4. CATEDRAL

O mito
A Renascença é um retorno à beleza clássica, que os medievais eram incapazes de reproduzir.

A realidade
Que o renascimento italiano produziu obrasprimas, ninguém pode negar. Mas também é difícil olhar para uma joia como a Catedral de Notre-Dame e não reconhecer que a Idade Média era repleta de beleza. Com uma arte rica de simbolismos e cores, artistas criaram obras de excepcional qualidade, valendo-se de grandes avanços técnicos: o arco ogival, que possibilitou que os tetos fossem suportados por paredes mais finas, permitiu que arquitetos projetassem enormes vitrais, como os que ilustram esta reportagem, tornando o interior dos templos mais iluminado. Além disso, as catedrais eram centros de conhecimento. Junto delas, surgiram as famosas escolas-catedrais, e suas cúpulas eram utilizadas como observatórios astronômicos.

Livros para sua formação

A Civilização do Ocidente Medieval, de Jacques Le Goff
Traz uma síntese dos fatos e do pensamento do autor sobre período.

O Mito da Idade Média, de Régine Pernoud
O texto acessível com e pitadas de ironia desmonta as principais lendas.

O Outono da Idade Média, de Johan Huizinga
Uma obra prima da historiografia, é obrigatória para se aprofundar no tema.

Imagens: SHUTTERSTOCK/MUHARREMZ