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O domínio do fogo

Os mistérios ao redor desse elemento intrigaram artistas, filósofos e religiosos. Aproveite e debata o tema com a turma

POR:
Carla Almeida, Maggi Krause e Nairim Bernardo

Desde a antiguidade, o fogo deixa a humanidade com a pulga atrás da orelha. Como um elemento difícil de explicar - e que não pode ser tocado - é capaz de assar a comida, nos aquecer e até destruir áreas florestais gigantescas, como o incêndio que atingiu a região central de Portugal no mês de junho e deixou 64 mortos?

Os mistérios ao redor das chamas incentivaram filósofos, artistas e cientistas a buscar explicações sobre a sua origem e a maneira como ocorre. As mesmas questões podem intrigar os alunos dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Por isso, vale começar com uma explicação mítica ou filosófica para iniciar a exploração científica. Um exemplo: conta uma lenda indígena que, há muito tempo, os homens não sabiam fazer fogo e só tinham acesso a ele quando um raio incendiava mata. Então, o pajé escolheu o mais corajoso dos guerreiros, o índio Japu, e o transformou em um pássaro para que trouxesse o fogo para a Terra. Ele saiu vitorioso de uma batalha contra o raio e trouxe no bico uma porção de fogo. O pajé pegou essa chama, transferiu seu poder para pedras e gravetos e ensinou para toda a aldeia que quando quisessem produzir fogo bastava esfregar esses objetos. Todos estavam felizes, mas quando Japu voltou à forma humana, notaram que o rosto dele estava queimado. Não suportando viver daquele jeito, implorou que o pajé o transformasse novamente em pássaro. E assim surgiu o Japuaçu, um pássaro com plumagem que lembra a cor das labaredas e que tem bico vermelho.

Por deixar clara a necessidade do ser humano de dominar a produção do fogo, a história pode ser uma maneira de introduzir seu estudo para as crianças. "O avanço tecnológico permitiu que a sua produção se tornasse corriqueira, e deixamos de enxergar os fatores científicos que estão por trás dele", explica Leonardo Gusmão, coordenador pedagógico da Experimenta Ciências.

Nos anos iniciais do ensino de Ciências, é importante que as crianças percebam como o fogo pode ser criado, quais princípios químicos o geram e alimentam e sua influência em mudanças tecnológicas e sociais (leia abaixo).

As aulas também precisam focar nos cuidados ao lidar com esse elemento. "As crianças devem entender que o fogo nos permite diversos avanços, mas também oferece riscos", diz Leonardo. Segundo dados do Ministério da Saúde, as queimaduras são a terceira principal causa de hospitalizações em decorrência de acidentes de crianças até 14 anos. "O professor deve trabalhar a noção de cuidado com o corpo e com a saúde", diz Gabriela Guida de Freitas, coordenadora nacional da ONG Criança Segura.

Um grande clarão risca o céu

O fogo pode surgir sem a intervenção humana, quando um raio cai em uma floresta seca ou mesmo pela ação de um vulcão. Antes de o homem aprender a dominá-lo, precisava esperar os fenômenos naturais para conseguir fogo. Essa é também a causa de muitos incêndios florestais.

No tempo das cavernas

Quando o homem aprendeu a acender uma fogueira, ganhou um aliado para manter o corpo aquecido em climas frios, afastar animais predadores e preparar alimentos, tornando-os mais saborosos e saudáveis. Não há um consenso na comunidade científica de quando isso aconteceu - algumas pesquisas sugerem que teria sido há 400 mil anos, outras há mais de 1 milhão.

Um mundo mais iluminado

Há registros de que as primeiras velas, feitas com gordura animal e um pavio, surgiram por volta de 50 mil anos antes de Cristo. Depois vieram lampiões e lamparinas a óleo. As ruas de Londres receberam as primeiras lâmpadas a gás de carvão em 1807. A famosa iluminação pública de Paris, com o mesmo sistema, data de 1817. No Brasil, a novidade só chegou em 1851. 

Revolucionando a fabricação

O primeiro tipo de máquina a vapor surgiu ainda antes da era cristã, mas foi no século 18 que ela foi desenvolvida e passou a ser amplamente utilizada em fábricas. A produção e o lucro aumentaram e com isso o modo como estavam organizados o trabalho e a vida social das pessoas mudou. O período ficou conhecido como Primeira Revolução Industrial.

Todo tipo de possante

Os motores a vapor também deram movimento a veículos, como locomotivas, barcos e carros. O tempo e o custo das viagens diminuíram, o que aumentou o comércio. Com o tempo, percebeu-se que a queima de carvão desperdiçava energia, não era prática e prejudicava a natureza. Surgiram então os motores de combustão interna, que usam derivados de petróleo como combustível.

O senhor da guerra

As primeiras armas de fogo surgiram na China no século 9, logo após a invenção da pólvora. No século 13, os árabes conceberam o canhão. No 15, foram inventadas as primeiras armas portáteis, que mudaram completamente as táticas de guerra. Com elas, os colonizadores europeus derrotaram com facilidade a população indígena das Américas.

TIRA-DÚVIDAS ESSENCIAL

Os alunos costumam fazer ótimas perguntas. Prepare-se!

O que é o fogo?
É a energia liberada na reação química de combustão. Ela produz luz e calor, o que provoca a chama. Para que haja fogo, três fatores são primordiais: combustível (papel, madeira, gasolina e outros), calor (de fontes como luz do sol ou atrito) e o gás oxigênio.

Por que a gente pode se queimar?
A temperatura da chama produzida na combustão é por volta de 800 graus Celsius na madeira e 1200 na boca de um fogão a gás. Ou seja, muito quente! Quando a chama encosta na pele ocorre uma transferência de energia térmica entre o fogo (que tem mais calor) e o corpo, provocando a queimadura.

Por que as chamas têm cores diferentes?
Isso depende do elemento químico do material queimado. O sódio, presente em velas, produz uma luz amarelada. A madeira possui potássio, que pode gerar labaredas da cor violeta. Já a chama do metanol, combustível usado pelas equipes da Fórmula Indy, é invisível.

Como podemos apagar o fogo?
É preciso retirar um dos componentes: combustível, calor ou oxigênio. Ao jogar água, se reduz a temperatura da reação química. O fogo originado em combustíveis deve ser extinto com espuma ou pó químico. Para cortar o oxigênio, abafe com um cobertor, um tapete ou, na cozinha, com tampa de panela.

Links para experiências bacanas:
bit.ly/expecombustao
bit.ly/fogocolorido

Consultoria: Leonardo Gusmão, coordenador pedagógico da Experimenta Ciências.

Ilustrações: Orlandelli