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Precisamos sentir mais raiva

Ela pode sinalizar uma injustiça. Se transformada em indignação, vira motivação para mudanças reais.

POR:
NOVA ESCOLA
Rodrigo Ratier,

Rodrigo Ratier,
editor executivo de NOVA ESCOLA e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)

Alguém te xinga, dá uma fechada no trânsito, fala mal do seu trabalho, distorce o que você disse ou te rejeita. O que os ouvidos captam o cérebro entende como aborrecimento e o corpo vivencia como uma onda arrebatadora. Músculos se tensionam, o semblante se fecha, dentes rangem e a temperatura sobe. Por isso, sentimos quase literalmente o sangue ferver.

Associamos a raiva a uma emoção negativa. Ela expõe um lado animal e selvagem, e nós, seres civilizados e racionais, devemos fazer o possível para suprimi-la. À primeira vista, faz sentido agir assim. Acessos de fúria nos levam a fazer coisas estúpidas. São autodestrutivos e podem implodir projetos e relações que exigiram tempo e esforço para ser cultivados. Também é um equívoco se afogar permanentemente na irritação. Nos tornamos pessoas amargas e tendemos a culpar os outros por todo e qualquer obstáculo que exista ou que venha a ser inventado. Nesses dois casos, penso que a ira é uma armadilha que aprofunda os problemas que a geraram.

Mas a raiva também pode ser positiva e, em certas ocasiões, absolutamente necessária. É uma verdade milenar captada por Aristóteles no século 4 antes de Cristo. Em Ética a Nicômaco, encontramos o elogio a quem "se encoleriza justificadamente com coisas ou pessoas" - desde que seja no momento certo e por um tempo não muito longo, como ressalva o filósofo.

A raiva justificada surge quando julgamos ser vítimas de uma injustiça. Aristóteles cita como exemplos os insultos pessoais ou a amigos, mas você pode pensar numa gama muito maior de situações em que o corpo expressa um recado claro: não merecemos escutar o que estamos ouvindo.

Sufocar esse grito de proteção - que é uma emoção incontrolável - exige uma dose cavalar de iluminação ou de autorrepressão. Pergunto o seguinte: vale a pena silenciar esses sinais? Para mim, não. Volto a Aristóteles: "Os que não se encolerizam com as coisas que deveriam excitar sua ira são considerados tolos".

É verdade que existem riscos. O contra-ataque pode sair atabalhoado, num tom (ou vários) acima e exigir desculpas em seguida. Tudo longe do ideal, mas acho melhor do que a passividade submissa. Às vezes, é preciso dizer com firmeza "Isso eu não aceito", "Você me desrespeitou", "Não está certo". Saia a frase do jeito que sair.

Claro que a resposta imediata não basta. Para gerar impacto, a raiva precisa se transformar em indignação, uma característica que o pensador alemão Stéphane Hessel associa à responsabilidade com a sociedade e à luta contra a desigualdade e a injustiça (não se confunde, portanto, com o ódio que visa eliminar o outro). Deixar-se corroer pela ira é um erro, mas suprimi-la também é. Ela pode ser a motivação de mudanças reais. Em tempos de conformismo, a raiva é uma forma de defender seus valores mais profundos.

Ilustração: Adriana Komura