Seções | CONFLITOS | Em Dia

As câmeras que humilham

POR:
Pedro Annunciato e Carla Almeida

Um novo tipo de agressão virou rotina nas redes sociais: enquanto fazem provocações e afrontas, estudantes usam celulares para gravar a reação de professores e gestores e postar os vídeos na internet. Humilhado, o profissional vê sua intimidade invadida e, não raro, recebe uma avalanche de ataques e ameaças.

O caso notório mais recente ocorreu em Mossoró (RN), na EE Aida Ramalho Cortez Pereira. O aluno Ricardo Silva, 19 anos, que estava sentado no colo do namorado, filmou o momento em que a diretora, Hévila Maria, pedia que ele se levantasse. Na gravação, o garoto acusa a gestora de homofobia e tenta intimidá-la com a câmera.

A cena da briga viralizou e recebeu centenas de comentários em diversas publicações no Facebook - boa parte deles favoráveis à diretora. Dias depois da confusão, Hévila registrou um boletim de ocorrência contra Ricardo.

"Esse tipo de atitude causa indignação e enorme sofrimento ao profissional. É exaustivo lidar com a exposição, e a relação com o agressor fica bastante estremecida", descreve Raul Alves, pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem Unesp/Unicamp).

Mas o que fazer quando acontece um problema como esses? Como em qualquer situação de confronto, não há uma fórmula pronta para resolver qualquer caso. Mas existem algumas medidas que você, se um dia passar por isso, pode adotar para se proteger e reconstruir as relações com os alunos. Veja quais são elas.

 

ESTRATÉGIAS PARA SUPERAR A AGRESSÃO
Como agir quando sua imagem é exposta nas redes

Chame o agressor para uma conversa franca

A primeira providência a ser tomada é convocar o aluno reservadamente para falar sobre o ocorrido, de forma assertiva, mas serena. Diga quanto você se sentiu ferido pela postagem dele e mostre as consequências negativas que a atitude trouxe à sua rotina. Deixe claro que é preciso haver uma relação de respeito mútuo dentro da sala de aula, e que expor um colega ou um professor daquela forma
não é uma atitude aceitável.

Proponha uma reparação adequada

Além da conversa, é importante que o estudante se comprometa a reparar a ofensa cometida. O primeiro passo é solicitar que a postagem seja apagada das mídias sociais, mas também é possível acrescentar outras formas de sanções educativas. Você pode pedir que o aluno faça uma retratação pública nas próprias redes ou a produção de um trabalho sobre a ética das relações humanas nos meios virtuais, por exemplo.

Peça o apoio da família

A gestão pode convocar os responsáveis para tentar solucionar o problema, especialmente se houver resistência aos apelos do professor. Isso porque esse tipo de agressão, em geral, tem consequências para além dos muros da escola e, portanto, não é apenas um problema interno. No entanto, a instituição não pode se limitar a transferir a responsabilidade para a família. A intervenção serve para que os pais estejam cientes do que aconteceu e garantam que a reparação seja cumprida pelo estudante.

Denuncie a postagem e avance nas sanções

Se, depois de tudo, o agressor se recusar a voltar atrás, é hora de tomar medidas mais duras. Facebook e YouTube possuem ferramentas para denunciar perfis e publicações, que podem ser bloqueadas ou removidas. A equipe de gestão também deve ter um protocolo de ações sistemáticas para mediação de conflitos. Uma saída é adaptar a proposta do psicólogo americano Anatol Pikas para casos de bullying, uma modalidade de agressão parecida. A Universidade de Navarra disponibiliza, em espanhol, um material com essas referências.

Pondere sobre as medidas judiciais

Em tese, qualquer pessoa que se sinta agredida pode procurar uma delegacia e registrar um boletim de ocorrência, ou mesmo mover um processo contra o agressor. Essas ações, porém, podem ter pouca eficácia e aumentar a tensão entre os educadores e o aluno. É mais prudente tentar primeiro a via pedagógica e utilizar esses instrumentos somente em casos mais graves. Recomenda-se, ainda, buscar orientação jurídica profissional. No caso da rede pública, muitas secretarias de Educação oferecem esse serviço às escolas.