Seções | Artigo | Entre Colegas

Torne o coordenador um parceiro valioso

Enquanto o professor olha com lupa para o trabalho direto com sua turma, o coordenador tem outra perspectiva

POR:
NOVA ESCOLA
FELIPE BANDONI,

FELIPE BANDONI,
doutor em Biologia pela USP e professor na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo.

"Ela, ou ele, não sabe mais como é a sala de aula." Quem trabalhou em escola na certa já escutou essa frase, dita por um professor sobre seu coordenador. Curioso é que muitos que atuam na coordenação pedagógica já foram docentes. Será que em pouco tempo esqueceram o que faziam?

Muito dessa discordância se deve aos diferentes pontos de vista que cada função exige. Enquanto o professor está na linha de frente, olhando com lupa para o trabalho direto com os estudantes, o coordenador necessariamente tem outra perspectiva, que engloba mais turmas e disciplinas. São pontos de vista complementares, que deveriam dialogar para potencializar a aprendizagem.

Esse diálogo impactou algumas situações que vivi. Em uma delas, a coordenadora notou que os alunos faziam muitas perguntas em minhas aulas. Eu ficava bem satisfeito com essa participação, respondendo-os e chegando a incentivá-los a questionar. Mas ela me informou que a turma estava fazendo o mesmo com outros professores e me aconselhou a observar se, às vezes, o excesso de questões não desviava a aula do objetivo planejado. Resultado: a percepção mais ampliada dela contribuiu para resolver a minha perda de foco.

Em outra ocasião, um coordenador colocou em discussão a indisciplina recorrente em uma das turmas. Uma das professoras contou que estava tendo bons resultados com atividades que exigiam mais movimentos do corpo, como jogos e simulações de teatro. Seguindo a dica, o coordenador organizou uma oficina de dança. Não por coincidência, ele observou que muitos alunos dessa classe participaram espontaneamente. Pronto, comprovar a predileção da turma por esse tipo de atividade levou os outros professores a adotarem a mesma estratégia. Foi o resultado pedagógico de um diálogo bem-sucedido, que teve como ponto de partida a observação atenta da professora.

O trabalho coletivo depende de uma respeitável dose de comunicação entre a equipe. E isso inclui reuniões, relatórios e notas cujas entregas e socialização costumam gerar atrito entre coordenadores e docentes. Por um lado, precisamos reconhecer que o funcionamento da escola demanda certa burocracia; por outro, a atuação de quem coordena não se restringe a fazer cobranças. Sua responsabilidade é também promover a formação continuada dos docentes, e isso inclui propor reflexões e dialogar sobre a prática de cada um, reservando espaços para interlocução e crítica construtiva.

É preciso generosidade de ambas as partes para compreender que elas cumprem tarefas diferentes, mas que caminham juntas para atingir um objetivo comum. Nós, professores, esperamos que os coordenadores não sejam meramente fiscais, mas parceiros para organizar o trabalho, para mediar a conversa entre docentes e para solucionar as dificuldades com as turmas. Quando essa relação flui bem, aumentam nossas chances de acertar.

Ilustração: Adriana Komura