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O diálogo não é natural

Ouvir o outro é um ato dificílimo, e raro. Mas dá para aprender. Por isso, você, professor, é fundamental

POR:
NOVA ESCOLA
Leandro Begouci,

Leandro Begouci,
Diretor editorial e de produtos

Todo dia, tento ler um texto do qual discordo. Pode ser um post numa rede social ou um trecho de livro. Eu me obrigo a sentir o desconforto das opiniões que me deixam com raiva. Diferentemente dos hábitos que me dão prazer, esse tem uma hora do dia para acontecer e, geralmente, exige um pedaço de chocolate quando chega ao fim. Mas, depois de reagir com ódio no passado, escrevendo textos dos quais me arrependo, decidi que esse era o caminho para não entrar na minha bolha particular e, mais importante, não reagir com fúria quando sou obrigado a sair dela.

Dialogar não é um ato natural, especialmente com pessoas muito diferentes de nós. Quando os fatos se opõem a nossas opiniões, nos fechamos ainda mais nas nossas crenças. O problema é que o bom diálogo requer fatos concretos, sobre os quais se possa discutir e concordar, ao menos, com sua existência. Não é preciso gostar deles.

Antropólogos e psicólogos explicam esse fechamento às evidências. Há milhares de anos, pertencer a um grupo é mais importante do que respeitar fatos. Não importa que, nem sempre, o sacerdote da aldeia acerte a chegada das tempestades. O fundamental é continuar sendo membro da aldeia. Discordar da crença comum é bem complicado... Quem vai correr o risco de ser excluído?

Isso continua acontecendo. Seja com pais, seja com colegas de escola, muitas vezes as evidências, da forma como são expostas, não ajudam. Pelo contrário, elas criam ainda mais resistência. Você pode ser visto como arrogante, prepotente, alguém que se acha o dono da razão. Em tempos de emoções à flor da pele, essa situação fica pior.

É por isso que a escola tem um papel fundamental. Ela constrói conhecimento sobre o que nos faz conviver em sociedade hoje, por mais que isso contrarie velhos hábitos. O diálogo surgiu da necessidade de fazer com que pessoas de grupos diferentes conversassem para um bem comum. Nesse contexto, não importa que um grupo acredite no deus Sol e o outro não. O que importa é que concordem em compartilhar o mesmo rio para ninguém passar sede.

A escola é onde as pessoas podem aprender a fazer isso. Elas não precisam concordar em tudo - mas podem concordar que o interlocutor, embora tenha opiniões das quais se discorda, age com as melhores intenções, segundo suas convicções. Isso cria empatia com o argumento alheio e, melhor, faz com que nos preparemos para o diálogo. Se você respeita a pessoa, vai se preparar para conversar com ela.

É por isso que o ódio é tão nocivo. Ele nos faz agir por impulso. Ele nos faz voltar para um mundo em que vivíamos acuados dentro de cavernas. Nada mais distante do mundo em que vivemos, em que a variedade das conexões enriquece tanto nossa vida. Se os alunos não aprenderem a dialogar sem ódio, eles vão perder justamente uma das maiores riquezas deste século. Concorda? Discorda? Escreva para leandro@novaescola.org.br

Grande abraço.

Ilustração: Adriana Komura