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Por: Rodrigo Ratier e Patrick Cassimiro

Você pode parar a guerra

A saída é dialogar - mas é preciso saber como. Conheça a teoria e as práticas que vão ajudar você a vencer o discurso de ódio

N aquele país moravam pessoas muito diferentes entre si. Havia desavenças, mas convivia-se civilizadamente. Até o dia em que uma confusão política mudou as coisas. Grupos se reuniram e começaram a marcar suas diferenças em relação aos demais. Cada um passou a construir a própria versão da história, sempre com dois personagens indispensáveis: "nós" e "eles". As pessoas acreditaram nesses relatos. As discussões se tornaram mais intensas e as ofensas o novo normal. A sensação era de que algo de ruim estava para acontecer.

O país era a Iugoslávia. A confusão política era o colapso do comunismo no fim dos anos 1980. Os grupos se uniram em torno de raízes étnicas. E as versões da história se tornaram tão díspares que algo muito ruim aconteceu: uma guerra civil, que durou dez anos e deixou 140 mil mortos.

É improvável que os desentendimentos no Brasil cheguem a esse ponto. Não temos um mosaico étnico, racial ou religioso de potencial explosivo. Mas temos uma sociedade dividida, em que as histórias que contamos sobre os fatos - as "narrativas", para usar uma palavra da moda - estão cada vez mais distantes. "Nossa experiência em guerras indica que a quebra da comunicação entre os adversários é um fator fundamental na eclosão de um conflito", escrevem Steinar Bryn e Inge Eidsvåg no livro Understanding the Other - em português, Entendendo o outro. Eles são mediadores do Centro Nansen para a Paz e o Diálogo, ONG norueguesa indicada ao Nobel da Paz pelo trabalho nos Bálcãs.

É um alerta para nós. Por aqui, a bomba não estourou como na Iugoslávia, mas o pavio que pode jogar tudo pelos ares é o mesmo: o discurso de ódio. Estamos numa guerra particular e temos nossas vítimas: amizades desfeitas, familiares que mal se falam, grupos inimigos e uma sensação de que a reconciliação será muito difícil.

Num sentido estrito - o do Direito -, discurso de ódio é crime. A legislação brasileira pune a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional com até três anos de prisão. Só que hoje o cardápio de potenciais ofensas é mais amplo do que o coberto pela lei. "As pessoas estão em desacordo sobre tudo, basicamente, desde quando se deve pedir um táxi ou sair para jantar e até se deveria existir um califado", afirma o filósofo francês Alain de Botton no artigo Como Discordar (Sem Iniciar a Terceira Guerra Mundial). Num mundo em que tudo vira polêmica, saber como participar da discussão é competência essencial. "Embora possamos não considerar 'violenta' a maneira de falarmos, nossas palavras não raro induzem à mágoa e à dor, seja para os outros, seja para nós mesmos", afirma o psicólogo americano Marshall Rosenberg no livro Comunicação Não-Violenta.

O discurso de ódio nasce quando um lado passa a ver o outro como inimigo a ser vencido

Como chegamos a ponto de o ódio ser o ar que respiramos nas conversas cotidianas? Há causas antigas e novas. As antigas dizem respeito à nossa incapacidade de compreender o outro, especialmente em tempos de polarização. Na lógica de pensamento que opõe inimigos, os lados se afastam. O diferente se torna ainda mais desconhecido. Tende a virar a fonte de todos os males e, por isso, precisa ser exterminado. "Vai para Cuba" ou "Vai para Miami" sinalizam esse desejo de silenciar o adversário. É a demonização, que no discurso de ódio ganha o reforço de outros artifícios (veja no quadro abaixo os mais comuns).

COMO IDENTIFICAR O DISCURSO DE ÓDIO

Entender as estratégias é o primeiro passo para combatê-las

1. Ofensas

Palavras que desrespeitam o interlocutor são o sinal mais evidente de ódio: burro, idiota, encostado...

2. Ataque pessoal

O ad hominem, em latim, é quando se ataca a pessoa, e não o argumento: "Você não é professor; não pode opinar sobre Educação".

3. Palavras carregadas

Exageros que ressaltam defeitos dos adversários. "O diretor foi humilhado", "A coordenadora deu chilique".

4. Estigmatização

Reduzir oponentes a uma característica negativa: empresários "são capitalistas insensíveis"; professores são "militantes travestidos de educadores".

5. Bode expiatório

Culpar uma pessoa por um problema complexo: "Paulo Freire é o responsável pela má qualidade da Educação".

6. Neologismo ofensivo

Palavras inventadas para agredir: petralha, coxinha, esquerdopata, reaça, gayzista, feminazi...

7. Espantalho

Distorção do argumento do adversário para atacá-lo mais facilmente. Exemplo: chamar de "kit gay" o material Escola sem Homofobia.

8. Versão editada

Os famosos "vídeos dos oclinhos", com alguém vencendo um opositor, não representam o que ocorreu no debate.

9. Você também

Do latim tu quoque, significa devolver a acusação: "Na sua escola o Ideb também é péssimo".

10. Falso dilema

É mostrar duas opções opostas como as únicas possíveis (quase sempre, há outras". "Se você não faz piquete, é fura-greve."

11. Chamado à guerra

Estratégia dos polemistas para seguir em evidência: "Fulano desafia Beltrano para um debate".

12. Apelo ao passado

Ideia de que tudo ia bem até surgir o "inimigo" (famílias "desestruturadas") ou uma ameaça à tradição
(a progressão continuada).

13. Inversão de sinais

É a troca de sentido da violência: "Com a demarcação, os índios vão tomar nossas terras"

O Facebook como convite à agressão

Nada disso é de hoje. Polemistas - pessoas que defendem um argumento de forma apaixonada e criticando violentamente seus adversários - existem desde a Grécia Antiga. A novidade é o retorno arrebatador dessa forma de expressão. Redes sociais são a principal causa dessa reencarnação. Por três motivos principais.

Primeiro, a competição por atenção privilegia quem grita mais. "Fulano destrói Beltrano", "Sicrano detona seus críticos" e construções do tipo ocupam o espaço do debate razoável de ideias. Segundo, o algoritmo, mecanismo que tende a mostrar conteúdos mais afinados com o interesse de cada internauta. O resultado é a criação de "bolhas de informação" com discursos próprios, que agrupam pessoas com opiniões parecidas.

O terceiro é o contato a distância. Você já teve a impressão que as pessoas não repetiriam ao vivo as barbaridades que publicam no Facebook? De fato, há estudos que indicam que as redes sociais convidam à agressividade, enquanto encontros presenciais a inibem. "No cara a cara, descobrimos que os outros se parecem conosco. Grades que imaginávamos serem intransponíveis desaparecem", escreve Eidsvåg.

A condição para o diálogo é que os participantes se coloquem em igualdade para escutar e falar

Transformando vilões em humanos

Se estamos numa situação de guerra e se queremos sair dela, vale a pena investigar as estratégias usadas para curar feridas de povos que estiveram em conflitos. Há dois caminhos básicos. O primeiro, da punição e da revanche, aprofunda as divisões e alimenta o desejo de vingança. A outra rota é a das reparações, que começa pelo diálogo. Não vamos falar da ideia voluntarista do diálogo como varinha mágica para desfazer desavenças e mal-entendidos. A conversa sem preparação, aliás, pode romper pontes e piorar o problema.

A meta é ver o diálogo como ferramenta para ajudar pessoas a se compreender mutuamente. Há uma tradição milenar de investigação sobre o tema, originada em Sócrates (469 a.C.-399 a.C.) e Platão (428 a.C.-348 a.C.), com lugar central na obra de pensadores como Hannah Arendt (1906-1975), Martin Buber (1878-1965) e Paulo Freire (1921-1997) e na ação de líderes pacifistas, como Gandhi (1869-1948) e Martin Luther King Jr. (1929-1968). Diálogo se aprende e se ensina. Aqui entra a Educação, que ainda pouco fala sobre os recursos que ajudam a combater o ódio em interações presenciais (veja o quadro abaixo) e nas redes (veja outro quadro abaixo).

No debate que demoniza, o objetivo é silenciar o outro. A arma é a violência dos ataques

Como o diálogo é uma conversa, é preciso atenção às duas ações que a compõem: a escuta e a fala. Comecemos pela menos exercitada, a escuta. Estar aberto a ouvir de verdade e com interesse é essencial para que o diálogo ocorra. O objetivo é a empatia, a compreensão respeitosa do que os outros estão vivendo. Rosenberg, o psicólogo americano, defende que ela só ocorre quando suspendemos os julgamentos sobre a ação das pessoas. Isso não significa concordar com elas, mas entender que mesmo escolhas erradas podem ser motivadas por necessidades genuínas - o exemplo clássico é do assaltante que rouba um mercado para alimentar a família. Quando a empatia funciona, vilões viram humanos, dizem os coaches Kerry Patterson, Joseph Grenny, Ron Mc-Millan e Al Switzler, autores de Conversas Cruciais. Eles sugerem uma indagação: "Toda vez que se pegar rotulando uma pessoa, pare e pergunte: 'Por que alguém razoável, racional e decente faria o que essa pessoa está fazendo?".

COMO VENCER O ÓDIO CARA A CARA

 

O contato pessoal é a situação mais fértil para o diálogo

1. Escolha o melhor momento

Muitas vezes é preciso esperar para dialogar. Converse com a outra pessoa e decidam, juntos, a hora e o local mais adequados.

2. Escute de verdade

Procure entender de onde vem a opinião do interlocutor. Não interrompa. Dê tempo para ele se exprimir e pergunte a si próprio: "Por que essa pessoa pensa como pensa? Por quais motivos ela tomou as decisões que nos trouxeram até aqui?"

3. Pense antes de falar

Escolha as palavras com cuidado e adote um tom diplomático: "Quero escutar você e convidá-lo a ouvir o que tenho para dizer".

4. Descreva fatos, não julgue

Avaliações põem as pessoas na defensiva. Em vez de "Fulano é indisciplinado", prefira "Fulano foi para a diretoria quatro vezes neste mês".

5. Evite certezas absolutas

Indique que suas opiniões são provisórias e você está aberto a outras versões: "Tenho pensado da seguinte forma", "Do que posso ver, entendo que?"

6. Expresse seus sentimentos sem violência

"Senti raiva quando você começou a gritar" é melhor do que "Você é histérico", que agride o outro.

7. Busque o terreno comum

Sinalize se houver alguma parte do argumento do interlocutor com que você concorde. Isso ajuda a aproximar vocês.

8. Abra espaço para as emoções

Choro, risos ou raiva são reações possíveis e naturais em conversas sobre temas difíceis.

9. Se for o caso, peça desculpas

Se lhe parecer claro que você desrespeitou o outro, diga que sente pelo erro.

10. Se não estiver convencido, não aceite a versão contrária

Dialogar não significa concordar automaticamente com o interlocutor, mas conhecer melhor seu ponto de vista e suas motivações para agir.

O diálogo não precisa terminar em acordo. O importante é manter aberta a comunicação

No tom certo, fale dos incômodos

Quanto à fala, a ideia central é fugir do falso dilema dos conflitos: silenciar ou responder violentamente. Há uma terceira opção: falar com honestidade e firmeza o que importa. Reconhecer que sua visão sobre um fato pode ser incompleta é importante para obter a empatia do interlocutor. O mesmo cuidado vale para a escolha do tom. Substitua expressões que indicam opiniões fixas ("certamente", "qualquer criança sabe", "é evidente") por outras que indicam que elas podem mudar ("me parece", "no momento, creio que").

Aí, você pode e deve dizer o que o incomoda. Se julgou ser um xingamento, por exemplo, mostre como o que foi dito o fez se sentir. No melhor dos casos, isso pode mudar - para melhor - o curso da conversa. Rosenberg traz o exemplo do pai ironizado pelo filho, cena que você já pode ter experimentado em sala: "Quando ouço você dizer coisas no tom de voz que acabou de usar, é difícil me controlar. Você poderia me ajudar nisso".

Um último ponto é saber o que esperar de um diálogo. Não é um debate, em que o objetivo é vencer. Também não é uma negociação, em que é preciso concordar sobre alguma coisa. Ele pode gerar pedidos de desculpa ou atitudes que reparem danos, mas não é necessário. O diálogo bem-sucedido é aquele em que cada um se expressa e entende melhor o outro lado. A conclusão pode ser: "Decidimos que precisamos falar mais sobre isso". Parece pouco, mas manter um canal de comunicação encurta distâncias e previne a demonização. Pode, enfim, parar a guerra.

COMO VENCER O ÓDIO NAS REDES SOCIAIS

O diálogo no ambiente virtual exige paciência e dedicação

1. Caso se sinta ofendido, respire

Deixe passar o pico da raiva para conversar.

2. Veja se você está falando com uma pessoa real

No caso de desconhecidos, confira o perfil para ver se não se trata de um fake (perfil falso) ou troll (pessoa que entra em discussões só para enfurecer os outros). Nesses casos, é melhor ficar quieto.

3. Decida se quer dialogar

Um diálogo online exige tempo e paciência. Verifique se você possui ambos.

4. Sinalize o uso do discurso de ódio

Em caso de ofensa, você pode tentar algo assim: "Oi, Fulano. Registro que você me chamou de imbecil, uma ofensa que me provoca tristeza e raiva". O choque pode ser importante para que as pessoas se deem conta do que falam - e, no melhor dos casos, ajustem a comunicação.

5. Convide para a conversa

Sugira que o tom seja cordial e o conteúdo centrado na argumentação: "Topo dialogar de forma civilizada sobre nossas ideias. O que acha?".

6. Peça que o interlocutor seja específico

"Pode me mostrar com que parte do meu texto você não concorda?"

7. Peça sugestões

Vale para comentaristas que se focam apenas nas críticas. "Já entendi suas objeções. Agora, gostaria de saber o que você está defendendo sobre essa questão."

8. Não tenha medo de não ter opinião

Você não precisa ser advogado de ninguém nem argumentar sobre qualquer tema: "Não conheço essa questão", "Ainda não sei o que pensar sobre o assunto".

9. Agradeça

Vale sempre que a conversa for respeitosa: "Obrigado pela oportunidade do diálogo".

10. Quando necessário, encerre o papo

O diálogo não é uma ferramenta mágica. Se as ofensas continuarem, avise: "Não tenho interesse em conversar dessa forma. Até mais"

 

Imagens: GETTY IMAGES/STONE

CONSULTORIA: AUGUSTO CUGINOTTI, ANFITRIÃO DE APRENDIZAGEM DA COCRIAR PRÁTICAS COLABORATIVAS E ESPECIALISTA EM PROCESSOS DE GRUPO PELO TAVISTOCK INSTITUTE OF HUMAN RELATIONS, NO REINO UNIDO.

FONTES DOS QUADROS: LIVROS DIÁLOGOS E MEDIAÇÃO DE CONFLITOS NAS ESCOLAS - GUIA PRÁTICO PARA EDUCADORES, DO CONSELHO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO; UNDERSTANDING THE OTHER, DE STEINAR BRYN, INGE EIDSVÅG E INGUNN TROSHOLMEN; COMO FAZER AMIGOS E INFLUENCIAR PESSOAS, DE DALE CARNEGIE; COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA ? TÉCNICAS PARA APRIMORAR RELACIONAMENTOS PESSOAIS E PROFISSIONAIS, DE MARSHALL ROSENBERG; E CONVERSAS CRUCIAIS, DE KERRY PATTERSON, JOSEPH GRENNY, RON MCMILLAN E AL SWITZLER.