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Gestão Escolar

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Por: Sophia Winkel, Carla Almeida e Maggi Krause

E se o projeto ameaça desabar?

Calma! Dá para contornar imprevistos, replanejar etapas e fazer avaliações para alcançar o sucesso

Oano começou atípico. Além de uma grande troca na equipe gestora da EMEF Irmã Irene Alves Lopes -Irmã Zoé, em Paraíbuna, no interior paulista, perderam-se vários dias letivos com emendas de feriados e devido a uma paralisação dos professores e funcionários da Educação por melhores salários. Um dos cronogramas atingidos foi o do projeto de Matemática do 4º ano, que tinha como objetivo melhorar o desempenho dos alunos na resolução de situações-problema.

Ao comparar as ações programadas e as executadas ao longo do semestre, a coordenadora pedagógica Leandra Campos das Neves Faria percebeu que seria impossível concluir todas as atividades. ''Reorganizamos o planejamento e tiramos algumas etapas do trabalho para fechar no tempo estipulado. No entanto, vamos retomar o projeto este semestre para atingir plenamente a proposta inicial'', conta a coordenadora.

Para a especialista Maria Luiza Ramos, formadora do curso Gestão para Aprendizagem, desenvolvido pela Elos Educacional, as equipes têm dificuldade para administrar o tempo disponível. ''Professores e coordenadores se queixam de interferências e urgências que atrapalham. Por isso, quem planeja deve supor problemas que, apesar de serem imprevistos, acontecem o tempo todo. Acompanhar o plano de ações a cada atividade permite checar se haverá tempo suficiente.''

A complexidade dos objetivos também pode ser um obstáculo. "Quando eles são ambiciosos demais, por exemplo, pode ser preciso revê-los ou esticar o cronograma. Outra questão é distribuir responsabilidades para cada um dos envolvidos de forma clara. Na ausência de alguma pessoa, as demais podem seguir com a proposta e ninguém fica sobrecarregado, o que interfere na qualidade do projeto e nos prazos", completa a formadora.

É frustrante quando um projeto mobiliza esforços e desaba antes mesmo de parar em pé. Aconteceu com a oferta de aulões interdisciplinares da EE Plínio Pinheiro, em Marabá, no Pará. Pensada para motivar e preparar os alunos para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a atividade passou meses atraindo apenas 20 jovens por sábado. O motivo: as aulas eram monótonas e os alunos não viam valor em ir à escola para ver mais do mesmo. Esse ano, em nova tentativa da gestão, o aulão ressurgiu repaginado. Durante uma semana pedagógica, os professores se prepararam para lidar com interdisciplinaridade e abordagens inovadoras e atraentes para os jovens. Mesmo assim, os estudantes não estavam convencidos de que o projeto tinha sido aprimorado.

OS DESLIZES MAIS COMUNS E OS AJUSTES POSSÍVEIS

  • As metas não estão claras

Estabeleça os objetivos, as responsabilidades e os prazos com os participantes do projeto para que todos se engajem.

  • A infraestrutura é inadequada

Com antecedência, reorganize os espaços da escola, busque a ajuda da comunidade escolar ou peça recursos à Secretaria de Educação.

  • Interrupções bagunçam o cronograma

Vale prever que acontecerão imprevistos e distribuir tarefas de forma eficiente para que os prazos sejam cumpridos.

  • Os objetivos não estão sendo alcançados

A equipe deve fazer avaliações frequentes e, se necessário, remanejar ações e realizar intervenções estratégicas.

 

"Entendemos hoje que a comunicação eficaz é fundamental", concluiu o coordenador pedagógico Adenilson Freitas Godinho, que identificou os pontos frágeis da proposta junto com sua equipe. "Para os estudantes, não estávamos explicando o que os aulões acrescentariam aos seus projetos de vida nem sobre a didática diferenciada dos encontros. Para os professores, não tinha ficado claro como sua visão pedagógica seria ampliada", contou Adenilson. Um vasto trabalho de convencimento, a criação de um jornal e de um blog para dar visibilidade às atividades transformou os aulões em campeões de público: a cada sábado, uma média de 140 participantes lota a quadra da escola. Música, apresentações de teatro e atividades lúdicas animam os encontros, abertos à comunidade. Em um deles, a professora de Química Darcy Alves instigou os participantes a investigar como os super-heróis da série X-Men poderiam ter os poderes que exibem, considerando as composições químicas de seus corpos.

Sem medo de reavaliar e corrigir

"O engajamento dos professores afeta diretamente o envolvimento dos alunos e, por consequência, o sucesso do projeto", explica Leninha Ruiz, formadora de coordenadores e professores de Educação Infantil. Uma questão-chave é a equipe pedagógica participar na construção desde o princípio, como aconteceu no projeto dos Cantos de Aprendizagem, na EMEI Arco Íris, em Lagoinha, no interior de São Paulo. Na hora de acompanhar o projeto, o grupo percebeu que ele precisava ser reformulado. "Deram muito certo os espaços temáticos nas salas de aula. No entanto, a equipe observou que, durante o recreio e ao final do período, enquanto alunos mais novos aguardavam a saída dos mais velhos para embarcar no transporte escolar, as crianças se machucavam, brigavam e ficavam à toa", conta Claudiane Santos, coordenadora pedagógica da escola. O projeto foi ampliado para o espaço externo, que hoje conta com os cantos do desenho, do supermercado, do escritório, da leitura, da casinha. "Substituímos as instalações temáticas que não estão interessando mais. Os professores ajudam na manutenção e na criação dos novos cantos, levando objetos e ideias. Em seguida, decidimos juntos quais serão montados", conclui Claudiane.

As readequações explicitam que o desempenho do projeto passa por avaliação constante. Esse é um cuidado importante, segundo Maura Barbosa, coordenadora pegagógica da Comunidade Educativa Cedac. "A avaliação precisa ser regular. Quando fazemos um plano de ação, analisamos o resultado alcançado de cada etapa, para que a equipe possa corrigir e ajustar as seguintes. Não se pode esperar o final do projeto para descobrir que ele não deu certo!" O fim de um bimestre ou trimestre é o momento ideal para olhar o que os resultados revelam sobre o processo de ensino naquele período e fazer reflexões.

"Quando os objetivos de um projeto são ambiciosos demais, pode ser preciso revê-los ou esticar o cronograma."
MARIA LUIZA RAMOS, formadora do curso de Gestão para Aprendizagem, da Elos Educacional

Se as ações não estiverem atingindo os objetivos por completo, vale reunir a equipe e traçar novas estratégias enquanto ainda dá tempo. A sugestão de Maura é que a conversa não seja sobre a atuação específica de alguém. "Quando o resultado se torna a pauta de discussão, a sensação de insucesso pessoal é amenizada. Com base nos indicadores, o coordenador deve buscar junto com a equipe quais as variáveis que levaram a esses resultados e como será possível ajustar ou transformar o projeto. É um caminho mais reflexivo, proativo e eficaz", orienta Maura.

Fotos: RICARDO TOSCANI