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Sala de Aula | Ciências | 4º ano | Sala de aula

Aquele chocolate... virou salada

A turma refletiu sobre informações nutricionais e hábitos alimentares

POR:
André Bernardo

Quando contou para os colegas que precisou fazer mudanças em sua dieta para chegar ao peso ideal, Vitória Lissah, 9 anos, não imaginava que seu relato inspiraria a professora de Ciências Keice Dubiella Oliveira Vazzoler a abordar o tema em sala de aula. Salivando de curiosidade, eles começaram a fazer perguntas do tipo: "O que é uma alimentação saudável?" e "Que doenças eu posso ter se não comer direito?".

O cardápio de dúvidas da turma de 4º ano da EM Professora Ivete Chuery Vieira Torquato Vicco, em Mogi das Cruzes, a 46,2 quilômetros de São Paulo, foi o aperitivo para a educadora introduzir a discussão sobre hábitos alimentares. Como degustação, ela distribuiu uma planilha para os pequenos e pediu que, durante cinco dias, anotassem nela quantas refeições faziam, a que horas e que tipo de alimentos mais consumiam. "Ao ter de registrar o que está comendo, a criança se vê motivada a refletir sobre seus costumes. É um método interessante de fazê-la compreender a importância de tomar decisões conscientes em prol de uma vida melhor", avalia Celi Rodrigues Chaves Dominguez, docente da Licenciatura em Ciências da Natureza da Universidade de São Paulo (USP).

Ao recolher os materiais e analisá-los, Keice constatou dois problemas: dos 21 alunos, 14 costumavam pular refeições, e quase todos ingeriam um único tipo de nutriente o dia inteiro, o carboidrato. Com base na leitura conjunta de textos como Educação Nutricional para Alunos do Ensino Fundamental, do Ministério da Saúde, e Viva Melhor: Frutas, Verduras e Legumes, da USP, a professora falou sobre a diferença de alimento e nutriente, a importância das refeições e a formação da pirâmide alimentar.

Na hora de estudar os nutrientes, a turma foi organizada em equipes. Cada uma ficou responsável por pesquisar sobre um determinado grupo e fazer uma apresentação sobre ele: carboidratos, proteínas, gorduras, vitaminas e sais minerais. Para auxiliá-los, a educadora indicou livros paradidáticos, como Eu Nunca Vou Comer um Tomate (Lauren Child, 32 págs., Ed. Ática, tel. 11/4003-3061, 34 reais) e Incentivo à Alimentação Infantil de Maneira Saudável e Divertida (Evelyn Del Carmen, 112 págs., Ed. Metha, 21/2061-5406 e 21/2915-8233, 53 reais).

Transformação alimentar

A aula seguinte foi o momento do contato com um especialista da área. Na visita ao Serviço Social da Indústria (Sesi), os pequenos leram folhetos sobre alimentação saudável e sabatinaram a nutricionista Karina Victor de Souza com perguntas formuladas previamente em sala de aula. Ela orientou os alunos para valorizarem todos os grupos alimentares na hora das refeições e deu dicas de como evitar o desperdício de frutas, legumes e verduras. De volta à escola, todos registraram, em relatórios individuais, os principais aprendizados da visita. 

Para atestar se os novos conhecimentos estavam realmente impactando a rotina à mesa dos estudantes, a educadora pediu que eles preenchessem mais uma planilha. Desta vez, tinham que anotar os nomes dos nutrientes consumidos e a quantidade de porções ingeridas todos os dias. O resultado deu gosto: 19 alunos, dos 21, disseram estar muito mais atentos com a frequência com que se alimentavam e, principalmente, passaram a escolher melhor os ingredientes que colocavam no prato. 

O olhar mais atento à tabela nutricional tem feito as crianças se alimentarem melhor

A seleção da dieta passou a levar em conta as informações nutricionais dos rótulos. Para dar concretude ao que estava estampado nas embalagens, Keice propôs realizar um experimento para comparar a presença de vitamina C no suco de limão natural e no de caixinha ou em pó. "Eles colocaram cada tipo de suco em um tubo de ensaio e adicionaram uma mistura de amido dissolvido em água com iodo a todos eles. Essa mistura, que é roxeada, perde a cor no contato com a vitamina C. Ao observarem cada recipiente, viram que aquele com suco natural perdeu a coloração rapidamente; nos outros, quase sem vitamina, o roxo não desapareceu", relembra. 

Na última etapa do trabalho, cada aluno montou um cardápio saudável para um membro da família. A turma vestiu para valer o jaleco de nutricionista. "Cortei fritura da alimentação de todos. Se quiserem comer peixe, frango ou carne, só grelhado ou assado", avisa Gustavo Nóbrega Aguinaga, 9 anos. "Ensinei aos meus pais que é bom comer carboidrato antes de praticar esporte. Dá energia! ", conta Davi Tadashi, 9 anos.

"Antigamente, eu comia muita porcaria. Chocolate, então, nem se fala! Aprendi que não preciso deixar de comer o que gosto, e sim me alimentar de um jeito equilibrado."

VITOR HUGO RIBEIRO, 9 ANOS

Professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Antônio Carlos Pavão aprova a sequência didática da professora. "Sou adepto da Educação militante, que tem reflexos na sociedade de maneira geral. O conhecimento só tem valor quando provoca transformação na vida das pessoas", salienta. Na opinião dele, seria possível enriquecer ainda mais o trabalho fazendo um retrospecto histórico da nutrição humana, desde quando a descoberta do fogo causou uma reviravolta nos hábitos alimentares até os dias de hoje, quando temas como dieta vegetariana, macrobiótica e orgânica pautam os telejornais. 


Entre os alunos, os efeitos da boa alimentação vieram para ficar. Vitória Lissah, citada no início da reportagem, que o diga. Atualmente, em vez da habitual pizza, ela se esforça para comer frutas e legumes. Quanto aos esportes, espera com ansiedade a quinta-feira - dia da aula de Educação Física na escola. E em termos de profissão, enche a boca para dizer: "Quando crescer, quero ser nutricionista".

Não é montagem: Davi Tadashi, 9 anos, passou a comer melhor ao estudar os alimentos. Fotos: Ramón Vasconcelos