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Jornalismo

Estudar faz bem a sua carreira

A necessidade de se aperfeiçoar é grande e o mercado exige cada vez mais. Por isso, o número de professores que voltam a estudar não pára de crescer. Se você está pensando em aderir, a hora é agora

PorNOVA ESCOLAGraziella BettingPaola GentileMárcio Ferrari

01/10/2003

 

Foto: Sean Justice/Getty Images
 

Quem trabalha com conhecimento, como você, nunca pode deixar de estudar. "Antigamente havia a crença ingênua de que, uma vez formado, se estaria eternamente apto para o mercado", diz José Cerchi Fusari, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Hoje é difícil encontrar alguém que ainda acredite nisso. Os profissionais do magistério conhecem as limitações da formação que receberam e a oferta de cursos de capacitação em serviço é cada vez maior justamente porque a procura não pára de crescer.

"Os que mais buscam formação continuada, e com muita avidez, são os que lecionam de 1ª a 4ª", diz Claudia Davis, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas, em São Paulo. Atualização e aprimoramento são fatores que movem muitos desses educadores. Mas a busca tem pelo menos outro motivo: a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que, segundo convicção disseminada, exigia que todos os professores tivessem diploma de nível superior.

O texto da Lei não diz exatamente isso (veja quadro). Mas o mercado recomenda o diploma. "Para muitos, continuar estudando é um modo de conseguir ou manter o emprego, e não há lei que mude isso", diz Oliver Mizne, da Ideal Invest, financeira especializada em educação.

Se você está pensando em retomar os estudos, a hora é agora. As ofertas são muitas e as vantagens, na opinião dos professores que entrevistamos, inúmeras.

Mitos e verdades sobre as leis

Há uma interpretação equivocada de que a LDB, de 1996, obriga de modo absoluto que todo professor de Ensino Fundamental e Educação Infantil tenha diploma de nível superior até 2007. Acredita-se também que a obrigação foi derrubada no dia 31 de julho, quando o ministro da Educação, Cristovam Buarque, homologou um parecer do Conselho Nacional de Educação a respeito da questão.

Não é bem assim. Nem a LDB exige formação superior como precondição para exercer o magistério em todos os níveis da educação básica, nem os professores estão totalmente dispensados de obter o grau universitário. Como você leu na edição 163 de Escola ("Quem não tiver diploma vai perder o emprego?"), por falhas na redação e na hierarquização da lei ela admite o exercício da profissão por quem tem apenas Normal, de nível médio, mesmo depois de 2007.

Por outro lado, pela Lei 10.172/2001 do Plano Nacional de Educação, até 2011 "70% dos professores de Educação Infantil e Ensino Fundamental devem possuir formação específica de nível superior". A meta deverá ser garantida por um "programa conjunto da União, dos Estados e Municípios".

"A política do ministério é perseguir o objetivo de que todos os professores tenham nível superior, mas gradualmente", diz a secretária de Educação Infantil e Fundamental do MEC, Maria José Feres. Aproximar-se dessa meta é uma das finalidades do Sistema Nacional de Formação Continuada e Certificação de Professores, lançado em junho pelo governo federal.

Por enquanto o novo sistema incidirá apenas sobre a educação continuada, prevendo a concessão de bolsas de incentivo depois da realização de um exame de certificação, não obrigatório, que avaliará "carências e necessidades" dos docentes de 1ª a 4ª série. O exame de certificação está previsto para janeiro. Para ser completo esse exame deverá também ser aplicado para a formação inicial, nos alunos que estão concluindo cursos de formação de professores em nível médio ou superior.

 



Falta de tempo: o maior empecilho

Para quem já dá duro em classe, muitas vezes correndo de uma escola para outra, pode parecer difícil assumir mais uma ocupação. Pesquisa da Confederação Nacional da Educação (CNTE) realizada recentemente em dez estados mostra que os educadores brasileiros somam à jornada de 20 a 40 horas semanais outras 22 horas de trabalho adicionais. Passam oito horas fazendo, em casa, tarefas relacionadas às aulas e ainda dedicam em média 14 horas por semana a serviços extras remunerados, para complementar a renda. Por isso muita gente adia o momento de arregaçar as mangas e pôr as mãos nos livros (e no computador). Mas é preciso vencer as próprias resistências. Afinal, além de proporcionar a melhoria da qualificação, o estudo pode trazer uma remuneração maior.

"Na área de educação, o profissional não pode ter preguiça de estudar", diz a professora paulistana Marina Naomi Mizuno. "Se ele não tem o prazer pelo estudo ou pela leitura, não vai conseguir passar esse gosto para os alunos." Marina tem 28 anos e trabalha desde os 16 na área. Fez magistério, faculdade de Psicologia, especialização em psicologia clínica, inglês e atualmente se prepara para o mestrado.

Além de dar aula para a Educação Infantil e lecionar Psicologia nos colégios Brasília e São Francisco de Assis, na capital paulista, Marina dedicou os sábados dos dois últimos anos a um curso de aperfeiçoamento promovido pelo Sindicato dos Professores de São Paulo (Sinpro-SP) e gostou. Para ela, o melhor foi poder trocar experiências com uma grande gama de colegas, da rede pública e particular, de Educação Infantil e de Ensino Fundamental e Médio, orientadores, coordenadores e até gente que não está trabalhando no momento.

Autoconfiança e salário: os maiores ganhos

A formação proporciona aos professores a revalorização da carreira numa época em que se lamenta a perda de prestígio da profissão. "Eu me considerava totalmente desacreditado", diz Valmir Aparecido Verza sobre seu estado de ânimo quando, há três anos, decidiu prestar o vestibular para o Normal Superior da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. "Fazia muito tempo que não entrava numa sala de aula como aluno." Valmir, de 39 anos, leciona Arte na Escola Estadual Angelina Jaime Tebet, em Ivinhema (MS) e "pegou firme no estudo" depois que passou no vestibular. Não foi fácil, porque ele tinha de se deslocar semanalmente 130 km de sua cidade até Dourados, onde fica a universidade, para assistir às aulas ministradas às sextas-feiras e aos sábados.

Além de arcar com custos de passagens e material de estudo, Valmir teve de desdobrar-se para seguir a parte do curso dada a distância. Como não tinha computador, usava o da escola onde leciona. Quando o esquema não funcionava, fazia os trabalhos a mão, pagava para alguém digitá-los e enviava pelo correio para a universidade. Hoje ele aplica na sala de aula novos métodos que conheceu na universidade e pensa em continuar a estudar. "Vi que não é um bicho-de-sete-cabeças", diz.

Assim que colar grau, em fevereiro, Valmir pretende entrar com o pedido de elevação de nível salarial, um direito que o diploma lhe confere. Ele espera que, com a mudança, sua renda mensal suba cerca de 50%. Como foi contratado por concurso, no cargo de professor complementar, ele acredita que o diploma também lhe abra o caminho para uma vaga de efetivo.

Computador: atualização necessária

Diferentemente de Valmir, Dayse Portugal Pereira Gomes optou por um curso superior totalmente a distância porque considerava mais cômodo. Com a liberdade de quem pode ter acesso a qualquer lugar do mundo pelo computador, Dayse escolheu a Universidade do Sul de Santa Catarina, a cerca de 800 km de Barra Mansa (RJ), onde trabalha e estuda. Ela espera a madrugada, quando seus filhos estão dormindo e a casa fica em silêncio, para se conectar ao curso de Capacitação em Projetos da Área de Informática, voltado para educadores.

Dayse, de 39 anos, leciona História e Geografia para 4ª, 5ª e 6ª séries do Ensino Fundamental e trabalha há duas décadas no Colégio Nossa Senhora do Amparo. Foi ela quem ajudou a montar o laboratório de informática educativa. Durante a implantação, sentiu a necessidade de aprofundar seus conhecimentos sobre computadores. "Quem não tiver atualização nessa área hoje é carta fora do baralho", afirma.

A multiplicação dos cursos

"Quem não tiver atualização em informática hoje é carta fora do baralho"  Dayse Portugal Pereira Gomes
 

Conseguir melhor remuneração ou vaga nas melhores escolas depende em boa parte da formação. O diploma de nível superior garante aos docentes, em média, 50% a mais de salário, segundo pesquisa divulgada em 2001 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Banco Mundial.

De quase 1,8 milhão de profissionais em atividade no Ensino Fundamental naquele ano, 50,5% tinham nível médio, 43% tinham nível superior e 6,5% eram leigos. Como o governo está obrigado pela Lei 10.172/2001, que institui o Plano Nacional de Educação, a cumprir a meta de que 70% dos professores tenham nível universitário até 2011, é necessário formar dezenas de milhares por ano.

Não é por acaso, portanto, que o número de cursos universitários de formação docente, aqueles chamados de Normal Superior, tenham mais do que sextuplicado desde 2000, quando havia 110 no país. Hoje são 674. As cifras comprovam o movimento de massa pela titulação, que se reflete, muitas vezes, na própria estrutura dos cursos, com cargas horárias reduzidas, aulas a distância e outras condições relativamente flexíveis, já que se destinam a quem está trabalhando.

"Às universidades cabe o papel de oferecer o potencial físico, humano e pedagógico para a formação acontecer no melhor nível de qualidade", diz Ricardo Ribeiro, assessor da pró-reitoria da Graduação da Universidade Estadual Paulista (Unesp). "É possível ampliar o atendimento sem cair na mediocridade. Ensinar bem para poucos é fácil. O nosso desafio deve ser manter a qualidade e ampliar nosso público. É ousado, mas dá para fazer."

Programas bem-sucedidos

Investir em capacitação não depende só de iniciativas exclusivamente individuais. Há programas de formação continuada oferecidos por instituições privadas e entidades civis e pelo governo no âmbito federal, estadual e municipal. Uma iniciativa bem-sucedida foi o Programa de Educação Continuada Formação Universitária, da Secretaria de Estado da Educação paulista, do qual Ricardo Ribeiro foi um dos coordenadores. O PEC, como ficou conhecido, envolveu algumas das principais universidades do estado.

O entusiasmo das pessoas que se beneficiaram do PEC impressionou a pesquisadora Claudia Davis, que participou de sua elaboração. "Elas saíram com a inebriante sensação do sucesso, porque tiveram a oportunidade inesperada de cursar, sem vestibular, as melhores universidades", diz.

Um exemplo é Catarina da Silva Mello, de 52 anos, que sempre havia sonhado fazer faculdade. Lecionando há 24 anos em Sorocaba (SP), ela é responsável por uma turma de 4ª série na Escola Estadual João Machado de Araújo, e já tinha entrado duas vezes na faculdade de Matemática. Começou mas não conseguiu chegar ao final. Em 2001, quando soube do PEC, viu a possibilidade de reavivar seu sonho.

O curso, em sua própria cidade, durou um ano e meio. As aulas, planejadas por docentes da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, eram dadas por meio de vídeos e teleconferências. Exigia-se muita leitura e a participação dos alunos por computador. Com isso, Catarina, que "nem sabia mexer no mouse", aproveitou para aprender a usar o computador que já tinha em sua casa havia três anos.

Catarina contabiliza outras conquistas propiciadas pelas aulas. "Apesar de ser uma pessoa solta com meus alunos danço com eles, faço sapateado , eu era muito inibida em outros ambientes", diz. Ela credita ao PEC o fato de ter vencido barreiras da timidez. Acabou sendo a oradora nas duas festas de formatura de seu grupo.

Plano de carreira ou necessidade especial

Ao escolher um curso, pode-se seguir um plano de carreira, orientar-se por interesses pessoais ou suprir uma necessidade específica. Foi esse o caso da professora Solânia Alves dos Santos. Em 1996, quando ela chegou para trabalhar na Escola Artur Ramos, em Feira de Santana (BA), teve uma surpresa. As salas de aula funcionavam no Hospital Psiquiátrico Lopes Rodrigues e atendia portadores de paralisia cerebral ou distúrbios mentais. Apesar de já ter dado aulas em outras instituições, Solânia nunca tinha trabalhado com educação especial e não sabia como lidar com os alunos.

A professora, que agora leciona no Centro de Apoio Pedagógico ao Deficiente de Feira de Santana, descobriu aos poucos como trabalhar com cada um. Desenvolvia as atividades seguindo sua intuição, com base nas dificuldades que encontrava. "Tive de aprender no dia-a-dia", diz. "Com a ajuda de um profissional da área de saúde teria sido bem melhor."

Hoje Solânia busca se aprofundar. Além de ter entrado na Faculdade de Pedagogia da Universidade Estadual de Feira de Santana, ela participou de capacitação no Instituto Anísio Teixeira, de Salvador (ligado à Secretaria de Estado de Educação). No programa, ouviu neurologistas, psicólogos e terapeutas ocupacionais. Para Solânia, é fundamental esse tipo de orientação: "Eles mostraram quais são as deficiências e como nos portar frente a cada uma".


Formação falha: uma questão de história

"Aprender com neurologistas e psicólogos é fundamental para trabalhar com educação especial"  Solânia Alves dos Santos
 

Não é de hoje que se fala das deficiências da formação do magistério brasileiro. Na verdade o assunto parece ser tão antigo quanto o país. Mas a atual crise vem dos anos 1960, quando se iniciou a expansão da rede de ensino que possibilitou o acesso à escola para as classes mais pobres. "A política de formação em pequenos grupos não deu mais conta", diz Fusari. "Passou a ser preciso formar para a massa, não como assistencialismo, mas como projeto pedagógico."

"As crianças de uma mesma turma, hoje, têm as realidades mais contraditórias e conflitantes possíveis", completa Guilherme do Val Toledo Prado, coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Continuada (Gepec) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "O professor necessita ter instrumentos para compreender o mundo em que vivem seus alunos e, a partir disso, produzir conhecimento."

Ofertas não faltam. É só ter vontade

Diante desse choque de realidade, proliferaram no país congressos, oficinas e treinamentos. Segundo Fusari, essas atividades correspondem à necessidade de "reciclar, atualizar, aperfeiçoar", ou seja, compensar as insuficiências da formação inicial. "São iniciativas importantes", diz. "Mas não costumam tornar a prática docente uma possibilidade de construção permanente, que permita ao mesmo tempo aprender e ensinar." Esse é, para ele, o objetivo principal da formação continuada que deve ser oferecida por cursos superiores.

Acima de tudo, é preciso lembrar que, como diz o português Antonio Nóvoa, um dos maiores especialistas mundiais em capacitação docente, "só o profissional pode ser responsável por sua formação". Por isso, aprenda línguas, leia livros, vá ao cinema, tenha olhos para tudo. "O bom observador extrai da natureza, das relações diárias, da banca de jornal e da história do quitandeiro a ponte para transmissão dos conhecimentos, dos valores, dos sentidos", diz Ricardo Ribeiro.

Como escolher o melhor curso

Você já deve ter ouvido falar em Pedagogia e Normal Superior, pós-graduação de lato e stricto sensu, cursos presenciais e a distância, palestras e conferências, cursos seqüenciais e graduação. O que escolher, e por quê?

Os programas do MEC costumam ser voltados para as necessidades mais profundas e urgentes do ensino.

O Proformação, por exemplo, atende os leigos, para que obtenham diploma equivalente ao Normal de nível médio, o ProInfo oferece treinamento em informática etc.
Em nível superior, cursos seqüenciais servem à complementação de estudos e não exigem vestibular, mas também não dão diploma. O mesmo vale para pós-graduações lato sensu. Para titulação, só servem cursos superiores de graduação e pós-graduações stricto sensu. Quase todo curso, de qualquer nível, conta pontos na carreira do magistério.

O Normal Superior costuma ser o indicado para dar continuidade ao Normal de nível médio já que, em geral, orienta o currículo para uma articulação entre teoria e prática, além de ser específico para formar docentes.

"Formar o professor de Física é diferente de formar um físico", diz a secretária do MEC, Maria José Feres.

Na hora da escolha, cerque-se de cuidados.

Procure referências e, sobretudo, verifique se o curso segue as Diretrizes Nacionais para Formação de professores e se o MEC o reconhece (no site www.educacaosuperior.inep.gov.br).

 

 

Quer saber mais?

Catarina da Silva Mello, R. Mario Soave, 559, 18050-300, Sorocaba, SP, email: e905324a@see.sp.gov.br

Dayse Portugal Pereira Gomes, Av. Domingos Mariano, 447, 27345-310, Barra Mansa, RJ, email: colegioamparo@speedwave.com.br

Marina Naomi Mizuno, R. Angá, 294, 03360-000, São Paulo, SP

Solânia Alves dos Santos, Av. Sampaio, 344, 44026-010, Feira de Santana, BA

Valmir Aparecido Verza, R. Germino Machado Feitosa, 31, 79740-000, Ivinhema, MS

BIBLIOGRAFIA
Aprendizes e Mestres: A Nova Cultura da Aprendizagem, Juan Ignazio Pozo, 296 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-7033444, 44 reais

Formação do Professor, Raquel Volpato Serbino, 360 págs., Ed. Unesp, tel. (0_ _11) 3242-7171, 40 reais

Formação do Educador e Avaliação Educacional, Maria Aparecida Viggiani Bicudo e Celestino Alves da Silva Jr. (orgs.), Ed. Unesp, vol. 1, 20 reais, vol. 2, 28 reais, vol. 3, 30 reais, e vol. 4, 25 reais

 

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