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Dilema de início de ano: celular tem lugar na classe?

Reflexões de Lino de Macedo

POR:
NOVA ESCOLA
Lino de Macedo,

Lino de Macedo,
é professor aposentado do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP)

Fevereiro inaugura mais um ano escolar, compartilhado com novos ou antigos colegas. Com um novo professor ou professora. Com novos desafios. Proponho que nos coloquemos um para pautar debates e tomadas de decisão que observem e coordenem indissociavelmente os lados de quem ensina e de quem aprende. O desafio é sobre o lugar do celular na escola ou na sala de aula. Vale a pena nos posicionarmos em relação a esse objeto tão "multidisciplinar". 

Há muita discussão sobre benefícios, ou não, de seu uso na escola. Se quiser saber quanta, busque na internet as palavras "celular escola" ou "mobile phone school". Os prós e os contras são abundantes. Como esse aparelho é cada vez mais usado e querido pelos alunos, o tema deve ser discutido no contexto de cada escola ou sala de aula. Trata-se de tomar uma posição e transformá-la em prática. Assumir se ele é também um recurso de ensino e aprender a utilizá-lo como ferramenta pedagógica. 

 

Se atualmente a tecnologia faz parte da experiência sociocultural dos alunos, então considerar seus benefícios na escola pode ser valioso. Para isso, é importante observar o que, quanto e como eles usam o celular, além de discutir o valor que lhe atribuem.

Com o celular, crianças e jovens escrevem, leem, resolvem problemas, fazem cálculos, tiram e organizam fotos, ouvem e gravam músicas, trocam imagens e mensagens, compartilham informações ou notícias, jogam e brincam. O curioso é que nenhuma dessas atividades é estranha à escola. Com todas as conexões possibilitadas pelo conhecimento científico aplicado, os estudantes estabelecem contato com o mundo e seus pares. Eles sentem-se possuídos e possuidores segundo a forma de reciprocidade que caracteriza o mundo tecnológico de hoje. Daí seu apelo irresistível. 

Se atualmente a tecnologia faz parte da experiência sociocultural dos alunos, então considerar seus benefícios na escola pode ser valioso. Para isso, é importante observar o que, quanto e como eles usam o celular, além de discutir o valor que lhe atribuem. Regular, estabelecer e respeitar limites, diferenciar e integrar são ações diferentes de ser contra ou a favor. Implica assumir que ele pode também ser um meio de aprender os conteúdos escolares e um modo de alunos e professores compartilharem informações e comunicações, para ser transformadas em conhecimentos. Quem sabe, também, em sabedoria. Trata-se, então, de pensar o lugar desse aparelho na escola. 

Estabelecer limites e saber a respeitá-los pode ser uma experiência determinante para os alunos. Permite-nos aprender a disciplinar o espaço e o tempo do celular na sala de aula. Se crianças e jovens gostam tanto de jogar com ele, e recorrem a ele para muitas coisas, cabe ensinar os alunos a usá-lo bem, e achar um equilíbrio para o que, tal como os remédios, supõe encontrar a melhor dosagem. De resto, trata-se de aproveitar todas as possibilidades do celular, assim como fazemos com outros objetos e recursos escolares. 

A Educação Básica, hoje, tem compromisso com a inclusão de todas as crianças e de todos os jovens. Que eles não sejam incluídos apenas como alunos, e sim como pessoas que vivem em um tempo, talvez o mais importante de suas vidas. E pessoas não chegam nuas à sala de aula. Elas vêm vestidas com os costumes de sua casa e com os objetos que preenchem sua vida, para o seu bem ou o seu mal. Um deles é o celular. Esquecer-se dele no cotidiano escolar é um jeito de praticar, mesmo sem o pretender, a lógica da exclusão.


Foto: Paulo Vitale

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