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Do meu dinheiro quem cuida sou eu

Fazer um planejamento financeiro ajuda os jovens a se tornar cidadãos conscientes

POR:
Anna Rachel Ferreira

Uma pilha de contas sobre a mesa e uma calculadora nas mãos. Cena comum no cotidiano quando o dinheiro acaba, mas ainda há muito o que pagar. Cálculos precisam ser feitos e um planejamento se mostra indispensável. Algo tão usual no dia a dia da vida adulta pode ser explorado também em sala de aula. 

A Educação financeira é necessária para capacitar os estudantes a analisar as muitas opções oferecidas pelo mercado e agir de acordo com seus objetivos. "Mesmo que eles não entendam precisamente o que são juros, por exemplo, podem desenvolver ideias de bases para um consumo mais consciente", explica Cileda Coutinho, docente do programa de Pós-Graduação em Educação Matemática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Pensando nisso, a professora Márcia Fleury Reale de Paula Campos, do Colégio Magno, na capital paulista, planejou as aulas do 6º ano. 

Para começar, ela propôs um bate-papo sobre consumo, inflação e juros - assuntos dos quais os jovens costumam ouvir falar nas conversas entre adultos e na mídia. Depois, perguntou: "O que vocês sabem sobre ações e bolsas de valores?". As respostas foram quase unânimes: a maioria deles entendia que o dinheiro deveria ser aplicado para, depois de render, ser retirado. 

Em seguida, os estudantes assistiram a um vídeo, disponibilizado pelo departamento educativo da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), que conta a importância do planejamento financeiro por meio de uma história fictícia de dois adolescentes empreendedores. 

Nos dias posteriores, a turma visitou a instituição, onde foi acompanhada por técnicos. Lá, todos ouviram uma palestra, participaram de uma simulação como se fossem corretores e ainda tiraram dúvidas. "A gente pode investir?" foi uma delas. Os estudantes ficaram surpresos ao descobrir que, com o documento de identidade em mãos, isso era possível. Outro tema que despertou a curiosidade foi o modo como as transações são realizadas atualmente - sempre de forma eletrônica. De volta à escola, a docente explicou que eles executariam, ao longo do ano, um projeto de Educação financeira em grupos. Veja as etapas a seguir.

1 Planejando gastos A docente iniciou perguntando se os alunos ganhavam algum dinheiro, levando-os a refletir sobre as despesas deles e a planejá-las. "Alguns recebiam todo mês e outros a cada semana", lembra. Em grupos, eles escolheram algo que gostariam de adquirir e cujo valor extrapolava o montante que um dos colegas recebia de mesada. Márcia questionou: "O que vocês precisam fazer para ter o valor total do produto escolhido?". "Guardar um pouco mensalmente", responderam. Outra solução comum é usar todo o dinheiro de um mês e completar o valor no seguinte - desconsiderando as demais despesas. Todas as soluções precisam ser comparadas, discutidas e problematizadas. "Se você guardar 100% do dinheiro, como fará para comprar o lanche?", é uma das intervenções possíveis. Para fazer o cálculo, a garotada dividiu o custo total do produto que desejava ter pelo valor estimado que pouparia por mês. O mesmo resultado seria alcançado com a soma da quantia, mensalmente, até chegar ao preço do produto. "O mais importante aqui é desenvolver a lógica do planejamento financeiro com os meninos", orienta Carlos Mathias, professor do Departamento de Matemática Aplicada da Universidade Federal Fluminense (UFF). Caso os jovens não recebam mesada, é possível propor outras situações, como sugerir que pensem em uma importância razoável a ser trabalhada durante as atividades. 

2 Análise de consumo Os gastos no supermercado foram o destaque dessa etapa. Os alunos apresentaram o tíquete de compra da família e analisaram o que era produto de primeira necessidade e supérfluo. "Foi interessante observar que eles consideravam itens necessários tudo o que os pais ensinam que é saudável, como suco e requeijão", lembra a educadora. Ampliar esse tipo de conversa é fundamental para que os jovens tenham consciência das diferentes realidades existentes no país. "Eles devem entender que nem todas as famílias vivem no mesmo cenário", explica Cileda. É importante fazê-los pensar, por exemplo, acerca dos produtos que compõem uma cesta básica: "Por que eles são considerados essenciais? Se uma família se alimentar apenas com esses itens, ela terá uma dieta saudável e equilibrada?".

3 Porcentagem Após essa discussão e com o comprovante de compra em mãos, os jovens construíram uma tabela de Excel. Eles separaram os itens essenciais dos supérfluos em colunas, somaram o valor total da compra e calcularam a porcentagem gasta correspondente a cada grupo usando as fórmulas do programa. O resultado foi exportado para um gráfico de pizza.

4 Estudo de impostos A professora introduziu o assunto apresentando a Lei Federal nº 12.741/12, que determina a discriminação de impostos em documentos fiscais. "Assim, a população consegue saber o que está pagando", afirmaram os alunos. Para essa atividade, cada grupo escolheu três produtos da cesta básica e dois de interesse pessoal para pesquisar que impostos e valores incidiam sobre eles. A professora propôs que preenchessem uma tabela de Excel com o preço total do item, o porcentual de taxas, o valor correspondente em reais (obtido por meio de uma fórmula do programa) e o custo do produto sem os tributos (que os alunos também precisavam calcular). Aqui, as contas envolviam algarismos decimais -- o que para a turma é mais complexo, já que ao trabalhar com os racionais rompem com a lógica de funcionamento dos naturais, construída desde o início da vida escolar. Ao notar que muitos não operavam com segurança, Márcia propôs paralelamente uma sequência didática para tratar o assunto. Você encontra uma sugestão aqui. 

5 Jovens empreendedores Depois de estudar sobre gastos, impostos, orçamento e planejamento, a proposta foi empreender. Para entrar no assunto, os estudantes fizeram um trabalho de pesquisa. Eles buscaram definições sobre o tema e as compartilharam com os colegas. "Empreendedorismo é o estudo voltado para o desenvolvimento de competências e habilidades relacionadas à criação de um projeto", escreveu um dos grupos. Após algumas discussões, os alunos apontaram o planejamento como um dos itens fundamentais para realizar tal atividade.

6 A prática de uma empresa Hora de planejar e executar. O objetivo: criar um negócio de venda de brigadeiros. Com uma receita para a produção de aproximadamente 60 doces, os meninos foram ao supermercado, pesquisaram preços e anotaram tudo em uma tabela fornecida pela educadora para, então, somar o gasto total. Na sequência, calcularam o lucro que seria obtido ao cobrar 1,50 real por unidade. A conta inicial foi simples para eles. "É só somar tudo o que eu ganhar e diminuir o que eu gastei, não é professora?", questionou um deles. Para chegar ao rendimento em porcentagem (considerando que obtiveram êxito na venda de 41 brigadeiros), eles primeiro encontraram o lucro - diminuindo o custo (19,70 reais) do valor total recebido (61,50 reais). Com essa conta, chegaram a 41,80 reais de lucro. Para calcular a porcentagem de rendimento, dividiram o valor pelo que foi gasto. Ou seja, 41,80 : 19,70 = 2,12 = 212%. Os alunos ficaram admirados com todas as contas que tiveram que realizar. "Nunca imaginamos que para efetuar uma transação tão simples era preciso usar conceitos matemáticos como porcentagem e cálculos com números decimais", escreveu um deles.

RESUMO

1 Cálculos porcentuais Proponha atividades que envolvam porcentagem e peça que os alunos usem o Excel. 

2 Estudo de conceitos Apresente aos jovens casos de compra e venda de produtos, por exemplo, e peça que os analisem a fim de entenderem o significado de temas como lucro. 

3 A matemática em ação Desenvolva atividades em que os meninos precisem lidar com cálculos envolvendo representações decimais e fracionárias. Trabalhar o conceito de proporcionalidade ajudará nessa etapa.


Ilustrações: Olavo Costa