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Into the wild

Com base na leitura literária, a garotada discute e vivencia situações de sobrevivência

POR:
Bruno Mazzoco

"O que vocês fariam se passassem por uma situação extrema de luta pela sobrevivência, como ficar perdidos no meio da floresta?" Essa foi a pergunta que o professor de Língua Inglesa Tony Perale, do Colégio Sidarta, em Cotia, região metropolitana de São Paulo, fez para seus alunos do 8º ano no início do período letivo. 

Diante da excitação da turma no debate que se seguiu ao questionamento, ele percebeu que a ideia de trabalhar a leitura do livro Hatchet, do escritor infantojuvenil norte-americano Gary Paulsen (189 págs., Ed. Simon & Schuster, 21,90 reais), iria dar o que falar (leia trechos da obra ao longo desta reportagem). A intenção dele e da professora Aline Mendonça, que o apoiou no planejamento das atividades, era fazer a classe soltar a língua por meio do relato da obra e da discussão dos acontecimentos vividos pelo protagonista da trama. 

Para antecipar algumas situações e expressões que os alunos encontrariam no texto e ampliar o debate sobre o tema, o docente exibiu, com legendas em inglês, o longa-metragem Alive (Frank Marshall, 120 min, Paramount Pictures, tel. 21/2210-2400, 35,90 reais), que conta as dificuldades enfrentadas por um time de rúgbi uruguaio após um acidente aéreo na Cordilheira dos Andes. "Essa atividade inicial não só desperta o interesse sobre o assunto como também ajuda a construir um conhecimento que vira reportório coletivo para auxiliar na leitura", explica a consultora em Língua Estrangeira Celina Fernandes.

Foco na oralidade
Na aula seguinte, Perale dividiu a turma e explicou que, ao longo do trimestre, cada grupo seria responsável por ler alguns capítulos do livro e fazer o relato da história para os colegas enquanto encenava, em sala, as principais passagens do trecho lido. Os demais alunos, por sua vez, ficariam com o dever de registrar o que era falado e fazer perguntas para ampliar a compreensão da obra. Tudo isso usando somente o inglês. 

Cada agrupamento foi formado por integrantes com níveis distintos de conhecimento do idioma, para que todos pudessem se ajudar no entendimento da obra. No caso de classes sem experiência prévia na leitura de publicações literárias em inglês, Andrea Nogueira, doutora em Linguística Aplicada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), recomenda que o professor inicie o trabalho com trechos menores de texto, avançando gradativamente para conteúdos de maior fôlego. 

Outra sugestão apontada pela especialista é ler o primeiro capítulo para a turma e, depois, incentivar a leitura autônoma. "Se os estudantes tiverem muitas dificuldades, o docente pode fazer um glossário com eles", sugere Cristina Ramos, coordenadora de Língua Inglesa do Colégio Oswald de Andrade, em São Paulo. Como a turma de Perale já lia com desenvoltura, ele não precisou utilizar essa estratégia. 

Entre uma apresentação e outra, o educador aproveitava para aprofundar a discussão oral sobre cada capítulo lido, além de trabalhar pronúncia, revisar formas gramaticais já conhecidas pela turma, explicar novos conteúdos, verificar a aquisição de vocabulário e propor alguns exercícios de escrita. Assim, foram abordados comparativos, superlativos, estruturas do passado simples e verbos regulares e irregulares. 

Todas as atividades propostas visavam colocar os alunos, continuamente, diante de situações de uso real da língua. "Eu perguntava como eles agiriam se estivessem no lugar do protagonista", destaca o docente. Celina ressalta que trabalhar com textos literários traz o ganho adicional de mexer com a imaginação, a capacidade de fabulação dos estudantes, além de propiciar um mergulho na cultura dos falantes nativos do idioma. 

Durante o processo de leitura coletiva da obra, o professor avaliou cada aluno de forma individual. Com base na participação oral e nas produções escritas solicitadas, ele observou a compreensão da trama e das ações dos personagens, o domínio do novo vocabulário e a utilização das estruturas gramaticais trabalhadas.

Vivência que amplia o aprendizado
Finalizada a etapa de apresentação dos capítulos, os jovens foram orientados a ler a obra individualmente. Dessa maneira, eles compreenderam o texto de forma ainda mais detalhada e se prepararam melhor para o trabalho de conclusão, combinado no início do projeto. 

A ideia original do professor era que os alunos fizessem uma incursão numa reserva ambiental anexa à escola. Lá, eles deveriam buscar materiais para a confecção de utensílios que seriam utilizados para sobreviver caso se encontrassem perdidos na floresta. Cada jovem elaboraria sua ferramenta e a apresentaria em sala de aula. 

Depois de uma conversa coletiva, porém, os alunos decidiram fazer a exposição final na própria área verde da escola. "Com a discussão, eles criaram uma proposta mais rica do que a imaginada pelo professor", analisa Cristina. Como alternativa para a conclusão do projeto, caso a escola não possua um espaço semelhante, Celina propõe a adaptação do enredo para uma peça de teatro. Para isso, o professor deve discutir com a turma as características do gênero textual. 

Para preparar essa atividade, os estudantes precisaram manejar todo o repertório trabalhado em sala e ir além. Eles se colocaram no lugar do protagonista e pensaram em tudo o que seria necessário para sobreviver na selva. A plateia que assistiu às apresentações, composta de colegas de outra turma que também estavam desenvolvendo o projeto e da coordenação pedagógica, fez o papel da equipe de resgate. A ela, os alunos explicaram como haviam chegado até ali e quais estratégias tinham sido utilizadas para garantir a sobrevivência. Para elaborar essa narrativa, foi preciso pesquisar vocabulário específico sobre como identificar frutos e plantas comestíveis. Com o uso do dicionário e a ajuda do professor, as frases foram lapidadas e o roteiro da apresentação foi construído durante os ensaios. 

O resultado final agradou a todos. "A gente pôde sair um pouco da sala de aula, o que é sempre legal. Eu aprendi bastante vocabulário e também o conhecimento sobre plantas que podemos, ou não, comer. Se você está perdido, isso pode salvar a sua vida", conta Rafael Vagaroso, 12 anos. "Interpretar a história ajudou os alunos a se apropriar dos conteúdos. Eles conseguiram internalizar tudo o que foi trabalhado em sala", comemora o professor.

RESUMO

1 Um tema que agita a todos Selecione um assunto diferenciado, que desperte o interesse dos alunos de forma imediata. Apresente a eles livros e filmes para contextualizá-los e fazê-los mergulhar na história a ser trabalhada em sala de aula. 

2 Hora de ler, falar e ouvir Eleja uma obra literária acerca do tema e pratique listening, reading e writing com os estudantes. Peça que leiam alguns trechos específicos e, em grupos, os reproduzam oralmente para o restante da sala. 

3 Fora da sala de aula Para potencializar o entendimento de todo o conteúdo, proponha à classe um trabalho de conclusão que ultrapasse os muros da escola, colocando os alunos no papel de protagonistas da trama.


Ilustrações: Marcela Briotto