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A pluralidade da poesia em sala

Com referências, ninguém vai mais dizer: "Não sei fazer poemas"

POR:
Paula Peres, NOVA ESCOLA e Bruna Nicolielo

Clique aqui para ver a análise do poema O Convite, de José Paulo Paes

Queixas como "Poema tem de ter rima." e "Não sei rimar." eram comuns entre os alunos do 6º ano da EM Professora Maria Clotilde Lopes Comitre Rigo, em Praia Grande, a 77 quilômetros de São Paulo, quando trabalhavam com esse gênero literário. Decidido a convencer os jovens a mudar de opinião, o professor Leonaldo Batista dos Santos propôs uma sequência didática com base em referências muito distintas entre si. "Quis trazer novos textos e, assim, ampliar os conhecimentos da turma." Ele analisou a interpretação de poesias entre os jovens em seu mestrado, defendido na Universidade de São Paulo (USP), e concluiu que eles são capazes de lidar com textos de diferentes correntes literárias, mesmo sem ter conhecimentos específicos. 

No repertório selecionado pelo professor, havia poemas longos e curtos, com versos simétricos e assimétricos, que seguiam um formato definido ou não, de escritores de diferentes épocas, como Manuel Bandeira (1886-1968), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), José Paulo Paes (1926-1998) e o contemporâneo Dirceu Villa. "Essa variedade permite estudar os recursos usados para criar efeitos de linguagem. Depois, isso pode ser incorporado às produções", explica Luciana Ferraz, autora de materiais didáticos. 

Santos leu os poemas, mostrando que eles pedem um ritmo e uma entonação de voz diferentes de outros textos. Os alunos foram, então, convidados a fazer o mesmo. "No início, eles podem sentir dificuldade. Por isso, é fundamental explicar que os intervalos entre um verso e outro nem sempre são pausas e que elas precisam ocorrer no momento certo, senão podem atrapalhar a interpretação", explica Claudio Bazzoni, assessor da rede municipal de São Paulo. Por meio de uma leitura compartilhada, em voz alta, todos participaram conforme se sentiam à vontade e perceberam pontos importantes da poesia, como a sonoridade, o ritmo e a melodia. 

Um dos poemas apresentados foi Convite, de José Paulo Paes (leia sobre ele acima). Ele gerou identificação, pois era conhecido por todos, que gostam de sua sonoridade. "É importante frisar que as possibilidades de interpretação não se esgotam em apenas uma leitura", diz Santos. Já A Omelete, de Dirceu Villa, causou estranhamento. "Não é poesia, não tem rimas." e "Não diz nada com nada." foram algumas das opiniões. O docente viu na aversão dos alunos uma oportunidade para fazê-los experimentar textos com os quais não estavam acostumados. A moçada também estranhou bastante A Onda, de Manuel Bandeira (leia sobre ele abaixo), que foi classificado de "esquisito", "nada a ver", "bobo" e "chato". "Propus que ouvissem mais atentamente. Eles começaram a perceber o efeito das repetições, a sonoridade das palavras e a melodia que elas imprimem", conta Santos. Eles, então, associaram isso ao título e ao tema. Foi um momento de surpresa e de apreciação: "Da hora!" e "Muito show!", disseram os jovens. 

Na etapa seguinte, o professor convidou a classe a produzir seus próprios poemas. "Devemos desmistificar a ideia de que a poesia é resultado de uma iluminação. Assim como os outros textos, é preciso técnica", explica. A princípio, o tema era livre, mas isso tornou-se um problema, pois os alunos sentiam falta de um direcionamento. Ele, então, listou alguns tópicos: amor, saudade, família, infância, o lugar onde mora. O docente também colocou os alunos para refletirem sobre os formatos existentes. "Você é o autor, agora. Acha mais interessante usar poucos versos ou algo com forma definida, como um soneto?" e "Será que as rimas funcionam sempre?" foram algumas das provocações. 

Passar as ideias para o papel traz muitas dúvidas a quem está escrevendo, principalmente quando o gênero é novo. Santos tentava driblar a insegurança dos alunos valorizando os trabalhos e dando sugestões do que poderia melhorar. "Nesse momento, é muito importante ter repertório para saber indicar novas leituras e recitar trechos de poemas que se relacionam com o que eles querem fazer." Depois de uma etapa de reescrita, ele leu as produções em voz alta, revelando seus autores ou escondendo-os sob pseudônimos, de acordo com a vontade deles. As produções revelam o progresso dos alunos - alguns até arriscaram fazer versos livres.

Clique aqui para ver a análise do poema A Onda, de Manuel Bandeira

 

De Os Lusíadas aos haicais
Falta de confiança para escrever também era a maior dificuldade da turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA) de Neli Edite dos Santos, da EEB da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em Uberlândia, a 537 quilômetros de Belo Horizonte. Por isso, Neli começou mostrando o poema O Lutador, de Carlos Drummond de Andrade. "Se até um dos maiores nomes da literatura brasileira reconhece que escrever é lutar com as palavras, significa que todos nós podemos lutar e escrever também", diz. 

Em seguida, Neli mostrou aos estudantes poemas de autores de épocas diversas, com vários temas e formatos. A amostra tinha épicos, como Os Lusíadas (Luís de Camões, 320 págs., Ed. Saraiva, tel. 11/3613-3000, 29 reais), e haicais (de origem japonesa). "A intenção era quebrar a ideia que eles tinham de estruturas tradicionais, rimadas." Luciana sugere recuperar o repertório dos alunos de EJA. "Muitos conhecem músicas, cordéis e quadras populares, mas acham que isso não é poesia." Neli também levou a classe à biblioteca e deixou que todos circulassem pela área desse gênero. De volta à sala, ela convidou-os a escrever, experimentando palavras, pontuações e construções. Para quem precisava de ajuda, a docente apresentou a ideia de intertextualidade, mostrando poemas de autores diferentes que fazem referências uns aos outros, e explicou que eles também podiam se apropriar desse recurso. 

A professora digitou as escritas e projetou-as em sala, lendo em voz alta. A turma pôde expressar o que sentiu. Muitos relacionaram os poemas dos colegas aos que foram lidos antes. Eles aproveitaram para conversar sobre suas intenções (o que quis dizer, por que escolheu determinada forma etc.). Coletivamente, a sala deu sugestões de melhoria. As produções foram para o site da escola. "Se no início eles tinham dúvidas sobre sua capacidade de escrever, ao fim passaram a usuários de uma língua que, agora, eles entendem e é deles também", comemora a docente.

RESUMO

1 Apreciar a variedade Selecione poemas de diversos autores e estilos. Leia em voz alta, chamando a atenção para a entonação e o ritmo. 

2 Interpretar os detalhes Proponha uma compreensão mais aprofundada de alguns poemas, considerando os efeitos de linguagem usados. Dê espaço para as percepções de todos quanto à forma e ao conteúdo. 

3 Experimentar ideias e formas Sugira a produção de textos poéticos de diferentes formatos. Circule pelos grupos indicando referências. A reescrita pode ser individual ou coletiva, com base nas sugestões de toda a turma.

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