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Desvendando os sambaquis

Estudar esses sítios arqueológicos levou todos a defender o patrimônio local

POR:
Camila Camilo

Há cerca de 5 mil anos, os habitantes da região em que hoje está a EM Professora Maria Regina Leal, em Joinville, a 186 quilômetros de Florianópolis, eram povos conhecidos como sambaquieiros. Eles viveram no litoral do Brasil, de norte a sul, deixando como vestígio de sua presença os sambaquis, morros formados por conchas e objetos de pedra e ossos, entre outros. A proximidade geográfica foi um dos motivos para que a professora de História Angela Maria Vieira tornasse esse patrimônio objeto de estudo do 6º ano. Mas não foi o único. O currículo da rede também prevê a história dos ocupantes do nosso território há tempos remotos como um dos primeiros conteúdos para essa faixa etária. Além disso, os vestígios são populares na comunidade, pois há muitas lendas e mitos sobre sua origem real. "Bons projetos têm esses atributos: relação com os conteúdos curriculares, com o contemporâneo e com o local onde a turma vive", defende Antônia Terra de Calazans Fernandes, da Universidade de São Paulo (USP).

Uma visita de campo permitiu observar um sambaqui próximo à escola. Crédito: Marcelo Almeida

Na primeira aula, os estudantes compartilharam narrativas que circulam na comunidade. Alguns diziam que os sambaquis eram marcas do dilúvio ou cemitérios de índios. "Achava que era só um monte de concha e mato", explica o aluno Mizael Schweig, 11 anos. Comentários semelhantes apareceram nas entrevistas feitas pela classe com familiares e vizinhos sobre o assunto, realizadas na sequência. Os entrevistados comentavam também a necessidade de preservar esses vestígios, mas não sabiam explicar por quê. Em sala, a educadora disse que os dados coletados eram válidos e que, na escola, os jovens ampliariam os conhecimentos deles sobre o tema.

Para compreender a importância da conservação dos sambaquis, a classe assistiu a três vídeos. O primeiro mostrou a origem desse material, o trabalho dos arqueólogos e como a prática de corrida de motocicleta em Laguna, a 128 quilômetros de Florianópolis, danifica os sítios, muitos já bastante prejudicados pela retirada das conchas para a produção de cal. O outro vídeo apresentou uma ação do Ministério Público (MP) para impedir a construção de moradias próximas a um sambaqui. O último trouxe o salvamento arqueológico de artefatos presentes no local onde será construida uma ponte.

Nas aulas, Angela relacionou o conteúdo curricular ao tempo presente e à localidade.  Crédito: Marcelo Almeida

 A atividade gerou muita discussão, enriquecida pela leitura da legislação municipal e federal sobre o tema e por mapas que traziam a distribuição geográfica dos sambaquis na cidade. Os alunos debateram o choque entre o crescimento das cidades e a preservação deles e concluíram que só a lei não basta: é preciso conscientização. Todos também ficaram surpresos com a quantidade de sítios arqueológicos existentes nos arredores da escola.

Para manter o contato com a turma para além das duas aulas semanais previstas na grade, Angela montou um grupo virtual. Lá, ela compartilhava informações importantes, como avisos e links para reportagens sobre os sambaquieiros e registros arqueológicos encontrados no Brasil. César Nunes, assessor da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo para a área de Informática Educativa, indica algumas plataformas gratuitas que podem ser utilizadas para esse fim, como a Redu e o Edmodo. Ele defende que, ao escolher um ambiente colaborativo, o professor procure alternativas que possibilitem aos alunos interagir com as hipóteses levantadas pelos colegas. "Assim, as ideias podem ser revisadas e aperfeiçoadas", afirma Nunes.

Fontes de aprendizado pela cidade

Para aprofundar o conhecimento da moçada, Angela fez uma parceria com o Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville (MASJ). A educadora usou o kit didático, material retirado de escavações e disponibilizado pela instituição para empréstimo, e fez uma exposição usando o esqueleto inteiro de um antigo habitante do local para explicar como eram os hábitos desse povo. Assim, os estudantes descobriram que as marcas dos ossos permitem aos arqueólogos estimar a idade, o gênero e até se o coletivo analisado travava guerras constantes ou praticava exercícios físicos. Eles também souberam que os sambaquieiros eram baixos, fortes e tinham os músculos dos braços desenvolvidos, provavelmente pela prática da canoagem. A falta de fissuras grandes na maioria dos esqueletos sugere que se tratava de um povo pacífico.

A etapa foi complementada com uma visita ao museu, onde todos assistiram a um vídeo e uma palestra sobre como funciona uma escavação e como trabalham os arqueólogos. Os estudantes puderam ver de perto utensílios de pedra, colares feitos de ossos de peixes, ossos de animais de diferentes tamanhos e os chamados zoólitos, reproduções de animais feitas em pedra com um buraco no ventre, provavelmente utilizados em rituais funerários ou religiosos. Todos os objetos foram encontrados em sambaquis da região.

No museu, a garotada analisou ossadas e outros resquícios arqueológicos.  Crédito: Marcelo Almeida

No Arquivo Histórico de Joinville, a garotada teve acesso ao jornal Colonie Zeitung, que circulou na cidade no século 19. Uma das reportagens, de 1817, chamou a atenção. No texto, o jornalista escreveu que os colonizadores tinham medo de passar perto dos morros de conchas e que os sambaquieiros eram primitivos e semelhantes aos animais. Em sala, a indignação foi geral, o que motivou uma discussão sobre a visão dominante na época, a do colonizador que acreditava que os habitantes originários eram menos importantes do que o homem branco. "Reforcei que o jornal é uma fonte histórica e precisa ser submetida à análise: quem fez?, quando?", conta a educadora. Nesse momento, a turma analisou também publicações mais recentes. Nelas, os sambaquis são retratados como patrimônio a ser preservado e tema de estudos científicos, que mostram que seus criadores possuíam tecnologia, isto é, técnica para melhor realizar tarefas cotidianas, como polir instrumentos, e organização social. O termo pré-história também foi discutido. A docente lembrou que a expressão, apesar de recorrente, revela a concepção que só povos com escrita possuem história, o que não é verdade. "Populações com tradição oral viveram a dinâmica do tempo, se adaptaram e se transformaram. Portanto, são históricas", justifica Antônia.

Utensílios de pedra e colares feitos de ossos, entre outros materiaisi, foram vistos de perto.  Crédito: Marcelo Almeida

Na etapa seguinte, Angela levou a obra Joinville, Primeiros Habitantes (130 págs., Ed. Casa Aberta, tel. 47/3045-5815), à classe. O livro traz fotos, localização, data de escavação e um pequeno histórico dos sambaquis do município. Com essas informações à mão, a turma visitou um dos mais próximos à escola. Lá, o que antes era um amontoado grande de conchas recoberto por plantas ganhou novo significado. "Eles imaginaram como deve ter sido viver quando não havia casa, nem qualquer outra construção. Até questionaram se as pedras avistadas poderiam estar ali desde aquela época", lembra Angela. Flávia Cristina Antunes de Souza, mestre em História e educadora do Museu Arqueológico de Sambaqui, acredita que a experiência redimensiona o aprendizado das crianças. "Conjugar as leituras, a ida ao museu e a visita ao sítio dá clareza sobre a dinâmica de ocupação do território. Antes foram os sambaquieiros, que foram sucedidos por outros povos. Hoje, somos nós", afirma.

Já Carla Meinerz, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), acredita que parte da valorização de culturas anteriores à nossa passa por reconhecer a ligação entre tempos remotos e o presente e isso só se faz com um mergulho nas informações e dados disponíveis. Foi o que fez a turma da professora Angela. Para sistematizar os conteúdos vistos, a educadora propôs a produção de textos informativos sobre o sambaqui, com comentários sobre um dos tópicos estudados: patrimônio arqueológico, preservação ou história de povos que habitaram o Brasil há milhares de anos.

Após a revisão do material, a classe montou marca-livros que foram distribuídos para a comunidade escolar. Cada um deles continha as informações produzidas pela turma e o contato do museu, para quem desejasse fazer uma visita. Os alunos também montaram mosaicos sobre esses sítios arqueológicos ontem e hoje. As produções foram reunidas e viraram uma apresentação para a escola. Nela, estava claro que os sambaquis não guardam apenas conchas e mistério, mas registros de um povo antigo, um patrimônio do qual todos podem se orgulhar e devem cuidar.

Para sistematizar o saber, a turma produziu textos e mosaicos sobre os sambaquieiros.  Crédito: Marcelo Almeida
Reportagem: Camila Camilo em Joinville, SC