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Os jovens vão cair na risada

Jogos teatrais e ensaios preparam os alunos para encenar um texto de comédia

POR:
Camila Camilo
No fim do ano letivo, a garotada apresentou a peça para toda a comunidade escolar

Para levar a plateia às gargalhadas, a garotada do 8º ano do Instituto de Educação Ivoti, em Ivoti, a 56 quilômetros de Porto Alegre, realizou um percurso de muito aprendizado. O objetivo inicial de Edmar Galiza, professor de teatro, era encenar com os jovens um tipo de texto ainda inédito para eles: a comédia. "Esse gênero remete à ironia de rir de si mesmo, algo que interessa aos adolescentes", diz Patrícia Maciel, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 

No primeiro encontro, a turma participou de brincadeiras conhecidas como pega-pega e pular corda. "Queria integrar os estudantes e deixá-los à vontade para atuar", explica o educador. Na sequência, jogos dramáticos despertaram a expressividade e a apropriação do corpo como meio de contar histórias que fizessem sentido ao espectador. "A matéria principal do teatro é o corpo. O mais importante é saber se comunicar por meio dele", explica Vilma Campos, atriz e pesquisadora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). 

Em um dos jogos, os adolescentes escreveram frases como: "Demorei muito para dizer, mas eu te amo", "Sua mãe tá te chamando!" ou "Tá me estranhando?". Em seguida, receberam do professor situações para encenar, como duas amigas em uma festa ou um casal na mesa de um restaurante. No meio da interpretação, Galiza entregava uma das frases escritas anteriormente e os alunos tinham de introduzi-la no diálogo. "Além de exigir raciocínio rápido, a improvisação permitiu aprender, na prática, a importância da interação entre os atores e entre eles e o público", explica Galiza. Como destaca Ingrid Koudela na introdução do livro Jogos Teatrais na Sala de Aula (104 págs., Ed. Cortez, tel. 11/3863-0111, 15 reais), o docente é fundamental: "É o olho e o ouvido da plateia e, ao mesmo tempo, é um parceiro que participa da atividade por meio da instrução".

 

Após dois meses, a frequência dos jogos teatrais foi reduzida para a turma se envolver na montagem de um espetáculo. O educador apresentou o resumo de três peças: Pluft, O Fantasminha (Maria Clara Machado, 63 págs., Ed. Nova Fronteira, tel. 21/3882-8200, edição esgotada), Comédia dos Erros (William Shakespeare, 112 págs., Ed. L&PM, tel. 51/3225-5777, 15,90 reais) e Enfim Nós!, de Tanise Pacheco, uma dramaturga amadora. A terceira foi a preferida dos adolescentes, que consideraram a leveza da trama um ponto a seu favor. 


O ideal é oferecer tanto obras clássicas quanto as atuais, como fez Galiza. A atriz e educadora Paula Zurawski sugere outras opções, como os títulos A Farsa de Inês Pereira (Gil Vicente, 134 págs., Ed. Ateliê Editorial, tel. 11/4702-5915, 22,50 reais), Sonho de uma Noite de Verão (William Shakespeare, 128 págs., Ed. L&PM Editores, 15,90 reais) e O Mambembe, de Artur Azevedo (1955-1908). Taís Ferreira, da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), ressalva que é preciso levar em conta o repertório e os interesses dos estudantes, pois a linguagem rebuscada ou a menção a situações e objetos de um passado remoto podem afastá-los. É possível pedir que a classe pesquise comédias e traga sugestões para a discussão geral. Os acervos complementares do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), que as escolas recebem, a biblioteca municipal e sites específicos como Dramaturgia Brasileira Contemporânea ou Catálogo da Dramaturgia Brasileira também podem ser consultados. 

Taís explica que apresentar a peça não é uma finalização obrigatória. É preciso que seja o anseio da classe e que o envolvimento em todas as etapas do processo seja coletivo, como ocorreu com a garotada de Ivoti. O grupo também tinha alguma experiência por já ter feito outras peças antes e por idas frequentes ao teatro, uma experiência que deve se repetir sempre que possível. Em cidades onde há poucas casas de espetáculos, a especialista sugere procurar grupos teatrais amadores em clubes e associações. Além disso, é possível ver vídeos de encenações de atores profissionais e destacar os elementos cênicos (como vestimentas) de manifestações da região onde está a escola, como os gaúchos, no Rio Grande do Sul, ou o boi- bumbá, no Norte.

 

Compondo os personagens

Após a escolha da obra, cada um ganhou seu papel. Quando dois ou mais estudantes queriam o mesmo personagem, Galiza escolhia um trecho da peça e os pretendentes tinham que encená-lo, uma prática comum no teatro, conhecida como audição. Nesses casos, o professor definia os papéis. Em seguida, os alunos leram o texto em grupo, cada um com sua fala correspondente. Durante essa etapa, o docente pontuava a emoção expressa na leitura, destacando quando ansiedade, surpresa ou alegria estavam implícitas, algo característico do texto teatral. Depois disso, começaram os ensaios no palco da escola. Nesses momentos, o foco foi a constituição dos personagens. Por meio de intervenções, Galiza pedia que os estudantes prestassem atenção na maneira de ser do personagem (trejeitos, forma de andar e de falar) e avaliassem se estavam representando bem essas características. Os colegas também sugeriam formas de melhorar a atuação. 

Todos atuaram, montaram o cenário aproveitando materiais da escola e preparam o figurino, juntando peças que estavam no acervo e as trazidas de casa. Em outras circunstâncias, é possível que nem todos estejam no palco e cada aluno se envolva com uma etapa da montagem, como iluminação, cenário, divulgação etc. 

No fim do ano, a turma se apresentou, primeiro para a comunidade escolar e familiares e, depois, em um encontro anual que reúne peças de escolas da região. Assim, o grupo deu vida ao texto e saiu das coxias com muitas aprendizagens.

Resumo

1. Jogos teatrais para aquecer Proponha uma série de encenações em que seja necessário exercitar a improvisação. Para isso, introduza nas esquetes frases escritas pelos alunos. 

2. Escolha do texto e leitura Selecione peças contemporâneas e clássicas e deixe a turma definir a que quer encenar. Proponha que os estudantes escolham um papel. Faça uma roda na qual cada um lê a fala de seu personagem. 

3. Ensaios e montagem Dê início aos ensaios. Observe a atuação dos estudantes, intervindo quando necessário para dar encaminhamentos sobre a maneira de ser de cada personagem.

 

Vídeo: veja as características do gênero teatral comédia:

 

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