Entrevista com Marli André

"A equipe gestora deve acolher e ajudar o professor iniciante"

POR:
Bruna Nicolielo
Marli André. Foto: Patricia Stavis
Marli André Docente da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e Ph.D. em Psicologia da Educação pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, se dedica à área de formação de professores há 30 anos

Todos os anos, milhares de jovens entram pela primeira vez em uma sala de aula para lecionar. Eles chegam com disposição e vontade, mas carregam indagações e inseguranças e sabem que enfrentarão enormes desafios, envolvendo a realidade escolar e a relação com os estudantes, as famílias e a própria escola. Por sua vez, a instituição nem sempre assegura a integração e o aprimoramento do professor novato, segundo a pesquisadora Marli André. Na opinião dela, os gestores têm de investir mais na troca de experiências entre os iniciantes e os veteranos. Assim, todos saem ganhando, especialmente os alunos.

O que defne um professor iniciante?
MARLI ANDRÉ Não há consenso sobre isso. Muitos autores se baseiam no tempo de docência e defendem que os três primeiros anos são considerados os mais difíceis para quem está começando. Segundo eles, essa é a razão de existir um estágio probatório, descrito na literatura como os "anos de sobrevivência", período em que o jovem tenta permanecer na profissão. Levando isso em conta, podemos dizer que o desafio do novato é se equilibrar entre deixar de ser aluno e começar a ser professor, aprendendo a ensinar.

Qual é o perfl dos iniciantes no Brasil?
MARLI Em geral, eles fazem parte das camadas menos favorecidas da população e optam pela docência influenciados pelos pais ou por algum parente, que é ou foi educador. São os primeiros membros da família a alcançar o Ensino Superior e julgam o Magistério uma opção segura, que sempre tem postos de trabalho disponíveis.

Quais as maiores frustrações de quem está no início de carreira?
MARLI Elas são muitas. A maior delas é não ter clareza da função social da escola e de si mesmo como educador. Esse profissional acha que precisa não só fazer os estudantes aprenderem mas também apoiá-los e ouvir e entender os problemas pessoais deles. Isso tudo ao mesmo tempo que, muitas vezes, os alunos não querem estar em sala, sobretudo os mais velhos. Ele acredita que precisa desempenhar muitos papéis e que não tem formação para tal. Reclama que assume a função de pai e psicólogo e diz que não tirou o diploma para ficar ouvindo a meninada. É professor e está na escola para ensinar. Outra frustração tem a ver com a pouca participação da família. Quem está começando espera muito dos pais das crianças e dos jovens. Quer que eles ajudem na lição de casa, verifiquem o que o filho está aprendendo e fica desapontado quando nota que isso não ocorre.

A quem o jovem docente costuma recorrer para pedir orientações?
MARLI Em geral, por iniciativa própria, ele busca apoio de um colega mais experiente da escola em que trabalha ou de outra instituição. A equipe gestora deve acolher e ajudar o professor iniciante. Mas isso não acontece nas redes de modo formal e com a frequência desejável.

O que pode ser feito nas escolas para assegurar a troca de experiências?
MARLI Elas precisam institucionalizar essa prática. É possível criar grupos de tutoria nos quais cada jovem educador passa a receber a orientação de um colega que tem mais tempo de docência. Outra possibilidade é organizar periodicamente reuniões para que seja realizada a discussão da prática de sala de aula. Assim, quem está na profissão há mais tempo pode relatar experiências de sucessos e expor seu ponto de vista.

Qual a imagem que a equipe escolar costuma fazer do jovem professor?
MARLI Ele geralmente não é visto pelos colegas que têm mais tempo de carreira como o aprendiz que de fato é, alguém que precisa de apoio e estímulo. A maioria o julga um profissional idealista. Os pais da criançada também não se sentem seguros diante de um educador muito jovem. Ele, por sua vez, encara os colegas como pessoas acomodadas, que não são inovadoras.

Do que depende a atração e a retenção dos melhores profssionais nas salas de aula?
MARLI O salário é importante para chamar a atenção e manter bons professores, mas não é suficiente. Vários levantamentos tentam relacionar a remuneração ao desempenho docente, mas não conseguem. Há outras condições fundamentais para garantir a atratividade, como a melhoria da formação inicial e a existência de planos de carreira estruturados. Também é essencial um bom ambiente de trabalho na escola e isso diz respeito a muitas coisas: infraestrutura, relações entre a equipe e a comunidade e ainda meios de que a instituição dispõe para valorizar e ajudar o corpo docente - por exemplo, assessoria relacionada às dúvidas e às necessidades em relação aos estudantes e aos conteúdos a ser ensinados. Sobre a permanência do bom profissional, há outro fator relevante, segundo pesquisas: ter sucesso no processo de ensino e de aprendizagem. Prova disso é ser comum encontrar novatos dizendo: "Mesmo com todos os problemas que enfrento, ver o brilho nos olhos dos alunos quando eles aprendem é o que me faz continuar lecionando".

Quais as descobertas de sua pesquisa mais recente, ainda em curso, sobre a aproximação das universidades com a escola na formação de professores?
MARLI Os dados obtidos até agora revelam coisas boas para o futuro da docência no país. Vamos ter profissionais mais bem formados por causa do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid), pois a proposta dele, já em prática, é inserir o novato na escola pública por meio de um estágio. Nas cinco instituições universitárias em que estou fazendo o estudo, os graduandos têm experiências positivas: são bem acompanhados na escola por um educador experiente, que desempenha o papel de tutor, e recebem muitas informações sobre como atuar em sala de aula. Eles são unânimes em dizer que estão aprendendo como fazer a articulação da teoria com a prática, dando um novo significado ao que estudam na faculdade.

O Pibid também altera o cenário de atratividade da docência?
MARLI Sim. Quando perguntamos aos bolsistas se eles querem se dedicar ao Magistério depois dessa experiência, a maioria responde de forma afirmativa. Em minha pesquisa anterior (O Papel das Práticas de Licenciatura na Constituição da Identidade Profissional de Futuros Professores), realizada antes do Pibid, identifiquei que os estagiários tinham grandes dúvidas sobre permanecer ou não na carreira. O programa está até atraindo os jovens que não tinham o ensino como primeira opção profissional. Eles dizem: "Nunca pensei em ser professor, mas, depois que comecei a participar desse programa, eu quero!".

As instituições de Ensino Superior também estão sendo impactadas pelo programa?
MARLI Sim. Os futuros docentes estão exigindo mais da estrutura universitária. Quem leciona relata que os estudantes dão trabalho: eles perguntam muito e querem mais materiais para estudar. Ou seja, o Pibid está proporcionando a formação continuada dos docentes do Ensino Superior, porque eles precisam se atualizar cada vez mais para atender os alunos. As universidades também estão repensando sua organização. Os currículos de algumas estão sendo revistos e laboratórios e bibliotecas de outras, que ficaram fechados durante anos, reabertos.

Há redes brasileiras com bons programas voltados aos iniciantes?
MARLI Existem pouquíssimas iniciativas dessa natureza. Uma delas acontece em Sobral (a 248 quilômetros de Fortaleza). Nesse município, segundo a lei, o profissional que está começando recebe 25% de salário a mais todos os meses para participar de um curso de formação durante o estágio probatório, que ocorre nos três primeiros anos. Também há encontros mensais organizados pela rede, voltados ao trabalho na escola, um programa destinado à ampliação do universo cultural desse público e congressos para a socialização de boas práticas.

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