Seções | Maria Clotilde Rossetti-Ferreira e Ana Cecília Chaguri | Artigo

Adoção e Educação Infantil

A chegada de crianças na Educação Infantil gera expectativas nelas, nos pais e nos educadores. Quando se trata das que foram adotadas, então, ainda mais

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NOVA ESCOLA
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Maria Clotilde Rossetti-Ferreira é professora emérita da Universidade de São Paulo (USP) e Ana Cecília Chaguri é mestre em Psicologia e membro do Cindedi

A chegada de um bebê, seja ele biológico ou adotivo, implica reorganizar a casa e a vida familiar. No caso da gravidez biológica, a interação mãe e filho começa a ser construída desde a concepção. O desenvolvimento é visível, não só pelo crescimento da barriga como pelos exames de ultrassonografia. No caso da adoção, o desejo de anos por um filho imaginário, todas as tentativas de reprodução frustradas e a espera pelo processo judicial podem funcionar simbolicamente como uma gestação. 

Crianças adotivas na Educação Infantil provavelmente foram adotadas bebês ou muito pequenas. Essa ainda é a preferência das pessoas, embora a maioria disponível para adoção tenha mais idade. 

O acolhimento dessas crianças na creche e na pré-escola cria desafios para os educadores. Além da fase de ajustes entre pais e filhos, há a adaptação à Educação Infantil. As famílias podem apresentar sentimentos contraditórios, como desejo de a criança interagir bem com os educadores, medo de que ela seja rejeitada e ciúme de quem ensina. A maioria dos pais adotivos é muito dedicada e atenta nesse período, por vezes mais que os biológicos. Com toda a ansiedade que marca o momento, há um intenso carinho, provavelmente em busca de competência para o novo papel e merecimento de um filho tão desejado e esperado. 

Trabalhar com uma criança nessas condições nem sempre é simples. Os educadores devem assisti-la assim como fazem com colegas dela, mas, em geral, os pais adotivos requisitam maior atenção. Eles podem se sentir constrangidos, preferindo esconder a adoção. Por vezes, até do filho, pois não sabem como abordar o assunto com ele. Em vez disso, deveriam considerar que ser adotado não é vergonha e falar abertamente sobre o assunto com ele e com as demais pessoas que frequentam o mesmo ambiente. 

A pergunta "Quando revelar que a criança é adotada?" não tem sentido. O indicado é que não haja um momento como esse, e sim espaços contínuos de conversa, nos quais os familiares a ajudem a reconstituir e narrar sua história de vida, mesmo que se trate de um bebê. Infelizmente, isso não ocorre de fato na maioria das vezes. Ela pode se sentir inibida de perguntar e os pais constrangidos de falar porque o assunto talvez envolva situações dolorosas para ambos. 

Os educadores também se sentem ansiosos sobre o que fazer. Para construir sua identidade, cada um tem de conhecer a própria história e se apropriar dela. A escola pode se constituir um parceiro importante e um espaço privilegiado nesse sentido, embora isso exija uma relação franca e colaborativa entre profissionais, familiares e crianças. Muitos pais desejam que a instituição não toque no assunto, pois não o esclareceu completamente para o filho. Mas a instituição educacional pode mediar a questão, especialmente no que diz respeito à criança ter acesso a informações sobre seu desenvolvimento no período em que conviveu com a família biológica. Essa questão é delicada: dependendo do histórico, ela pode ter passado por situações difíceis, principalmente se adotada mais crescida. 

É fundamental saber em detalhes como o assunto já foi abordado pela família e as expectativas quanto ao envolvimento e ao trabalho da instituição. Também é preciso informar aos pais como se pretende lidar com o assunto - deixando claro o direito de cada um conhecer sua história. Por vezes, uma palestra, a supervisão de um especialista na área e reuniões podem ajudar. 

Para quem ensina se sentir seguro ao lidar com as diferenças, são instrumentos reflexão, troca e busca de conhecimento. Com eles, a pessoa estará preparada para enfrentar situações apresentadas pelos responsáveis. Embora elas possam gerar ansiedade nos atores envolvidos, os casos que têm a ver com uma pessoa estrangeira, adotada ou que está vivendo um luto, por exemplo, podem implicar casos em que é importante lidar com transparência, conscientização e parceria.

Comportamentos comuns 

Com frequência, os adotados são encarados como problemáticos, tal como eram os filhos de pais separados. Os educadores esquecem que os comportamentos deles que chamam a atenção são observados em qualquer criança. Por exemplo, quando ocorre a manifestação de gula. Seria um excesso decorrente de privação anterior? Ao mesmo tempo, quem não come mais ao se deparar com uma mesa cheia de novidades? Quem não conhece gente que, em função de uma carência emocional, come mais do que deveria? 

Outras vezes, o adotado pega o objeto de outra pessoa e guarda consigo. Seria um desejo de o guardar para si por carência emocional? Ciúme? Inveja? O comportamento de se apossar de algo do outro, comum entre crianças, pode ser interpretado como roubo pelos familiares e educadores de quem é adotado. Ou seja, visto como um sinal de marcas genéticas dos pais biológicos e que podem levá-lo a atos criminais no futuro. No entanto, muitas vezes, é um comportamento infantil comum e a ser corrigido, como outros. 

Há também muita controvérsia sobre a relação entre dificuldades de aprendizagem e adoção. Por vezes se aponta que adotados preferem ignorar as coisas porque têm dificuldade de encarar o passado - e isso dificulta aprender. Também a falta de cuidadores na primeira infância, responsáveis por um acolhimento adequado, é apontada como problema. Assim, vários autores defendem a importância de a criança ter no educador alguém que a acolha e ao mesmo tempo lhe aponte e signifique as pessoas e as coisas do mundo ao redor. Na ausência desse tipo de acolhimento, podem surgir dispersão e dificuldades de aprendizagem. Mas isso atinge apenas uma pequena parcela das pessoas adotadas que passam por esses problemas. A maioria os supera nas experiências positivas vividas em outros ambientes. 

A agressividade, especialmente em forma de mordida, constitui uma rotina complicada de lidar na Educação Infantil. Incomoda os familiares do agressor e os do agredido. Embora seja um comportamento comum em grupos de crianças pequenas que estão exercitando a convivência e o respeito mútuo, quando provém das adotadas, a interpretação pode ser outra. Por vezes, as que estão se adaptando à família, assim como as que estão enfrentando novidades importantes (nascimento de irmãos, morte de avós, separação dos pais e outros), ficam mesmo agressivas. Isso constitui um problema educacional que pode ser superado com carinho, contenção da impulsividade, colocação de limites e oferta de mais espaço e companheiros que enfrentem as agressões. É importante ainda que quem ensina compreenda a agressividade como uma reação humana que foi fundamental para a sobrevivência da espécie. Portanto, quando bem conduzida, pode ser um instrumento para tornar um homem capaz diante das adversidades e não necessariamente uma pessoa violenta.

Outros olhares preconceituosos 

A sexualidade, por sua vez, é outra questão tão ou mais complicada. Mesmo sabendo que é algo da natureza humana, familiares e educadores frequentemente fantasiam que as crianças são assexuadas. Esse desejo advém da dificuldade de lidar com esse assunto. 

Qualquer uma delas, em todas as fases de desenvolvimento, tem comportamentos sexuais. Iniciam com o prazer ao mamar, chupar o dedo ou a chupeta e a descoberta do controle dos esfíncteres, do próprio corpo (ao perceber que a área genital desperta uma sensação prazerosa quando tocada) e das diferenças entre meninos e meninas. No entanto, o mesmo comportamento, como a curiosidade excessiva aos 4 anos, pode ter várias interpretações. Pode ser uma alteração hormonal (que é rara), uma possibilidade de ter sofrido um abuso sexual, um comportamento adequado que está sendo mal interpretado pelos pais e educadores ou ainda um reflexo que advém de familiares que estimulam a sexualidade por vários motivos, como a falta de controle da programação assistida na TV ou o acesso não vigiado a internet e programas de computador. 

Quando se tratam de pessoas adotadas, podem ser provocadas diferentes reações nos pais delas, nos de outras crianças e em quem ensina. Há por vezes a preocupação ou a fantasia sobre a ocorrência de eventuais abusos que poderiam levar a hábitos inconvenientes. Mas será que apenas quem foi adotado correu risco de abuso? Quantas vezes educadores desconfiam dessa situação em relação a outras crianças? Qual o papel da escola? Em primeiro lugar, abrir o assunto com os pais. E, se necessário, com eles, se possível, acionar o conselho tutelar. 

E quanto às outras questões que dizem respeito à área da sexualidade? Mudam, no caso de pessoas adotadas? Infelizmente, muitas vezes, sim. Porque familiares e educadores, receosos de que no futuro elas manifestem comportamentos sexuais que seus pais biológicos podem ter tido, prenunciam a possibilidade de que elas se tornem algo que os assuste. 

Portanto, é importante que quem ensina lide com transparência com as questões de qualquer criança, adotiva ou não, colocando em pauta os assuntos que incomodam. O profissional deve ter um espaço para refletir, discutir experiências e trabalhar o olhar preconceituoso que costuma permear a adoção e outras condições e interfere nas relações, contribuindo para que a adoção deixe de ser encarada como um problema por aqueles que atuam na escola. 

É necessário considerar ainda que as mudanças da criança durante o desenvolvimento são grandes e que o olhar atento de quem educa é extremamente importante. Isso inclui ver (e acreditar) que o agitado pode se tornar calmo e o calmo agitado e que o disperso tem seus momentos de concentração e o isolado se integra. Não há linearidade no desenvolvimento. Felizmente, ninguém nasce e permanece no formato desejado pelos pais, pelos educadores ou pela sociedade. É essa plasticidade que possibilita nos adaptarmos às mais diversas situações, na medida em que não sejamos continuamente rotulados como incompetentes, agressivos ou distraídos. 

Familiares e educadores têm de entender que filhos, biológicos ou adotivos, por questões genéticas e/ou ambientais, podem ter problemas, dependendo do olhar de quem os observa. Nem por isso, necessariamente, vão se tornar isto ou aquilo. O ser humano tem uma notável característica: novas interações e experiências de vida lhe possibilitam construir o futuro. Nós, responsáveis pela Educação, temos um papel importante nisso.

Resumo

A chegada de crianças na Educação Infantil gera expectativas nelas, nos pais e nos educadores. Quando se trata das que foram adotadas, então, ainda mais. Muitas dúvidas e temores surgem na cabeça dos adultos - mas são, na maioria das vezes, exagerados. Tal como qualquer um nessa faixa etária, os pequenos mordem os colegas, levam tempo para se adaptar à rotina... O importante é não esconder o fato da adoção de ninguém nem se apoiar no estereótipo da criança-problema.

Bibliografia

 

DI LORETO, O. D. M. 1997. Da adoção (e dos erros do pensar) ou dos erros do pensar (e da adoção). Psicologia em Estudo, n. 2, v. 2, p. 1-33.
GUIMARÃES, L.A. 2010. Conversando com crianças sobre adoção. São Paulo: Casa do Psicólogo.
PAIVA, L.D. 2004. Adoção: significados e possibilidades. São Paulo: Casa do Psicólogo.
SOUZA, H.P. 2008. Adoção - Exercício da fertilidade afetiva. São Paulo: Paulinas.
WEBER, L.N.D. 2003. Aspectos psicológicos da adoção. Curitiba: Juruá.
Série de vídeos Proteção integral à criança e ao adolescente. Coordenação geral: M. C. Rossetti-Ferreira (bit.ly/q_casa, bit.ly/difad, bit.ly/de_es e bit.ly/volcasa).

 

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