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Professor reflexivo

Registrar as situações de sala em fotos, vídeos e textos é essencial para aprimorar a prática

POR:
Fernanda Salla

O que leva você, professor, a se aperfeiçoar? Como melhorar a atuação em sala? De que modo saber se o planejamento e as intervenções são os mais adequados? Quando o assunto é aprimoramento docente, as respostas, com frequência, passam pelo apoio da equipe gestora e pela formação continuada. Mas vale jogar luz sobre algo que depende de você e que é essencial para quem busca evoluir: o registro reflexivo. 

São textos, imagens e áudios que resgatam as atividades feitas em classe e servem como objeto de investigação e análise crítica sobre o próprio trabalho e o desenvolvimento da garotada. "O professor é alguém em contínuo aprendizado e deve ter a dimensão de que aprender significa interrogar-se sempre sobre o que pensa, o que planeja e o que faz em sala", diz Cleide do Amaral Terzi, consultora e especialista em Educação. Além de possibilitar a quem leciona tomar consciência de suas ações e das características e da trajetória dos alunos, a ferramenta dá subsídio para avaliá-los adequadamente e identificar as propostas mais eficazes para o aprendizado. 

Miguel Zabalza, pesquisador da Universidade de Santiago de Compostela (USC), na Espanha, diz que olhando para trás, analisando os pontos fortes e fracos, é possível reajustar o trabalho e progredir. "Não é a prática por si mesma que gera conhecimento. No máximo, permite estabilizar e fixar certas rotinas. A boa prática, aquela que permite avançar para estágios cada vez mais elevados no desenvolvimento profissional, é a prática reflexiva", afirma no livro Diários de Aula: um Instrumento de Pesquisa e Desenvolvimento Profissional (160 págs., Ed. Penso, tel. 0800-703-3444, 49 reais). 

Para isso, vale lançar mão de anotações, fotografias e gravações de voz e imagem sobre aspectos ocorridos em classe para alimentar a reflexão. Segundo Zabalza, essa documentação transforma experiências e impressões, ou seja, realidades nem sempre de fácil acesso ao docente, em algo visível e que suporta uma análise. 

Cada um desses recursos tem características específicas e todos podem e devem ser usados em benefício do trabalho pedagógico, pois se completam. Os escritos são maneiras de não deixar passar elementos que chamaram a atenção na dinâmica da aula, como observações sobre o desenvolvimento das propostas, a adequação delas ao planejamento e o alcance dos objetivos. Com as fotos, é possível investigar a criança e suas experimentações. Já os vídeos auxiliam o professor na tematização da própria atuação com os alunos e, assim como o áudio, recuperam as intervenções feitas e o efeito delas no aprendizado dos estudantes. 

Para que esse material seja uma ferramenta reflexiva, porém, é preciso debruçar-se sobre ele, estudá-lo e colocá-lo em discussão, quando possível. Depois, narrar esse processo em um texto. "A escrita organiza o pensamento e faz com que a reflexão não se perca", diz Renata Cristina Oliveira Barrichelo Cunha, docente do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep). Para isso, não há um modelo definido. "As redações devem fazer sentido para o educador e podem ter a forma que ele achar mais funcional", diz Mônica Matie Fujikawa, mestre em Educação pela Universidade Metodista de São Paulo.

Suporte teórico e a troca são essenciais 

De modo geral, a condição de trabalho dos educadores, com pouco tempo para o estudo, tem sido um grande obstáculo para incorporar essa estratégia à rotina, assim como a ausência de interlocutores. "Não é em toda escola que o docente encontra colegas e gestores dispostos a compartilhar suas reflexões, a fim de ter subsídios para discutir o trabalho em sala. Então, ele acaba não vendo sentido nisso", diz Renata. 

Essa falta de suporte também pode desvirtuar o uso desse instrumento, tornando-o pouco efetivo. Isso ocorre porque, apesar da boa intenção, muitos professores ainda não têm um repertório formativo que embase esse exercício. "Há escolas que costumam fotografar os alunos, mas apenas usam isso como arquivo ou para divulgação do que é realizado em sala, sem aprofundar a reflexão a um nível crítico e apurado", diz André Carrieri, fotógrafo e mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Para que o trabalho reflexivo não permaneça no plano do achismo, sem aprofundamento pedagógico, os referenciais teóricos são essenciais. 

Apesar dos obstáculos, é possível, no dia a dia, desenvolver maneiras próprias de elaborar esse registro e criar mecanismos para socializá-lo. Nas páginas seguintes, você vai conhecer como quatro professores fazem isso. Os exemplos podem servir de inspiração para que você também adicione essa ferramenta na sua rotina.

Vídeo com dicas sobre como fazer fotos e vídeos durante as aulas:

Anotação pessoal: escrever para entender

Tamara Pina, da Escola Maple Bear, em Macaé, a 182 quilômetros do Rio de Janeiro, não abre mão de escrever sobre o que ocorre com sua turma de pré-escola e as reflexões que isso suscita. "Narrar esses episódios evita que eu perca situações de aprendizagem para mim e para as crianças. Meus saberes como professora estão na relação com a turma", conta. 

O teórico espanhol Miguel Zabalza difundiu a importância da escrita no processo de reflexão. De acordo com ele, ao escrever sobre o que faz como profissional, o educador se conscientiza de seus padrões de trabalho. "É, além disso, uma forma de aprender." O comportamento de uma criança ou de um grupo de estudantes, a relação entre eles e da sala com o professor, o conhecimento e os sentimentos que emergiram durante a aula, o que ocorreu como previsto e o inesperado: todos esses aspectos possibilitam um estudo minucioso das necessidades da turma e da adequação do planejamento. Além disso, permitem ao educador se autoavaliar permanentemente. Segundo a consultora Cleide Terzi, essa escrita não é uma prestação de contas do que foi realizado. "Trata-se de uma ferramenta de trabalho, feita para si mesmo. Ela deve ser um compromisso com a profissão, não um peso para o professor." 

Os registros de Tamara são textos pessoais, escritos a mão num caderno (leia o quadro abaixo). Para realizá-los, ela se baseia em falas das crianças ou em algo que chamou a atenção dela em classe, procurando compreender o que os indícios revelam. "É como se eu estivesse pensando com o papel", diz. "Como reverter o que não deu certo?" e "Que autores ou pesquisas falam sobre o que vivi em sala e podem me ajudar?" são alguns questionamentos feitos por ela durante a reflexão. 

Quando há parceria com colegas e gestores, o processo formativo se amplia, mas Tamara crê que o ato de escrever já contribui para seu aperfeiçoamento. "O registro faz com que o momento não fique para trás e o aprendizado se consolide." A escuta sensível e o olhar para o que as crianças dizem e pensam têm sido o caminho para melhorar sua prática e se fortalecer como professora.

 

Diariamente, um menino tem me desafiado a pensar a questão do tempo na Educação Infantil. (...) 

O que ele está a me comunicar com seu modo singular de fazer, dizer e movimentar-se em sala não coincide com as minhas expectativas. 

(...) talvez ele busque compreender o sentido que faz para os colegas esses momentos de aprendizagem sistematizada e que para ele ainda não apresentam sentido algum. 

(...) são necessários outros modos de vivenciar e compreender os usos e funções da escrita e da leitura. 

Situação Diariamente, na hora do trabalho de escrita programada, um aluno dizia: "Antes, posso beber água?". Quando retornava, não tinha pressa de iniciar a tarefa e mexia com os colegas. 


Reflexão Em narrativas, Tamara tratou de um comportamento que não esperava, procurando entender o que estava por trás da atitude do menino. Uma de suas hipóteses: mesmo a atividade de escrita sendo significativa para boa parte da turma, podia não ser para ele. 

Encaminhamento A professora criou outras situações de uso da escrita em jogos e brincadeiras. Também passou a solicitar a ajuda do aluno nos momentos de orientação das atividades em grupo, chamando a atenção dele para o comportamento dela como usuária da escrita. 

Texto compartilhado: discussão coletiva e virtual

Antes de ter o hábito de escrever e refletir sobre a prática, Marcemino Pereira, docente de História do 6º ao 8º ano da EMEF Padre Melico Cândido Barbosa, em Campinas, a 99 quilômetros de São Paulo, preocupava-se mais com o conteúdo do que em entender o processo de aprendizagem de cada um. Começou a mudar em 2006, ao ingressar no Grupo de Terça, comunidade virtual mantida pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e aberta a educadores. 

Seus integrantes redigem as Pipocas Pedagógicas, narrativas curtas, com toques literários, sobre situações de sala. "A intenção é manter a atitude reflexiva do professor", conta. Os registros são compartilhados por e-mail com cerca de 300 educadores, que os discutem (leia o quadro abaixo). Para Pereira, a troca produz conhecimento. "Alguém pode analisar algo que fiz por outro viés, ampliando minha visão. Ao ler o relato dos colegas, também presto atenção às minhas experiências." Ele acumula cerca de 100 pipocas. 

Pereira conta que a prática o fez mais atento e preocupado com as características de cada um. "As pipocas me deixaram mais sensível às diferenças."

Aranhas

Eu estava em pé, junto às primeiras carteiras, orientando as atividades. As crianças do 6º ano estavam com os olhos fixos em mim: 

- Uma aranha!! - disse alto um menino. (...) Estava com pressa e preocupado porque os alunos não estavam entendendo a proposta. 

Fiquei exasperado com tantas dúvidas, eram muitas "aranhas" descendo pelo teto ao mesmo tempo.

Oi, Marcemino!

(...) Sempre reclamamos que nossa vida de professor não é fácil, e não é mesmo, ainda mais quando nos vemos diante da situação de ter que reinventar o mundo com os jovens.  

(...) Os alunos, diferentemente das aranhas, costumam se mostrar inconformados com o mundo, isso é bom, mas costuma atrapalhar. 

Situação Pereira pediu a elaboração de um texto aos alunos sobre o conteúdo histórico trabalhado. Ao notar que eles não tinham entendido, repetiu a explicação. Mesmo assim, foi bombardeado com perguntas. 

Reflexão Em um texto, o professor comparou os questionamentos dos alunos com aranhas que descem do teto e amedrontam. Ele ponderou sobre quanto é mais confortável viver num mundo de coisas prontas. Um dos comentários enviados por um colega ao grupo virtual destacou o caráter desestabilizador das perguntas: diferentemente de uma aranha da qual é possível se livrar, os estudantes não se conformam com facilidade, o que é bom. 

Encaminhamento Pereira repensou a relação professor-aluno. Isso o fez mudar a forma de gerir a sala, tratando esse tipo de interrupção como algo que faz parte da aula, e não como um problema que deve ser eliminado.

Fotografia: o que as ações das crianças mostram 

Patrícia Prado não se separa da câmera fotográfica. No berçário da CEEI Almerinda Pereira Chaves, em Jundiaí, a 60 quilômetros de São Paulo, as fotos são parte da rotina. O uso delas como ferramentas de reflexão foi difundido por meio da proposta da cidade italiana de Reggio Emilia, uma referência em Educação Infantil. A prática faz parte do conceito de documentação pedagógica. "O educador prepara o ambiente para investigar algo, registra em vários formatos, organiza o material, discute, reflete sobre ele e testa possibilidades de interação dos pequenos com o conhecimento. O foco são as crianças e as situações didáticas", diz Eloisa Ponzio, coordenadora do Colégio Vera Cruz, em São Paulo 

Não basta, porém, sair disparando o flash. "Eu e minha auxiliar planejamos o que investigar", diz Patrícia (leia o quadro abaixo). Fotos posadas também não fazem sentido, pois não mostram a ação da criança. A discussão e a reflexão coletiva são princípios importantes no seu dia a dia. Com a auxiliar, ela analisa as imagens e elege as que retratam do melhor modo o que pesquisou. Depois, compartilham com toda a comunidade escolar.

Situação Durante a adaptação dos bebês na creche, Patrícia fazia rodas de leitura. Com o tempo, percebeu que eles passaram a aguardar esse momento e se encaminhar para o espaço reservado à atividade.

Reflexão A professora começou a fotografar diariamente o momento da leitura, que sofria variações quanto ao local em que era realizada, ao livro escolhido, a quem fazia a leitura e à entonação da voz. Ao analisar as fotos, observou a reação dos bebês nas diferentes situações: se eles se aproximavam do leitor, que gestos faziam, se permaneciam atentos etc.

Encaminhamento Ao verificar que os bebês já demonstravam algumas preferências por determinados livros, passou a convidá-los a escolher a leitura seguinte, trabalhando a autonomia.

Vídeo: ver e ouvir a si mesmo em ação

Usar gravações em vídeo da própria atuação com a turma do 1º ano da EM Jorge Karaoglan, em Mundo Novo, a 292 quilômetros de Salvador, e do processo de aprendizado da garotada faz parte da rotina de Larissa Gomes há um ano. Na época, aprendeu sobre registro reflexivo em um curso do Instituto Chapada de Educação e Pesquisa (Icep). "Antes, a coordenadora acompanhava minhas aulas e discutíamos, mas era apenas um olhar de fora, dela, em relação ao meu trabalho", conta Larissa, que se tornou formadora do Icep. Com as gravações, ela consegue identificar com mais clareza seus erros e encontra indícios para rever sua prática. 

Durante a aula, o professor tem de lidar com diversas dimensões do trabalho didático: propor a atividade, assegurar o entendimento e a participação de todos, fazer intervenções para que avancem e mediar conflitos, entre outras demandas. Em meio a tudo isso, muitas vezes ele não consegue analisar seu desempenho. "Ao assistir ao vídeo, o educador tem um olhar distanciado, vê detalhes ou foca a atenção no que a criança está fazendo, em suas hipóteses e descobertas, e nas intervenções que fez", diz a consultora Cleide. 

O processo reflexivo de Larissa começa na hora do planejamento. "Ao elaborar uma sequência didática, identifico em que etapas a gravação será importante para minha reflexão", diz a docente, que usa o celular para os registros (leia o quadro abaixo). "No começo, os alunos estranhavam, mas depois os vídeos passaram a fazer parte da rotina." 

Em casa, a professora vê o material e anota as falas das crianças e as intervenções que fez. Depois, ela compara o que ocorreu em sala com a sequência didática que tinha planejado. "Analiso o que deu certo ou não e digito os questionamentos e encaminhamentos que vão surgindo de minha reflexão. Às vezes, a intervenção preparada não se mostra a mais eficiente ou acaba não ocorrendo, pois as crianças vão construindo caminhos diferentes do que eu esperava. Só é possível perceber isso quando revejo minha ação", completa. 

Esse trabalho embasa sua rotina de três horas diárias de estudo. "Muitas vezes, quando estou fazendo meu registro, já sei o capítulo do livro a que vou recorrer para analisar meu trabalho", afirma Larissa. Com essa prática, ela passou a entender melhor o que os teóricos diziam e a relacionar isso ao trabalho em sala.

Situação Para trabalhar estratégias de cálculo, Larissa propôs que cada aluno solucionasse o seguinte problema: "Hugo tinha 19 bolinhas de gude, ganhou algumas e ficou com 27. Quantas ele ganhou?". 

Reflexão A professora gravou cada criança contando como havia solucionado o problema. João Vitor Aragão Dias, 7 anos, não conseguiu explicar seu raciocínio. Ao analisar as imagens, ela notou que o excesso de intervenções feitas por ela o impediu de comunicar como tinha resolvido a questão. Além disso, identificou que as crianças se apoiavam muito no desenho e na contagem para encontrar os resultados, sem utilizar números. Ela registrou essa reflexão por escrito. 

Encaminhamento A educadora planejou dar mais tempo para João Vitor se explicar. Também elaborou uma sequência didática envolvendo as regularidades numéricas para auxiliar os alunos nas estratégias de cálculo mental.

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