Entrevista com Maria Cristina Mantovanini

Educadora questiona o excesso de diagnósticos de patologias sem critério, reforça a obrigatoriedade do estágio supervisionado em Psicopedagogia e critica a imagem desgastada da profissão

POR:
Beatriz Vichessi
Maria Cristina Mantovanini. Foto: Gustavo Lourenção
Maria Cristina Mantovanini

Com o passar do tempo, a Psicopedagogia vem ganhando espaço na Educação. Dentro ou fora das instituições de ensino, educadores têm se debruçado sobre questões afins à aprendizagem e à afetividade, temas básicos da área. No entanto, a formação de muitos deles se mostra frágil e insuficiente, o que vem desgastando a credibilidade da profissão. A prática equivocada desses profissionais, além de não ajudar crianças e jovens a aprender, é marcada pelo hábito de diagnosticar distúrbios, como a dislexia. "Quem pode afirmar algo desse tipo são os médicos, que são habilitados para tal", afirma Maria Cristina Mantovanini, psicopedagoga com quase 30 anos de experiência. Para ela, não é problema os docentes buscarem esse conhecimento para aperfeiçoar a prática desde que estudem a teoria continuamente e respeitem os limites de atuação próprios da área.

Historiadora, doutora em Psicologia Escolar pela Universidade de São Paulo (USP) e integrante da Sociedade Brasileira de Psicanálise (SBP), trabalhou em escolas por 14 anos. "Fui professora em diversos segmentos - da Educação Infantil à pós- graduação - e atuei como orientadora pedagógica. Conheço em profundidade o cotidiano do ambiente escolar, com o qual mantenho contato direto, o que é fundamental para atuar como psicopedagoga."

Em entrevista a NOVA ESCOLA, Maria Cristina também fala sobre os grandes teóricos da área e convida à reflexão sobre o jeito normativo com que a aprendizagem tem sido encarada.

O que é Psicopedagogia e qual a função desempenhada por quem segue a carreira?
MARIA CRISTINA
É uma área do conhecimento que estuda questões ligadas à afetividade e à cognição e trabalha com elas. Pela escassez de produção acadêmica de qualidade sobre o tema, é difícil apresentar uma definição mais completa. Na escola, o profissional pode desempenhar duas funções. Uma é trabalhar diretamente com o corpo docente, abordando questões da dinâmica da sala de aula, da relação entre alunos e professores e, entre esses, o coordenador pedagógico e a família. Outra é atender no contraturno as crianças que estão apresentando algumas dificuldades em classe.

No consultório, como é a atuação desse profissional?
MARIA CRISTINA
Bem variada, mas sempre é necessário saber o objetivo do trabalho e focar as questões cognitiva e afetiva. É impossível separar uma da outra. Se a criança leva a lição de casa do dia para fazer lá, ele pode observar e analisar como ela lida com o desafio e de que forma se organiza e administra o tempo, por exemplo. Observando tudo isso, o profissional pode intervir, conversar, problematizar a situação. Também é interessante usar brinquedos e jogos, dentre eles os de raciocínio, como Senha, Mancala e baralho, para avaliar como o aluno opera frente a problemas. Nos dias de hoje, é fundamental incluir a informática. Lanço mão de jogos virtuais, como o The Sims, cujo objetivo é governar uma cidade fictícia.

Em atendimentos particulares, qual deve ser a relação entre o psicopedagogo e a escola?
MARIA CRISTINA
Ele tem de conhecer a dinâmica da instituição e manter um contato estreito com a equipe docente. Para tanto, deve se reunir com o professor ou o coordenador ou manter com eles conversas por telefone ou e-mail.

Estudar Psicopedagogia ajuda o educador a ensinar melhor?
MARIA CRISTINA
Não necessariamente. É claro que ele pode buscar um curso sério para aprender sobre o assunto. Porém, para ser um bom professor, é preciso conhecer as didáticas específicas da disciplina que ensina e as teorias do desenvolvimento e da aprendizagem, além de estudar Jean Piaget (1896-1980), Lev Vygotsky (1896-1934) e Henri Wallon (1879-1962). Acredito que seja mais proveitoso para o docente estudar e trabalhar em parceria com colegas da escola e com o coordenador pedagógico, que deve orientá-lo sempre.

Qual é a bibliografia básica da área de Psicopedagogia?
MARIA CRISTINA
Piaget é o primeiro autor que recomendo. Mas estudá-lo não significa ler as obras dele uma vez e pronto. É preciso se dedicar aos textos a vida inteira. A temática, por si só, precisa estar em foco de modo contínuo porque a escola muda o tempo todo. Também considero importante ler os textos do austríaco Sigmund Freud (1856-1939) e do britânico Wilfred Bion (1897-1979). Dos teóricos contemporâneos, indico o italiano Antonio Imbasciati e a argentina Sara Pain. Vale lembrar que os argentinos são precursores na área e a apresentaram aos brasileiros. Diferentemente de nós, eles têm uma graduação específica sobre essa área do conhecimento.

Apesar de recente no Brasil, a profissão está desgastada. Há profissionais com formação inadequada e práticas ineficazes. O que acha disso?
MARIA CRISTINA
Infelizmente, eu poderia passar muito tempo listando outros problemas. Hoje, qualquer um diz que é psicopedagogo. As pessoas acham isso chique, como ser participante de reality show e modelo. Existem professores particulares e fonoaudiólogos que afirmam "também faço um trabalhinho de Psicopedagogia", assim, no diminutivo, como se fosse algo simples. Ficam inventando diferenciais. Para ser um bom profissional, é necessário estudar muito a fim de entender sobre afetividade, cognição e mundo inconsciente. Só assim é possível reunir a Psicologia e a Pedagogia. Isso aponta para outra questão problemática, a formação do profissional. Há poucas instituições de ensino sérias, que oferecem bons cursos. A formação do psicopedagogo carece de mudanças. Os programas têm de ser mais longos e prever a experiência clínica obrigatória. A dedicação só à teoria não basta. Estar na escola e contar com a orientação de alguém com mais experiência é fundamental.

As escolas, em geral, reagem bem à intervenção de um psicopedagogo?
MARIA CRISTINA
Nem sempre. Às vezes, o início do trabalho é difícil. A situação é contraditória: a escola está sobrecarregada - mas quando a ajuda chega reage com desconfiança e descrença. Por um lado, quem leciona tem um pouco de razão. O psicopedagogo é aquela pessoa que vem de fora para opinar, mas não vive o dia a dia da sala de aula. Então, ele precisa saber se aproximar e estabelecer uma relação de confiança, deixando claro que quer contribuir e sabe como.

Dislexia e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) são problemas que impedem o desenvolvimento da aprendizagem?
MARIA CRISTINA
Não. Ambos podem dificultar a aprendizagem, mas não impedi-la. Problemas dessa natureza ocorrem quando a criança não consegue dar conta dos desafios esperados para a faixa etária em que se encontra. Mas isso é superável, não significa que ela não vai aprender nada, jamais. Questões relacionadas a diversos cenários podem provocá-los, como os familiares e os individuais. No entanto, é preciso considerar que, às vezes, a dificuldade pode se relacionar ao ensino. Como o conteúdo está sendo apresentado ao aluno? E a organização do tempo e do espaço na sala de aula, tem sido feita de que forma? Em geral, a escola é muito normativa e defende que para aprender é obrigatório seguir regras e ponto final, como se todos fossem iguais.

O número de crianças com laudo médico atestando problemas psiquiátricos tem crescido muito. O que é possível concluir com base nisso?
MARIA CRISTINA
De um ponto de vista filosófico, acho que vivemos um momento de imediatismos, sem espaço para a reflexão. Por exemplo: toda tristeza é depressão. Então, você medicaliza. Os indivíduos estão sendo silenciados.

Por que alguns educadores e familiares atribuem o fracasso escolar a possíveis males emocionais ou neurológicos da criança, desconsiderando o fato de que o responsável pelo problema poder ser quem ensina?
MARIA CRISTINA
Essa foi uma discussão que abordei na minha tese de doutorado, que foi publicada no livro Professores e Alunos Problema: Um Círculo Vicioso (174 págs., Ed. Casa do Psicólogo, tel. 11 3034-3600, 28 reais). Se a criança não aprende, muita gente acha mais fácil culpar uma doença. Assim, a vítima vira o réu e não há nada que possa ser feito além de lamentar o fato. Agindo assim, ninguém precisa buscar uma solução nem investigar se, na verdade, não se trata de um problema que tem a ver com o ensino. Essa postura ainda fragiliza o aluno a ponto de tudo o que acontece na vida dele ter de ser minimizado ou desconsiderado porque ele apresenta um problema emocional, por exemplo.

Considerando a formação do professor, em Pedagogia ou em uma licenciatura, ele pode afirmar que um aluno é disléxico, por exemplo?
MARIA CRISTINA
Não. Acho difícil um docente afirmar tal questão com certeza. Ele até pode intuir, ainda mais se tiver muitos anos de experiência em sala de aula. De qualquer maneira, educadores e psicopedagogos não estão aptos a diagnosticar dislexia, hiperatividade ou outro distúrbio desse tipo. É antiético e irresponsável dizer à família: "Seu filho é disléxico". Só quem pode afirmar isso são os médicos.

Para enfrentar o fracasso escolar é interessante que a escola volte o olhar para si e reveja as práticas pedagógicas?
MARIA CRISTINA
Sim, é o dever dela. Faço supervisão com o psicanalista Leopoldo Mosé, que nos conta algo interessante, a metáfora do avião. Ao trabalhar, temos de nos lembrar da instrução "em caso de despressurização da cabine, coloque primeiro a máscara em você e depois ajude a pessoa ao lado". Quer dizer, se o educador não perceber primeiro o que é responsabilidade dele, vai morrer sem ar e a criança ao lado dele também sucumbirá sem auxílio algum.

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