Entrevista com Lee Sing Kong, diretor do Instituto Nacional de Educação de Cingapura

Diretor do organismo que prepara docentes e gestores de Cingapura revela como essa ilha construiu um dos sistemas educacionais mais eficientes e elogiados do mundo

POR:
Ivan Paganotti
Lee Sing Kong. Foto: Marina Piedade
Lee Sing Kong

Quando declarou sua independência da Inglaterra, há 55 anos, a Educação de Cingapura tinha problemas tão grandes que só podiam ser comparados à pífia situação financeira da pequena ilha no Sudeste Asiático. A taxa de analfabetismo e o nível de desemprego eram alarmantes e não havia recursos naturais a ser explorados para ativar o crescimento econômico. "O capital humano era nossa única riqueza. O governo percebeu que era preciso melhorar a qualidade do ensino para que as pessoas pudessem desenvolver habilidades e ser integradas ao mercado de trabalho", conta Lee Sing Kong, diretor do Instituto Nacional de Educação de Cingapura. O organismo é responsável pela formação dos professores no país, atualmente com cerca de 5 milhões de habitantes.

Desde então, os gastos com Educação não são encarados como custos, e sim como um investimento prioritário. Os resultados dessa medida podem ser observados em muitas áreas. Nos anos 1970, por exemplo, a cidade-estado começou a atrair diversas multinacionais, já que oferecia baixos custos salariais aliados a uma mão de obra qualificada por uma Educação de reconhecimento internacional. Em entrevista a NOVA ESCOLA, durante visita a São Paulo, Lee falou sobre outros avanços trazidos pela ênfase dada ao ensino e defendeu a valorização do educador como condição para o desenvolvimento individual dos estudantes e do país.

Quais foram as primeiras ações implementadas para reverter a situação precária que predominava havia meio século na Educação de Cingapura?
LEE SING KONG
No início, foi importante garantir para toda a população uma base sólida de letramento e fundamentos matemáticos. Também foi crucial montar um currículo nacional que realmente priorizasse as habilidades necessárias para o posterior ingresso no mercado de trabalho e atuar com empenho para reverter o abandono escolar. Quase 10% dos alunos paravam de estudar antes de concluir o Ensino Fundamental e precisávamos reduzir isso porque, em uma população pequena, cada estudante é um recurso precioso. Mas o maior desafio mesmo foi a formação dos professores, que tinham de estar aptos a alfabetizar a todos plenamente.

Como isso foi feito?
LEE
Nós nos direcionamos pelas circunstâncias que encontramos, visando o progresso que a nação almejava. Em qualquer reforma educacional, há uma série de condições para o sucesso e uma delas é a Educação dos próprios educadores. Formamos uma geração de profissionais que acredita que toda criança pode aprender. Tudo depende de uma abordagem correta. Eles se tornaram aptos a compreender os diferentes perfis de aprendizado dos alunos para, assim, adotar a ferramenta mais apropriada.

Cingapura possui uma população de 5 milhões de habitantes, enquanto a do Brasil é de 190 milhões. Mas enfrentamos o abandono escolar e a falta de formação dos educadores como seu país. É possível adotar aqui as mesmas práticas de lá e esperar resultados semelhantes?
LEE
Não dá para transportar um modelo de um lugar para o outro porque as circunstâncias, as culturas e as situações são muito diferentes. No entanto, boas lições sempre podem ser aprendidas com as experiências positivas de outras partes do mundo. Cingapura tem um sistema educacional pequeno, compacto. Conseguimos evoluir e atingir um bom patamar porque pegamos os aprendizados dos outros países e realizamos as adaptações necessárias. Uma boa prática a ser seguida é o planejamento. Primeiro, deve-se perguntar o que se quer da Educação em seis, dez ou 12 anos e com base nisso direcionar o currículo para que o objetivo seja alcançado.

Qual o papel do professor nesse processo de mudança?
LEE
Um estudo da McKinsey & Company (Como os Sistemas Escolares de Melhor Desempenho do Mundo Chegaram ao Topo, de 2007) aponta que os melhores sistemas educacionais têm em comum educadores de altíssimo nível. Por isso, essa pesquisa indica que a qualidade de um sistema educacional não pode superar a de seus profissionais. Sendo assim, o Brasil deve continuar sua jornada para formar bem os professores. Se eles trabalharem melhor, não há dúvida de que o ensino vai evoluir.

O relatório da McKinsey também aponta a importância de tornar a carreira docente atraente, e isso é um problema no Brasil. O que foi feito em Cingapura nesse sentido?
LEE
Nossos educadores também não tinham uma carreira muito atraente. Em 1995, no entanto, o governo investiu nisto: o salário inicial deles foi sendo aumentado até se igualar ao de um engenheiro em início de carreira. A mensagem é clara: a docência é tão importante quanto qualquer outra profissão. As perspectivas de carreira também foram melhoradas. Antes, um professor só podia ser promovido a chefe de departamento ou a diretor. Os que gostavam de lecionar e se recusavam a assumir cargos de liderança estavam condenados a se aposentar sem nenhuma oportunidade. O governo mudou isso. Manteve o caminho para cargos de gestão, mas abriu a possibilidade para que um professor pudesse ser promovido com melhores salários aos cargos de sênior, líder ou mestre - que tem o mesmo salário de um vice-diretor. E ainda existe uma terceira possibilidade para quem é muito bom na preparação de currículos e de modelos de aprendizado: a chance de receber uma promoção para a função de especialista.

Com as modificações a carreira docente passou a ser mais valorizada?
LEE
Sim. Em 1991, eram cinco candidatos para seis vagas no Magistério. Agora, são cinco para uma vaga. O salário, entretanto, é somente um dos componentes importantes de uma fórmula maior. Melhorar a compreensão social sobre o papel dos professores é imprescindível. Foi importante deixar claro o objetivo do ensino para eles e para a população também. Isso ficou evidente na metade dos anos 1990 com uma frase difundida pelo governo de Cingapura - "O papel dos educadores é formar o futuro da nação" - e com a divulgação das boas iniciativas. Outra ação interessante e realizada até hoje é a celebração do Dia dos Professores, em 1° de setembro, com a premiação de quatro profissionais pelo presidente do país no Palácio do Governo. Eles recebem o reconhecimento por seus trabalhos extraordinários. É um ato simbólico, mas tem reconhecimento nacional.

Como é feita a seleção de educadores para trabalhar nas escolas?
LEE
O Ministério de Educação de Cingapura recruta os candidatos de um grupo composto pelos 30% com melhores notas na Educação Básica ou Superior, que vão estudar no Instituto Nacional de Educação de Cingapura. Lá, garantimos que eles dominem o conteúdo que vão lecionar e a forma de fazer isso. Se não souberem como ensinar cada estudante, não alcançarão o impacto desejado e comprometerão os objetivos.

Os professores que frequentam o Instituto têm a possibilidade de colocar em prática o que aprendem antes de assumir uma sala de aula?
LEE
Sim. Durante o período de preparação, eles passam mais de 20% do tempo nas escolas, sob a supervisão de um profissional sênior, que avalia sua prática, aponta os pontos fortes e sugere melhorias. Assim, quando se formam, estão confiantes para assumir uma turma. E formamos cerca de 2 mil professores iniciantes por ano.

Eles são pagos enquanto estudam?
LEE
Sim, e esse é mais um ponto que atrai os melhores candidatos para a docência (o salário pode variar de 1,5 mil a 5 mil dólares, de acordo com o curso escolhido). Os estudantes de cursos de pós-graduação, por exemplo, recebem mais, assim como os que estão próximos do final do programa, realizado em um período que varia de um a quatro anos.

Qual a média de alunos por turma na Educação Básica?
LEE
Nós tínhamos a média de 40 alunos por sala. Reduzimos esse número para 30, em média, porque queremos encorajar a maior interação entre eles, um aprendizado mais direto e colaborativo, em grupos menores de alunos.

Qual a importância da formação continuada em Cingapura?
LEE
O conhecimento e a tecnologia avançam muito rápido e os professores não podem ficar para trás. Um educador que está sem se atualizar por cinco anos, por exemplo, já está obsoleto. Por isso, o governo investe em cursos para professores já formados e eles devem cumprir uma carga de 100 horas, todos os anos. Queremos ter educadores que também sejam pesquisadores e reflitam sobre as diferentes situações que surgem dentro de suas salas de aula.

Depois de tantas transformações, qual é o próximo desafio da Educação em Cingapura?
LEE
O mesmo de todos os países do mundo: manter o currículo atualizado. Os alunos que entram na escola vão ingressar no mercado de trabalho após 16 ou 17 anos. Nesse intervalo, com as transformações que venham a ocorrer, quem pode prever as competências e habilidades que serão necessárias a esses jovens no futuro? Em Cingapura, acreditamos que não vamos errar se trabalharmos com habilidades fundamentais de linguagem e cálculo e, é claro, com uma base sólida de valores, como integridade, honestidade, esforço e desejo de aprender.

E como se ensinam esses valores na sala de aula?
LEE
Pelo exemplo. Como um professor pode exigir que todos os estudantes sejam pontuais se ele sempre se atrasa? Como vai cobrar inovação das crianças se ainda usa anotações feitas há três décadas? Aqueles que educam precisam ser os primeiros a mudar.

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