Branca Jurema Ponce fala sobre planejamento de currículo

A professora de pós-graduação em Educação e Currículo afirma que um bom trabalho na escola só é possível com a formação de professores

POR:
Diego Braga Norte
Foto: Marina Piedade
BRANCA JUREMA PONCE
"O planejamento deve ser direcionado
à aprendizagem". Foto: Marina Piedade

Formada em Filosofia pela Pontíficia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Branca Jurema Ponce escolheu a Educação como seu tema de pesquisa ao cursar o mestrado e o doutorado. Especializou-se em Currículo e Políticas Públicas e hoje leciona na PUC, em São Paulo, com a preocupação permanente de deixar claro que não existem respostas prontas ou fórmulas mágicas para o planejamento de um currículo e a definição dos conteúdos programáticos que devem ser ensinados aos alunos. Adepta de uma linha de pensamento mais abrangente, ela trabalha para apontar caminhos e direcionamentos que devem ser trilhados em busca de soluções contemporâneas e adequadas à realidade das escolas brasileiras. Sua maneira de pensar a Educação engloba não só as unidades de ensino e o poder público, como se apenas essas duas instituições fossem responsáveis diretas pelo sucesso ou pelo fracasso do ensino, mas também todo o contexto social em que estamos inseridos. E sua preocupação maior é com a formação dos educadores, que coloca ao lado dos alunos como protagonistas no direcionamento e planejamento de um programa educacional mais eficiente.

Quais são as principais dificuldades no planejamento de um currículo que seja eficiente?
Branca Jurema Ponce
Uma questão importante é a própria compreensão do significado da palavra currículo. Na verdade, ele não é mais considerado apenas o documento de base no qual se pauta a Educação durante o ano letivo, mas é visto como um processo completo, que passa pela sala de aula e pela relação entre todos os envolvidos: professor, aluno, gestor e família, tendo como resultado a aprendizagem. Há alternativas para diferentes necessidades, desde aqueles que são superdirecionados até outros que pautam apenas diretrizes curriculares e preveem espaço para a discussão no cotidiano dos professores.

Há mecanismos para aferir a eficiência de um currículo?
Branca
Sim. O que ele traz de aprendizagem e não o que ele produz de números ou metas. Para realizá-lo, é preciso traçar um diagnóstico da situação da turma e só então desenvolver um caminho que seja capaz de envolver todos os sujeitos. Podemos fazer um documento primoroso do ponto de vista lógico e redacional, mas que, quando posto em prática em classe, fracassa porque não tem relação com as características dos alunos e do professor. De acordo com o senso comum, os problemas do processo de aprendizagem são de responsabilidade de quem está na sala de aula. Ouvimos muito frases do tipo: "O currículo é bom. O professor é que não sabe ensinar e o aluno é que é ruim". Espera aí! Se você não previu no processo como são os estudantes e os educadores com quem vai lidar, é impossível fazer um bom documento. Ele não pode ser produzido fora da escola, por um especialista externo. É essencial que seja fruto de um trabalho coletivo da equipe escolar.

No caso brasileiro, com diretrizes curriculares preestabelecidas, como incluir o direcionamento vindo da Secretaria no trabalho realizado em sala de aula?
Branca
Temos diretrizes norteadoras, mas temos também um instrumento que se chama projeto político pedagógico, que dá a cada escola a oportunidade de decidir como quer se organizar. Cada equipe tem de desenvolver seu plano. É preciso se questionar "como nós, aqui, na escola, ou nós, aqui, nessa rede, vamos nos organizar para o nosso próximo ano letivo?". Todos os envolvidos no processo de ensino e aprendizagem devem tomar parte: os gestores, os professores e os alunos. Aí, sim, dá para tecer uma linha para o trabalho cotidiano.

É certo que num país de dimensões continentais como o nosso os contrastes são imensos. Não dá para comparar, por exemplo, a realidade de um garoto de uma metrópole como São Paulo com a de outro que integra uma população ribeirinha do Amazonas. Mas nosso sistema de ensino não se ressente da falta de um currículo mínimo nacional?
Branca
Em primeiro lugar, ninguém pode ter dúvida de que os dois garotos têm de saber ler e escrever. E na idade certa. Mas é claro que temos de nos basear na realidade de cada um. É importante trabalhar as disciplinas do garoto do Amazonas, relacionando-as com os rios, a floresta e a fauna locais. Ou seja, de acordo com o universo dele, para evitar distorções. Fiquei sabendo que uma cidade pequena do interior paulista adotou a Educação no Trânsito como disciplina. Só que lá quase não há trânsito. Soubemos então que o prefeito e o secretário de Educação estiveram em São Paulo, se impressionaram com a situação maluca das ruas da cidade e resolveram criar a disciplina. Acontece que, para isso, tiraram horas do ensino de História, Geografia e Língua Portuguesa, que são muito mais relevantes. Temos de levar em consideração a realidade global ou local? A local é essencial como ponto de partida, mas nem por isso podemos abrir mão de aspectos globais importantes.

Como combater a fragmentação do conhecimento?
Branca
Temos muitas iniciativas interessantes, bem-sucedidas, mas nossos currículos, em geral, ainda são disciplinares, divididos e fragmentados. Precisamos, por exemplo, promover discussões de questões que permeiem várias disciplinas. Temos de trabalhar com as relações do conhecimento, que não pode ser morto, enciclopédico e técnico. Não se trata de qualquer aprendizagem. O ensino deve promover a criança, emancipá-la e fazer com que ela saiba refletir e discutir as questões de seu tempo. Precisamos de instrumentos para nos sentir à vontade em nosso mundo. Temos de trabalhar as relações entre professores e alunos e entre os próprios professores. Em muitas escolas, há docentes que se reúnem em torno de uma mesma questão e fazem diferentes abordagens. Por exemplo, dengue e aquecimento global. Aí entra o trabalho dos professores de Ciências, de Geografia e de História. Todo mundo pode participar coletivamente e promover um conhecimento que não seja fragmentado, mas relacionado com as diferentes áreas.

Qual a importância de os currículos respeitarem os critérios de continuidade e diversidade?
Branca
Temos estudado na nossa linha de pesquisa como os currículos prescritos ou apostilados impactam a Educação. Há um número enorme de municípios do Brasil que, por falta de estrutura, têm comprado materiais de empresas privadas. Esses materiais são alheios à rede, pois não consideram a formação de professores nem os conhecimentos anteriores dos alunos, muito menos a diversidade étnica e social locais. Em casos como esse, a implementação da proposta costuma ser problemática. Como falei anteriormente, se não for levado em conta o público específico para a qual se direciona, mesmo a melhor proposta tende a fracassar. O material produzido no interior da rede leva mais em consideração algumas dessas questões citadas. Eu tenho acompanhado as apostilas produzidas pela Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, tenho pesquisas de orientandos sobre isso. O material é extremamente linear. Às vezes, no entanto, o professor está tão carente que esse material acaba ajudando.

A revisão constante dos currículos não abre a possibilidade de tornar rapidamente obsoleto o que foi inicialmente acordado?
Branca
Não adianta fazer revisão do material se não se realiza a capacitação docente. Precisamos investir pesado na formação dos professores, que é o que melhor atualiza o conhecimento e os currículos anualmente. Durante muito tempo, o país deixou de fazer formação de qualidade e hoje está pagando um preço caro por isso.

A leitura e a escrita devem ser os objetivos prioritários da escola?
Branca
Essa é uma condição primordial. Tenho visto resultados de pesquisas que indicam, por exemplo, que jovens cursando o 7º e o 8º ano não sabem ler direito. Isso é uma tortura! Já pensou como é passar anos da sua vida num lugar em que tudo é intermediado pela leitura e pela escrita sem saber ler? Isso não pode ser apenas discurso. Claro que os estudantes têm de saber ortografia e a regra culta, mas escrever bem vai além disso: é conseguir desenvolver um raciocínio lógico, que tenha começo, meio e fim, conseguir expor essas ideias e argumentar com propriedade sobre elas. A cidadania passa por isso. Como exercê-la sem essas habilidades?

No Brasil, as aulas nos primeiros anos da Educação Básica são ministradas por um professor generalista. Os especialistas são contratados, prioritariamente, para lecionar do 6º ao 9º ano. Qual a importância deles? A partir de que idade os alunos devem ter aulas com eles?
Branca
Todo professor é um especialista. No caso, um especialista em ensinar. Essa questão sobre que tipo de professor é mais adequado para cada faixa etária é complexa, não existem fórmulas prontas. O importante é estar bem preparado. Não é porque ele leciona nas séries iniciais que nas aulas de Matemática, por exemplo, vai ficar restrito à aritmética pura simples, do tipo "2 + 2 = 4". Não basta também ensinar fórmulas. É preciso ensinar raciocínio lógico, uma instrumentação teórica poderosa.

No mundo e no Brasil, cada vez mais a Educação é tratada como um processo de mão dupla, que deve envolver a troca constante de experiências entre professores e estudantes. Essa troca tem sido produtiva?
Branca Eu aposto sempre numa coisa chamada diálogo. Essa palavra está desgastada, mas precisa ser resgatada. Ela vem do grego dialogos, que quer dizer "entendimento por meio da conversa". Essa é uma expressão muito bonita. É saber ouvir o outro para elaborar algo coletivo, em comum. Isso não é brincadeira. Numa sala de 40 alunos, é um processo que pode se tornar muito trabalhoso, mas que também é fantástico quando bem-sucedido. A criação das condições necessárias para que o diálogo aconteça é fundamental. O ambiente escolar tem de cultuar isso e o aluno tem de ser visto como um participante importante do processo de ensino e aprendizagem.

A falta de diálogo não é uma das causas da violência crescente?
Branca Há muita confusão com o conceito "violência escolar". Há violência na escola, à escola e da escola. As três são complementares, mas distintas. A escola também é violenta com os estudantes. Por exemplo, quando põe alguém anos numa carteira fazendo de conta que ele sabe ler e escrever e nem se preocupa em conversar! Mas a única manifestação que parece preocupar é quando esse mesmo menino, cansado e frustrado, chuta a carteira. Não vemos a violência da escola, que tem sido imensa. Felizmente, há também belíssimas experiências escolares nas redes públicas.

A universidade brasileira tem contribuído para a melhoria da qualidade da Educação Básica?
Branca Menos do que poderia. Eu não vejo outro jeito senão um diálogo cada vez mais franco e aberto entre a universidade e a escola pública. As boas universidades, pois hoje é necessário ressaltar isso. Há um grande contingente de pessoas que abraçam o Magistério como profissão, mas sai do Ensino Superior com formação precária. Eu aposto alto na formação continuada. Aliás, prefiro a expressão formação permanente. O diálogo da universidade com as escolas tem de ser aprofundado para alimentar a academia, que não pode ficar falando de si mesma. O alimento dela é a sociedade, mas ela precisa dar uma devolutiva. O diálogo alimenta os dois lados. Com base nele, podemos buscar soluções.

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CONTATO
Branca Jurema Ponce


BIBLIOGRAFIA
A Escola Tem Futuro? Das Promessas às Incertezas
, Rui Canário, 160 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 40 reais
Ideologia e Currículo, Michael W. Apple, 288 págs., Ed. Artmed, 57 reais
Políticas de Currículo em Mútiplos Contextos, Alice Casimiro Lopes e Elizabeth Macedo, 272 págs., Ed. Cortez, tel. (11) 3611-9616, 39 reais

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