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Um diário que marcou a história

Lançado há 70 anos, o relato pessoal de Anne Frank pode auxiliar a turma a produzir textos do gênero

POR:
Daniele Pechi, Beatriz Vichessi e Lucia de Menezes

Orelato pessoal mais poderoso sobre a realidade da Segunda Guerra Mundial foi escrito por uma garota alemã de origem judaica de apenas 13 anos. Anne Frank (1929-1945) admitia para si mesma que achava estranho fazer um diário: jamais havia escrito algo e tinha a impressão de que nada do que uma garota tão jovem escrevesse iria interessar para ela mesma ou outras pessoas. Ledo engano. Há 70 anos, seus relatos viraram livro, O Diário de Anne Frank, já traduzido para mais de 70 idiomas. "É um documento da experiência da guerra do ponto de vista de uma criança", fala Denise Guilherme, professora e consultora em projetos de leitura.

O diário mais famoso do mundo começou a ser escrito pouco antes de Anne, seus pais, sua irmã e outros judeus terem de se esconder em um anexo secreto junto ao escritório de Otto H. Frank, pai dela, em Amsterdã, em 1942, durante a ocupação nazista da Holanda, para onde haviam imigrado. Mesmo depois de ser levada a um um campo de concentração, Anne continuou relatando os horrores que vivenciava, suas angústias e seus sonhos. Otto foi o único da família a sobreviver ao holocausto e conseguiu acesso ao diário quando Anne já tinha morrido. Depois de muitos esforços e do corte de alguns trechos por iniciativa de Frank, o material foi publicado.

Os textos escritos por Anne podem ser inspiradores para quem quer desenvolver um trabalho de exploração do gênero relato pessoal, mesmo com turmas dos anos iniciais do Ensino Fundamental. "Embora esse diário tenha sido escrito em condições extremas, pode ser usado como referência para as crianças", diz Heloisa Amaral, curadora do Instituto Pró-Livro.

Vale apresentar a versão original do livro para os estudantes, selecionando trechos que sejam mais adequados à idade da turma. Escolha passagens que revelem com clareza características marcantes de relatos pessoais, como uso da primeira pessoa do singular (eu), narrações sobre o dia a dia, divagações, reflexões e diálogos do autor consigo mesmo (leia o quadro abaixo). Converse sobre eles com a classe, analisando o que faz desses trechos relatos pessoais.

Com tudo isso em mente, os alunos podem se aventurar a escrever os próprios relatos. Peça que cada um escolha o que quer relatar - um episódio vivenciado, por exemplo -, e incentive os estudantes a ir além da narração dos acontecimentos, explorando as marcas do gênero. "A turma terá de se preocupar mais com a seleção do que quer contar e como escrever isso, escolhendo as palavras e considerando seu universo. Pelo fato de o conteúdo já existir, ninguém tem de se preocupar em inventar nada", explica Denise.

Se necessário, leia outros trechos e analise coletivamente o material produzido. Seus alunos podem ter histórias incríveis para contar.

A ARTE DE ESCREVER PARA SI MESMO, UM POUCO SOBRE TUDO

"Quem sabe, talvez ele nem goste de mim e não precise de uma confidente. Talvez só pense em mim de um jeito comum. Vou ter de ficar sozinha de novo, sem ninguém em quem confiar e sem Peter, sem esperança, consolo ou qualquer outro objetivo. Ah, se a menos eu pudesse apoiar a cabeça em seu ombro e não me sentir tão desamparada, só e abandonada! Quem sabe, talvez ele não se importe comigo e veja todos os outros do mesmo jeito afetuoso. Talvez eu só tenha imaginado que comigo era uma coisa especial. Ah, Peter, se ao menos você pudesse me ouvir ou me ver. Se a verdade for frustrante, não poderei suportar."

Trecho de O Diário de Anne Frank

No trecho, a autora compartilha com o diário, como se ele fosse um amigo, seus sentimentos íntimos sobre Peter, rapaz por quem é apaixonada. Nas partes em destaque, Anne estabelece um diálogo consigo mesma.