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Reportagens | ENTREVISTA Avaliação | Reportagens


Por: NOVA ESCOLA e Beatriz Vichessi

Os perigos da reprovação

A cultura da punição ainda está arraigada, mas estudos contestam a eficácia da medida

ANTÔNIO AUGUSTO BATISTA

Responsável pela coordenação de desenvolvimento de pesquisas do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), em São Paulo

 

Por que a crença na reprovação é tão forte?

ANTÔNIO Uma das poucas evidências seguras reveladas em pesquisas educacionais é que a reprovação tem efeitos negativos na aprendizagem dos alunos e provoca mais reprovações. Os docentes seguem apegados à prática pela ideia de mérito, talento e dom. Para muitos, é justo reprovar quem não se encaixa nesse perfil. Mérito e esforço são importantes, mas sabemos que há estudantes que não alcançam o que se espera deles por causa de sua origem social. Sendo assim, o que os professores pensam e fazem está muito distante do que as evidências apontam.

Por que tantos professores ainda acreditam que a reprovação ajuda os alunos?

É comum a ideia de que quanto mais cedo um estudante for reprovado, melhor para ele mesmo. Nessa concepção, a reprovação tem efeito moral, seria importante para formar o caráter da turma. A prática funcionaria como um alerta e ao mesmo tempo como um castigo, que mostra ser preciso se esforçar mais. Isso ocorre não porque os professores são malvados, mas como resultado de uma formação deficitária, que não discute a questão com base em evidências científicas. Reprovar é encarado como um poder docente. Porém, quanto mais expostos a pesquisas sobre reprovação, menos professores acreditam que reprovar é eficaz para aprendizagem.

É possível avaliar os alunos além do tradicional esquema de provas e notas?

Sim. É responsabilidade pessoal e uma questão de ética do professor estar atento ao desenvolvimento de cada aluno no dia a dia, ainda que as avaliações externas pressionem todos a seguir no mesmo ritmo. O docente precisa se concentrar nos estudantes que ficam para trás, e não puni-los. Na prática, implica analisar as manifestações da turma, o que é conversado em sala, as interações, as perguntas feitas por cada aluno. O planejamento das aulas tem de levar em consideração tudo isso. Não adianta ficar somente de olho na nota das provas, em quem se saiu bem ou mal.

Como usar as provas a favor do ensino e da aprendizagem e evitar que ela seja vista pelos alunos como uma tortura?

A avaliação não pode mais ser encarada como algo que vai definir a vida de alguém. Seu verdadeiro papel é de diagnóstico do desenvolvimento do aluno. Ao analisar uma prova, o professor deve ir em busca de sinais, não simplesmente contar acertos e atribuir nota. Tem de refletir se as estratégias de ensino usadas por ele para trabalhar os conteúdos cobrados na prova funcionaram e analisar como os alunos manifestaram o que sabem e o que não sabem, entre outras questões. Com base nisso, o docente precisa revisar a própria prática e criar outras formas de intervenção. Hoje, a prova joga contra a Educação. É comum pensarmos que ela só manifesta o que os estudantes aprenderam e não aprenderam. Mas ela também é um diagnóstico do trabalho do professor.


Foto: Divulgação/CENPEC