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Sala de Aula | Educação Infantil | Sala de aula


Por: Lucas Magalhães, Beatriz Vichessi e Maggi Krause

O que observar ao avaliar os pequenos?

A questão, que gera polêmica, pode incentivar mudanças positivas nas rotinas da creche e da pré-escola

Uma grande questão assola as rotinas dos educadores que trabalham com crianças pequenas: como avaliar a Educação Infantil? As formas para definir quais práticas estão dando certo e qual a qualidade do trabalho pedagógico são dúvidas recorrentes. O principal motivo: não existe um instrumento nacional de avaliação instituído pelo Ministério da Educação (MEC). O que estava em curso - a Avaliação Nacional de Educação Infantil (Anei) - foi revogado. E, segundo fonte do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), não há movimento para retomada esse ano ou no próximo. Assim se descumpre mais uma parte do Plano Nacional de Educação (PNE), que determinou que a avaliação fosse criada até 2016.

"Acabávamos reproduzindo na escola o espaço reduzido que muitas das crianças têm em casa. Depois da avaliação, criamos salas ambiente de leitura, jogos e conhecimentos matemáticos, arte e música e brinquedoteca. Elas são usadas por uma hora ao dia por cada turma. Os menores, de 1 ano, ganharam um refeitório só para eles. Outro fruto da análise com indicadores de qualidade foi implementar a roda de projetos, que acontece duas vezes por ano. Atualmente, os professores socializam mais o que estão fazendo e trocam ideias."

ANA CAROLINA ANDRADE, professora da UME Irmã Maria Dolores, em Santos (SP)

Além desse ponto de estagnação, existem divergências entre especialistas da área: um grupo é favorável a avaliar o desempenho dos pequenos, o outro o desenvolvimento deles e um terceiro as condições de realização de trabalho nas escolas. "Não faz sentido avaliar desempenho nessa fase com um teste marcado para determinado dia. As crianças se desenvolvem em tempos e maneiras distintas", defende Rita Coelho, socióloga e membro do Movimento Interfóruns de Educação Infantil do Brasil (MIEIB) e da Rede Nacional Primeira Infância (RNPI). "Qualquer prova na Educação Infantil é um verdadeiro teatro", afirma Zilma de Oliveira, coordenadora do curso de especialização em gestão pedagógica e formação em Educação Infantil do Instituto Vera Cruz (ISE Vera Cruz), em São Paulo. A falta de equidade na oferta e os contextos locais em um país diverso como o Brasil também tornariam perversa uma avaliação externa, de acordo com Maria Thereza Marcílio, pedagoga, mestre em Educação e fundadora da Avante Educação e Mobilização Social. "Os resultados penalizariam os que mais precisam de ajuda para avançar", diz.

Mesmo com todos esses impasses, as escolas não podem ficar paradas. Somente avaliando o dia a dia dá para trazer à tona aspectos da realidade, qualificar o trabalho, administrar bem os recursos e cobrar da gestão pública melhorias com base em dados reais. O que fazer, então?

A prática da avaliação processual na Educação Infantil, por meio do olhar atento e bem formado do professor, documentado em relatórios e portfólios com trabalhos dos pequenos, é difundida faz tempo como a melhor forma de analisar o desenvolvimento da turma e o que cada um está aprendendo. "Não existe um modelo de relatório correto e é pobre qualquer documento que crave metas, estabelecendo que em determinada idade a criança tem de ser capaz de fazer isso ou aquilo. Precisamos apurar o olhar do professor para ele compreender o que acontece enquanto a turma brinca, interage com o ambiente e faz perguntas", explica Zilma. Em Salvador, Rita de Cássia Miranda, professora do CMEI Pio Bittencourt, sempre está com o celular em mãos para filmar e fotografar a rotina dos pequenos. Atenta a tudo e com o ambiente preparado para desafiar a turma, Rita também registra por escrito o que acontece. "Não basta documentar. É preciso pensar a respeito, estudar o que desencadeou o movimento de uma criança, por exemplo, sistematizar e recorrer ao material para planejar os próximos passos e fazer reuniões com a coordenação pedagógica", conta. Fotos e textos são organizados em álbuns de cada criança, entregues aos pais no fim do ano.

"Desde 2013, fazemos a autoavaliação usando os Indicadores da Qualidade na Educação Infantil Paulistana. Nosso olhar para as questões de gênero se mostrou equivocado: tínhamos áreas e brinquedos para menina e menino. Agora propomos o brincar para todos e estimulamos os meninos a cuidarem das bonecas. Percebemos também que alunos de outras origens não se sentiam parte da escola. Como temos afrodescendentes, bolivianos e até chineses, montamos caixas volantes com livros e materiais sobre cada cultura."

DEISE DOS SANTOS, professora do CEI Parque Santa Rita, na capital paulista

Em defesa da autoavaliação

Apesar da bem-sucedida estratégia da avaliação processual, avaliar de maneira pontual é preciso. Rita Coelho defende que a avaliação nacional verifique como recursos humanos e financeiros estão sendo aplicados e seus resultados. "Sem conhecer os dados, alimentamos estereótipos", diz ela. Claudia Bandeira, assessora de Educação Infantil da Ação Educativa, também defende que sejam avaliadas as condições de oferta e realização do trabalho. "O desenvolvimento da criança está intimamente ligado a isso", diz. Para ela, a avaliação ideal tem base nos parâmetros nacionais de qualidade e ajuda a investigar a situação da infraestrutura, quadro de pessoal, gestão, recursos pedagógicos e acessibilidade, entre outros indicadores. "Exatamente como consta no PNE", explica.

Por enquanto, o instrumento mais indicado para fazer a avaliação da creche e da pré-escola consta em um documento do MEC com quase dez anos de vida: os Indicadores de Qualidade na Educação Infantil. É uma proposta de autoavaliação. A participação do professor nesse processo reflexivo é essencial. Até pelo contato estreito com a turma e por ser a pessoa que pode sanar as dúvidas dos pais. Se a escola promover uma escuta cuidadosa, pode colher sugestões de familiares das crianças e dos funcionários. "A gestão precisa se organizar, convidar os pais e investir tempo: no mínimo quatro horas de debate para responder a todos os indicadores", conta Ana Paula Delaporta, diretora da UME Irmã Maria Dolores, em Santos.

"Em 2016, fizemos reuniões com a comunidade escolar para analisar diversos pontos e elaborar planos de ação. Resolvemos incorporar questões de raça e etnia à rotina com as crianças, pois muitas não lidavam bem consigo mesmas. Em oficinas com as famílias, confeccionamos bonecas negras e hoje falamos sobre essa herança, tão presente na Bahia. Também ficou evidente a necessidade de tornar as áreas livres aprazíveis para interações. Reformamos um quintal que agora tem piso antiderrapante, gramado e plantas. Virou nosso solário."

NECYJANE OLIVEIRA E MAGDA MARQUES, professoras do CMEI Pio Bittencourt, em Salvador

Além da rede santista, outras lançam mão dos indicadores do MEC para fazer a avaliação das escolas, a exemplo de São Paulo e Salvador (leia os depoimentos de educadoras ao longo da matéria). As três redes investiram em personalizar os itens do documento à realidade local e trabalham de forma parecida, ou seja, mobilizam a comunidade escolar e formam grupos de trabalho para analisar os indicadores, atribuindo cores:

  • Verde - as experiências ou situações estão consolidadas na escola. O processo de melhoria da qualidade está num bom caminho.
  • Amarela - as experiências ou situações ocorrem de vez em quando. É preciso cuidado e atenção.
  • Vermelha - as experiências ou situações não existem. A situação é considerada grave e merece providências imediatas.

Depois de socializar os resultados, se faz um plano de ação, indicando o que compete à escola. "Os indicadores alertam para alguns pontos. O plano de ação é vivo, consultado também pelos professores para planejar aulas", conta Regina Célia Perpétuo, diretora do CEI Parque Santa Rita.

Na capital baiana, a autoavaliação fica online, à disposição da escola e da secretaria municipal de Educação. "No início, é fácil achar que tudo está perfeito, mas, conversando, fica claro que é possível rever ações e melhorar", conta Consuelo Almeida, diretora da Pio Bittencourt.


Créditos das fotos (de cima para baixo): Luis Eduardo Saldanha, Fernando Gazinhato e Fernando Vivas.