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Uma fogueira me fez repensar os cadernos

Presenciar a queima dos cadernos me fez pensar que as anotações devem fazer sentido para os estudantes.

POR:
NOVA ESCOLA
FELIPE BANDONI,

FELIPE BANDONI,
professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo

Em dezembro passado, enquanto eu corrigia em casa as produções dos alunos e me preparava para o conselho de classe, percebi uma agitação diferente na minha rua. Era um grupo de adolescentes de 13 ou 14 anos, todos com o uniforme de uma escola próxima, em volta de uma pequena fogueira. As aulas tinham acabado e eles estavam queimando seus cadernos.

Fiquei na janela observando, tentando entender a razão daquilo. Seria simplesmente um ato de rebeldia, típico da adolescência? Pensei na fogueira como uma espécie de comemoração ou até uma forma de se vingar da escola. Durante todo o ano, os alunos se sentiram tão presos àqueles cadernos que, assim que terminaram as aulas, incendiaram o fardo e deram um grito de liberdade.

Ou seria apenas um rito de passagem, uma marca de que tinham sido aprovados? Não, eles não jogaram os materiais no lixo ou mandaram para a reciclagem, mas atearam fogo aos papéis, e fizeram isso juntos. Queimar tem o sentido de eliminar, de transformar algo em cinzas e fumaça. As anotações seriam entediantes ou inúteis, na opinião deles? O ato poderia simbolizar o que eles têm vontade de fazer com a escola, com os professores e com os conteúdos? Todas essas dúvidas cruzaram minha mente, e foi inevitável imaginar que meus alunos pudessem fazer o mesmo. Que motivos teriam para queimar seus cadernos?

Por outro lado, também matutei sobre o que faz alguém guardar o material, às vezes por décadas. No passado, o professor era uma das poucas fontes de informação. Sem registrar o que ele dizia ou escrevia na lousa, talvez o estudante não tivesse outra maneira de resgatar aquele conhecimento. Isso mudou bastante, mas noto que em vários momentos nós continuamos pedindo que anotem informações factuais, hoje acessíveis e até melhor organizadas na internet. Faz sentido anotar o nome do líquido produzido no estômago? O ano em que aconteceu a Revolução Francesa? Os alunos vão consultar esses apontamentos em outro momento do curso, ou fora dele?

O caderno é o registro do percurso individual de cada aprendiz ao longo do ano. Ele mostra a sua organização - ou a falta dela -, o aumento da complexidade das resoluções, a mudança na maneira de se expressar e nas opiniões... enfim, como ele ou ela adquiriu conhecimento. Em muitas atividades, peço que os alunos anotem o que pensam de uma situação. Após o estudo, falo para reler o comentário e reescrever sua opinião.

Presenciar a queima dos cadernos me fez pensar que as anotações devem fazer sentido para os estudantes. Como professor, eu gostaria que elas incorporassem cada vez mais a individualidade dos alunos e alunas, tornando-se uma representação muito clara do caminho intelectual de cada um. Quero que eles percebam a própria evolução nesses registros e, quem sabe, sintam que vale a pena guardá-los.


Ilustração: Adriana Komura