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Não fuja da sarna – ensine o aluno a se coçar

Fomos educados a evitar discussões acirradas. Resultado? Pouca gente sabe argumentar e debater

POR:
Leandro Beguoci
Leandro Begouci,

Leandro Begouci,
Diretor editorial e de produtos

Há duas certezas nesta vida - todos nascemos e todos vamos morrer. Em 2017, eu colocaria uma terceira, caso você esteja conectado à internet: todos vamos nos irritar com um texto, imagem ou áudio recebido pelo Facebook ou pelo WhatsApp. Todos nascemos, vamos morrer e boa parte da humanidade vai ter um ataque de raiva digital. Não há muito o que fazer. Ou, na linguagem de vários dos alunos:  \_()_/

Muitos de nós fomos educados a não discutir política, esporte e religião. Uma quantidade considerável de pessoas foi ensinada a não debater, ponto final. Ou, como dizem lá em Caieiras, a minha cidade: não procure sarna para se coçar.

O ponto é que, hoje, não há escapatória. As redes sociais são um convite incontrolável ao debate acalorado. Todo mundo quer ter uma sarninha aqui, problematizar ali, coçar acolá e (supostamente) calar a boca dos outros na primeira oportunidade. Como a indiferença não é uma opção, só cabe aos educadores uma tarefa: ensinar a debater e a argumentar. No atual estágio do mundo, uma posição razoável, bem construída, faz uma diferença enorme. Quando as palavras voam tão rápido, como hoje, é preciso escolher muito bem como as usamos. Elas podem abrir um caminho ou provocar uma avalanche que destrói todas as pontes, todas as possibilidades de diálogo.

Por isso, esta edição é praticamente metalinguística: um debate sobre a arte de debater. Para dar conta desse desafio, apresentamos ideias, sugestões e provocações par levar os alunos mais longe na saudável e necessária arte de se posicionar. Foi um texto construído vigorosamente pela equipe de NOVA ESCOLA. E, na prática, influenciou todo o conjunto da edição.

Duvida? Explicamos o que é apropriação cultural e por que o assunto cresceu tanto nos últimos meses. Falamos da epidemia de Aids entre jovens e adolescentes. Algumas vezes, especialmente no final das tardes, a equipe se inflamava - estamos falando disso? Por que esse destaque? É sério que esquecemos aquilo? No começo, eu observava esse movimento meio ressabiado - afinal, prezo pela saúde emocional do nosso time, não queria que as falas acaloradas descambassem. Felizmente, os debates não saíram do controle. Se a equipe de NOVA ESCOLA fosse, digamos assim, a 5ªD, daria para dizer que a turma tirou uma bela nota. Aprendeu muito sobre argumentar enquanto preparava materiais para ajudar você a ensinar.

Este foi um dos maiores ensinamentos que eu tive neste mês: quando a turma está focada, tem método de trabalho e sabe o que quer, vai muito longe, muito rápido, não importa quanto discordem entre si. Por isso, espero que não apenas os textos desta edição sejam inspiradores. Quero que você seja contagiado com a energia que impulsionou esta revista que preparamos.

Críticas? Algum ponto? Discorda? Me escreva no leandro@novaescola.org.br. Quem sabe a gente não publica um texto seu em NOVA ESCOLA? Se ele estiver bem argumentado...


Ilustração: Adriana Komura