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Da primeira capa à edição 300

O "moleque de rua" que virou aluno hoje vende balas no porto. O que a trajetória de Adonilson conta sobre a Educação brasileira

POR:
Wellington Soares, Paula Peres, Patrick Cassimiro e Ana Célia Ossame
Crédito: Michael Dantas

Adonilson abre um sorriso tímido quando encara a primeira edição de NOVA ESCOLA. Mostra para os filhos e para a mulher, depois aos vizinhos e a todos os amigos que encontra durante o dia em que o acompanhamos pelas ruas de Manaus. Pelo caminho, vai se apresentando como "menino da capa".

Menino ele não é mais. Hoje com 41 anos, Adonilson Moraes da Rocha tinha 10 quando chegamos pela primeira vez às bancas. Ilustrava uma notícia boa: O Milagre da Multiplicação de Vagas. Era o período da redemocratização e o grande desafio era garantir a escola para todos. Redes espalhadas pelo Brasil tentavam expandir a oferta de ensino para crianças e jovens. Manaus, cidade de Adonilson, ergueu barracas na rua para servir de sala de aula.

A tenda da Praça Heliodoro Balbi dava uma mostra do grau de improviso da iniciativa. Nela, o menino e seus colegas passavam até dez horas por dia. Cinco estudavam e o restante... Limpava canteiros e calçadas. Na tenda da Praça da Matriz, Delciene dos Santos, então com 8 anos, reclamava dos alto-falantes das lojas e do olhar indiscreto dos transeuntes (tenda não tem parede). A reportagem da época minimiza o desconforto. "De vassoura em punho, ela [Delciene] termina concluindo que esses incômodos não importam muito e acha o projeto muito bom."

Alternativas que hoje seriam execradas - com inegável razão - foram saudadas por nossa revista como "arrojadas e inventivas" na época. Mudou NOVA ESCOLA, mudou o Brasil ou mudou a Educação? Felizmente, todos mudaram, pelo menos um pouco, e para melhor. Mas a história cobrou o preço de quem ficou pelo caminho. Adonilson largou os estudos meses depois da reportagem. Hoje, ganha a vida vendendo balas, trufas, relógios e óculos no porto de Careiro da Várzea, às margens do Rio Negro. Seus filhos, porém, ainda estudam. Num certo sentido, a história de sua família é um resumo dos sucessos e limites do colossal desafio de fazer Educação no Brasil.

A foto de 1986 mostra a tenda improvisada em que Adonilson estudava
Crédito: João Luis Neto

Os elogios exagerados na edição número 1 traduziam a esperança de um futuro melhor para aqueles que, como Adonilson, estavam fora da escola. Era essa a situação de 5 milhões de crianças entre 7 e 14 anos nos anos 1980. "De 1982 a 1988, batíamos muito na tecla do acesso aos bens básicos, entre eles a Educação. Havia um grande fosso entre a população escolarizável e a oferta disponível", diz Carlos Roberto Jamil Cury, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em políticas públicas. "Estávamos começando a tratar a Educação como direito universal, e percebendo, nessa discussão, que não havia espaço para todos", completa Maria do Pilar Lacerda, diretora da Fundação SM e ex-secretária nacional da Educação Básica.

Nesse contexto de desespero, surgiam soluções voluntaristas como as salas-barracas. "Tínhamos que encontrar uma fórmula para atender às centenas de crianças e adolescentes que viviam nas ruas de Manaus. Não havia vagas disponíveis na rede, nem recursos para fazer escolas", explica hoje a professora Nízia Liberato, ex-secretária municipal de Educação e responsável pela implantação do projeto. Inicialmente, foram criadas seis tendas em cinco praças, atendendo a 300 crianças. Cada barraca se ocupava de 50 delas, 25 das quais estudavam no período da manhã e 25 à tarde. Havia três refeições e uma ajuda de custo para que as crianças fossem mantidas no projeto. No contraturno, os alunos faziam trabalhos de limpeza das praças e cuidavam também do horto municipal.

Aos olhos de 1986, as justificativas para fazer com que as crianças trabalhassem pareciam aceitáveis, quase louváveis. "Havia uma crença da época de que as crianças pobres precisavam de uma contrapartida, no caso o trabalho, para merecer estar na escola", diz Heloisa Oliveira, administra-dora executiva da Fundação Abrinq. Novamente, a reportagem de NOVA ESCOLA é representante desse olhar superado. Sobre a vida de Adonilson na escola improvisada, afirmávamos: "Ele encontrou, através desse projeto, tudo o que não tinha: aulas, comida e uma ocupação que o retirou das portas de supermercado, onde pedia comida". Um dos professores diz: "O importante é que essas crianças não precisam mais roubar para comer. Nas barracas elas encontram amizade e proteção". Vozes discordantes indicavam que havia algo de errado. "Antes, a criança rica estudava em escola particular e a pobre em escola pública. Agora, a prefeitura criou mais uma divisão: as mais pobres vão para o Projeto Meu Filho", afirmou Públio Caio Bessa, presidente da Associação Profissional dos Professores do Amazonas. Para a revista, a fala representava uma "incompreensão" da iniciativa da administração manauara.

O filho Anílson, 19, vai se formar no Ensino Médio e quer seguir estudando. O pai apoia
Crédito: Michael Dantas

A trajetória de Adonilson entre a primeira edição e esta que você lê agora conta uma história diferente da que esperávamos em 1986. O rapaz abandonou os estudos mal sabendo ler e escrever. Atualmente, mora num apartamento de dois cômodos na periferia de Manaus. Na sala, beliches dividem espaço com o fogão. Ali, ele se acomoda com sua esposa, Ednalva Rodrigues Duarte, e cinco filhos. O mais velho tem 21 anos e o mais novo 11. Não há mesa, cadeiras e geladeira.

Ver Adonilson sorrir espontaneamente é raro. Ele diz ter motivos para isso: viveu dias terríveis nas ruas de Manaus, mesmo quando já tinha família estabelecida, por ser usuário de drogas. Afirma não se lembrar bem do projeto, porque, na época, usava drogas diariamente e abandonou as aulas poucos meses depois de ter sido fotografado. "Eu vivia cheirando cola e roubando para comprar mais", conta. Do que se lembra: das refeições diárias que eram garantidas na tenda.

Sobre a reportagem de capa, diz se recordar apenas do sucesso que fez sua foto, mas não sabe do destino de nenhum de seus colegas. "Acho que poucos escaparam da morte, como eu", explica. "Não fiquei muito tempo nele porque gostava de rua, vivia doido pelas drogas, tanto que roubava para comprar", afirmou ele, que foi preso várias vezes e recolhido ao Instituto Melo Matos, destinado a abrigar crianças e adolescentes envolvidos em atos infracionais. "Mas era só sair de lá, voltava para cheirar cola. Não gostava de ficar em casa." O Projeto Meu Filho também teve vida curta. Suas atividades encerraram-se ainda em 1986, ano de lançamento da revista.

A família toda se envolve no comércio de trufas, principal fonte de renda
Crédito: Antonio Lima

Um presente menos duro

Os direitos das crianças começaram a ficar mais claros com a Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990, quando o trabalho infantil (feito por pessoas de até 14 anos de idade) passou a ser considerado crime. Soluções improvisadas como a adotada por Manaus 31 anos atrás começaram a desaparecer em 1996 com o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental (Fundef). Dez anos depois, tornou-se o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), que contemplou as etapas da Educação Infantil e do Ensino Médio no repasse de verbas. "Esses dois mecanismos reforçaram o envio de recursos da União para estados e municípios, para colaborar na obrigatoriedade de investimentos determinada na Constituição", explica Heloisa.

O resultado desse conjunto de políticas se refletiu no histórico escolar dos filhos de Adonilson. Quatro dos cinco seguem estudando (só o mais velho largou antes de completar o Ensino Médio). Anílson Duarte da Rocha, 19, se forma secundarista neste ano e tem planos para o futuro. "Não tenho ainda certo o curso que vou seguir, mas pretendo fazer nem que seja um curso profissionalizante", conta, entusiasmado, o rapaz. Ele ajuda Adonilson na venda das trufas, assim como um de seus irmãos e sua mãe. Um outro fator ajuda a garantir a permanência das crianças na escola: a família recebe, no nome de Ednalva, um valor do Programa Bolsa Família, cuja contrapartida é mantê-los estudando.

O filho mais novo, Alexandre, 11 anos, vai repetir o 5° ano em 2017. "Me esforcei para comprar os cadernos dele, espero que ele reconheça isso e se esforce para ser aprovado." O menino diz ter sido um "acidente" a reprovação ano passado e, agora, promete esforço dobrado. "Eu sei que meu pai se preocupa comigo, por isso briga muito, quer que eu tenha um futuro melhor que o dele", justifica o pré-adolescente, que vai à escola pela manhã, faz suas lições de casa em locais improvisados da casa e sonha em ser médico. "Sei que é difícil, mas vou me dedicar."

Adonilson garante ser bom nas contas, pois precisa de cálculos matemáticos para dar o troco e jogar dominó, seu passatempo preferido. Mas tem na ponta da língua uma justificativa para não sentir falta dos estudos. "Não preciso disso para vender em qualquer lugar que eu quiser. Mesmo que não ganhe muito, dá para pagar o aluguel e sustentar a família", afirma. Sua postura muda quando o que está em jogo é o estudo dos filhos. "Não deu para mim, pode dar para eles."

 

A vida de Alexander, o filho mais novo, pode ser diferente por causa da escola

Crédito: Antonio Lima

Implacável com os erros do passado

Avaliando o impacto do projeto de 1986, Nízia, a secretária de Educação de Manaus à época, garante que foi possível reinserir muitas crianças e adolescentes na rede regular. Mas ela não guarda números. Nem mesmo a Secretaria Municipal de Educação (Semed) de Manaus tem registros de quantas crianças se matricularam nas escolas regulares por causa do projeto. Já Ana Célia Ossame, jornalista que participou da reportagem da edição número 1 e fez parte desta também - foi ela quem reencontrou Adonilson -, reconhece a precariedade da iniciativa, mas afirma que a gravidade da situação justificava a medida extrema. "Me pareceu uma alternativa para ajudar aquelas meninas e aqueles meninos que viviam na rua. Eles precisavam de algum apoio. Não nego a possibilidade de que o projeto tenha mostrado a algumas crianças que era possivel sair daquela vida. Adonilson pode ser um deles."

Para mudar a realidade, ainda falta muito. Segue o drama do acesso. Hoje, há 2,8 milhões de crianças e jovens de 4 a 17 anos fora da escola, número elevado principalmente porque se ampliou o número de anos em que é obrigatório estar matriculado. Além disso, falta o salto - sempre adiado - da qualidade. "A escola está organizada de forma muito anacrônica, dialoga cada vez menos com novas gerações", alerta Pilar. "Precisamos melhorar a formação inicial dos professores. Não temos como melhorar o ensino com uma qualificação deficiente", defende Jamil Cury. Tudo isso custa dinheiro. "Não se pode fazer uma reforma no ensino sem que o investimento aumente. Precisamos, ao mesmo tempo, aplicar melhor os recursos que temos e aumentá-los se quisermos universalização com qualidade", diz o especialista.

Nesse caminho, uma atitude indispensável é ser implacável com os erros do passado. Não dá para pensar em caminhos que marginalizem uma parte da população - quase sempre a mais carente, como fez Manaus 31 anos atrás. Nem naturalizar o discurso da diferença ("para pobre, qualquer coisa é melhor que nada"), como NOVA ESCOLA fez em sua edição número 1. Mesmo sem abrir o sorriso fácil de 1986, o Adonilson de 2017 encara com seriedade a escolarização dos filhos. "Tenho que conseguir fazer com que algum deles tenha um futuro melhor", aposta. "E isso só pode acontecer se eles estudarem."