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Gênero: a turma quer e precisa debater

Felipe Bandoni fala sobre o dia a dia do professor

POR:
NOVA ESCOLA
FELIPE BANDONI ,

FELIPE BANDONI ,
é professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo

Talvez você já tenha passado por algo parecido: o professor se prepara para tratar de reprodução, métodos contraceptivos e doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Só que a turma quer falar sobre machismo, aborto, homossexualidade, papéis sociais de mulheres e homens... Dá para perceber que as dúvidas sobre sexualidade e gênero costumam ser muito maiores do que as poucas aulas de Ciências reservadas para explicar o sistema reprodutivo do ponto de vista biológico.

Sei que o tema é difícil e polêmico. Toca em muitas vergonhas, preconceitos e desinformações. Quando meus colegas e eu notamos que o interesse dos estudantes era grande, nos reunimos para organizar um projeto interdisciplinar para as turmas de EJA. Estávamos receosos porque a temática é ampla e suscita muita divergência, o que gerou dúvidas sobre como abordar os assuntos. De um lado, buscamos evitar a todo custo a imposição de opiniões, de outro, sabíamos que era preciso ir além da superficialidade. Afinal, o objetivo era levar os alunos a compreender os argumentos por trás das polêmicas.

O tema toca em vergonhas e em preconceitos. Mas está entre os mais importantes a ser discutidos com as turmas.

O projeto envolvia o trabalho em grupo sobre subtemas como machismo, homofobia, aborto, gravidez na adolescência e assédio sexual. Decidimos montar os grupos juntando alunos que sabíamos que iam divergir. Os estudantes pesquisaram informações e imagens e apresentaram seminários para outras turmas, abrindo para um debate em seguida. Isso, é claro, levou ao conflito. Um homem argumentou que por vezes é preciso um "corretivo", e que isso não chegava a ser uma violência doméstica, e na hora foi contestado pelas mulheres. Já na discussão sobre prostituição, algumas alunas disseram que era uma sem-vergonhice, mas foram rebatidas por colegas com dados que mostravam que a maioria das prostitutas é pobre e vai empurrada pela necessidade.

Tentamos deixar que todos os estudantes expusessem seus pontos de vista e suas dúvidas, e também estimulamos a busca de informações em pesquisas, estatísticas, depoimentos de especialistas ou de pessoas que viveram a questão. O objetivo não era que eles mudassem de opinião, mas que aprendessem a se distanciar dela, ainda que por poucos momentos, para tomar contato com o que o colega tinha a dizer. Foi impressionante o ganho dos estudantes na habilidade de ouvir e analisar algo com que não concordavam, além de avançarem nos procedimentos de pesquisa e de organização da fala.

A iniciativa foi elogiada pelos próprios alunos e repetida com outras turmas. Os resultados me convenceram de que gênero e sexualidade estão entre os temas mais importantes a ser discutidos na escola de hoje. O maior destaque do trabalho, reconhecido tanto por professores como por alunos, está no desenvolvimento da tolerância em ouvir o outro. Essa escuta é algo cada vez mais raro, e, por isso mesmo, vale tanto a pena estimulá-la.

 


Ilustração: Adriana Komura