Reportagens | Pisa | Reportagens

Para aprender com nossos vizinhos

Especialistas apontam iniciativas bem-sucedidas de Chile, Colômbia e Peru na corrida contra o atraso na Educação

POR:
André Bernardo, Alice Vasconcellos e Maggi Krause

Basta começar a ler de trás para a frente o ranking de 70 países da última edição do Programa Nacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês) para achar o Brasil entre os dez piores. Uma freada na aprendizagem em Ciências, Matemárica e Leitura se escancara nos resultados do Pisa de 2015, que conferiu os conhecimentos de 540 mil jovens de 15 anos. Na lista também se nota que, nos últimos anos, alguns países da América Latina agiram com eficiência para sair de patamares mais baixos do que o nosso. Foi o caso da Colômbia e do Peru, com aumento vertiginoso nas notas. Entre 2006 e 2015, em terras colombianas, elas subiram 28 pontos em Ciências, 40 em Leitura e 20 em Matemática. Já no Peru, de 2000 a 2015, aumentaram 64 pontos em Ciências, 71 em Leitura e 95 em Matemática! Vale dizer que a pontuação dos peruanos (387) nessa disciplina supera a do Brasil, mas nem chega perto dos 490 de média dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), responsável pelo Pisa.

POSIÇÕES NO PISA 2015

 

Ciências

Chile 44o

Colômbia 57o

Brasil 63o

Peru 64o

 

Matemática

Chile 48o

Colômbia 61o

Peru 62o

Brasil 66o

 

Leitura

Chile 42o

Colômbia 54o

Brasil 59o

Peru 63o

Para Denise Vaillant, pesquisadora do Instituto de Educação da Universidade ORT Uruguai, não existe receita para sair da "lanterna" desse ranking. "Mas há ingredientes que não podem faltar, como avaliação de aprendizagem, reforma curricular, materiais didáticos e plano de carreira docente." Pelo menos alguns desses itens estão no foco dos países destacados pelos especialistas: a Colômbia e o Peru, pelos maiores avanços, e o Chile, que se mantém líder entre os latino-americanos. "Assim como o Chile, o Brasil deveria terminar a concepção da Base Nacional Comum Curricular, centrada em competências, mas com definição clara de expectativas de aprendizagem", afirma Cláudia Costin, docente visitante da Universidade Harvard e ex-diretora de Educação do Banco Mundial. Entre outras metas, o Ministério da Educação chileno trabalha para combater desigualdades sociais e revalorizar a carreira docente. "Os jovens precisam se sentir atraídos pelo ofício de educador. Torná-lo mais atraente deve ser prioridade", diz Denise.

Para Andreas Schleicher, diretor de Educação da OCDE, "os professores precisam ter o apoio necessário para ensinar com eficácia. Nessa área, o Peru tem sido bem-sucedido", destaca. Enquanto na média dos países da OCDE há 13 alunos para cada docente, no Peru são 18 e no Brasil 29 estudantes por professor. Dinheiro importa, claro, mas não é tudo. Aqui, o custo por aluno acumulado entre as idades de 6 e 15 anos é de 38,1 mil dólares, menos da metade da média dos países da OCDE (90 mil dólares). Por outro lado, com módicos 24,4 mil dólares, a Colômbia opta por priorizar a educação pré-escolar, ensinar menos coisas, mas em profundidade, e incorporar ao currículo habilidades como criatividade, autonomia e colaboração.

Isso não significa que o Brasil está fazendo tudo errado. Diretora-geral do Instituto Colombiano para a Avaliação da Educação (ICFES, sigla em espanhol), Ximena Dueñas Herrera destaca que o país ainda é referência na América Latina. Prova disso é o conceito de Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), exportado para diversos países - como a Colômbia. "O mundo é um laboratório onde podemos observar as mais diferentes iniciativas e avaliar seus efeitos. Vale compreender os contextos, adaptá-los à realidade e ter paciência até os primeiros resultados", diz ela.

 

CHILE

Reformas constantes e olhar cuidadoso para a primeira infância

 

 

Chilenos querem criar mais de 100 mil vagas na Educação Infantil

Foto: MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO DO CHILE/DIVULGAÇÃO

"O investimento por aluno no Chile é o maior da América Latina. Para distribuir recursos com critérios transparentes, levantam os custos de cada escola e medem seus resultados por meio de avaliações de aprendizagem. Nas reformas, o sindicato dos professores tem participação importante."

Denise Vaillant, pesquisadora do Instituto de Educação da Universidade ORT Uruguai

 

Com o objetivo de se aproximar das médias da OCDE e há anos líder da América Latina no ranking, o país destina para a área a terceira maior fatia de investimentos entre os participantes do Pisa (14,9% de seus recursos públicos, cerca de 3,7% de seu PIB). "A adoção de um currículo nacional e a preocupação com a formação de professores faz a diferença nos resultados", observa Cláudia Costin. O sistema de avaliação de desempenho Docente Más conta com especialistas dando feedback sobre aulas gravadas em vídeo. Professores avaliados com os conceitos "básico" ou "insatisfatório" entram em um plano de qualificação, com reforço da formação em serviço. Se não evoluem, podem ser demitidos. A jornada integral para os estudantes, apontada como impulso da aprendizagem, desde 2009 atinge 85% das escolas. Na recente reforma educacional, um dos destaques é a Nova Lei da Carreira Docente, que propõe, em 2017, piso de 3.900 reais mensais para 37 horas e de 4.400 reais para 44 horas. Os professores em exercício ganharão aumentos de 30%, em média, e mais tempo para cumprir atividades extra-aula. Ciente da diferença positiva proporcionada por uma boa Educação Infantil, o governo aposta em creches e jardins de infância, prometendo criar 100 mil novas vagas até 2018.

 

 

COLÔMBIA

Famoso por incentivar a leitura, país está entre os que mais avançaram

 

 

Impulso aos livros: desde 2014, 22 milhões de exemplares para as bibliotecas

Foto: MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO DA COLÔMBIA/DIVULGAÇÃO

"Se o país mantiver esse ritmo de crescimento, os colombianos nascidos hoje terão chances reais de igualar seu desempenho escolar com os estudantes de países desenvolvidos até 2030, ano em que a ONU espera assegurar uma Educação inclusiva, equitativa e de qualidade para todos."

Andreas Schleicher, diretor de Educação da OCDE e coordenador das provas do Pisa

 

Em 2014, quando foi reeleito presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos anunciou uma meta para lá de ambiciosa na Educação: dentro de dez anos, seu país seria o mais bem colocado da América Latina nos rankings internacionais. Para cumprir o objetivo, Santos investiu na compra de 37 milhões de livros didáticos e 22 milhões de exemplares para as bibliotecas públicas, aparelhou escolas e faculdades com 2 milhões de computadores, desenvolveu programas educativos como o Todos a Aprender e prometeu prêmios e benefícios para docentes e instituições de ensino. Mas os resultados da Colômbia nas últimas edições do Pisa, recheados de avanços significativos até mesmo em Ciências, vêm sendo semeados há mais tempo. Em uma década, as matrículas na Educação Infantil e no ensino superior mais do que duplicaram e os estudantes ficam em média dois anos a mais na escola. O sucesso está em aumentar o acesso e elevar a qualidade da aprendizagem ao mesmo tempo. Muito disso é creditado ao estímulo à leitura no país. Sua capital, Bogotá, foi a primeira da América Latina a receber o título de Capital Mundial do Livro, em 2007. No Centro Formativo de Antioquia (Cefa), em Medellín, por exemplo, as alunas que mais pegam livros na biblioteca são premiadas.

 

PERU

Bolsas para atrair os melhores candidatos ao magistério

 

Foco é atrair e manter os melhores alunos nas carreiras do magistério
Foto: MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO DO PERU/DIVULGAÇÃO

"Além do elevado crescimento econômico, um projeto nacional de Educação, que é base do projeto de nação, e a estabilidade na política educacional se refletem na melhoria importante no Pisa."

Cláudia Costin, ex-diretora global de Educação do Banco Mundial

 

Nem a queda do ministro da Educação Jaime Saavedra por denúncia de corrupção abalou a continuidade das políticas na área. Para substituí-lo, o recém-eleito presidente Pedro Pablo Kuczynski escolheu uma educadora diplomada em Harvard que já ocupou vários cargos no ministério. Em janeiro desse ano, Marilú Martens aprovou o aumento do piso dos professores (do equivalente a 1.490 reais para 1.700 reais). "A Lei da Reforma do Magistério, criada em 2012, busca atrair e reter os melhores na rede pública", explica Humberto Perez Leon Ibanez, chefe do Gabinete de Medição da Qualidade da Aprendizagem. Para qualificar candidatos, as bolsas Vocación de Maestro colocam nas melhores universidades os jovens com alto desempenho escolar. Quem já leciona passa por avaliações docentes, com direito a bônus. Mas há outros tipos de incentivo. Só filhos de professores da rede pública, por exemplo, podem pleitear a Beca Hijos, uma das 500 bolsas de estudo anuais em nível superior. Avaliações externas checam a aprendizagem de alunos em idade de alfabetização e, nos últimos seis anos, cresceram em 80% os investimentos por estudante da Secundária (nosso Ensino Médio). Os esforços compensaram: nenhum país elevou tanto suas notas entre 2000 e 2015.