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E se o protesto virar aula?

As ocupações das escolas em 2016 podem abrir caminho para ensinar sobre o papel dos jovens em outros momentos da história

POR:
Wellington Soares, Monise Cardoso e Lucas Freire

Estudantes paulistas protestam contra medidas anunciadas pelo governo federal

Foto: MARLENE BERGAMO/FOLHAPRESS

Ocupações e protestos estudantis foram recorrentes nos últimos dois anos. Enquanto parte da sociedade criticou a mobilização, outra a ovacionou. Muitos chegaram a definir a movimentação dos jovens de Ensino Médio como um episódio único na história do país. Será?

Na verdade, a participação da juventude foi importante em diversos momentos (veja linha do tempo abaixo) e o período após as manifestações é ideal para apresentá-los. "O professor tem abertura para discutir temas que, em outra ocasião, poderiam ser maçantes. E cumpre a missão de falar sobre assuntos duros para o país, como a ditadura militar", conta Gislene Lacerda, professora da Universidade Nove de Julho (Uninove), em São Paulo, que estudou no doutorado os movimentos estudantis.

A proposta de aula pode se basear no estabelecimento de paralelos entre esses dois períodos. Para os alunos que participaram ativamente nos últimos anos, a própria memória serve como fonte. Bons complementos são o livro Escolas de Luta, de Antonia Campos, Jonas Medeiros, Márcio Ribeiro, as publicações da página de Facebook O Mal Educado e o manual elaborado pelos estudantes estrangeiros que inspiraram as ocupações no Brasil. Depois, eles devem se dedicar a conhecer o passado do movimento.

 

JOVENS NA RUA

As principais mobilizações

1938
Em novembro, é fundada a União Nacional dos Estudantes (UNE)
1942
Jovens exigem a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial em favor dos países aliados
1964
Meses após o golpe, a Lei Suplicy de Lacerda criminaliza os movimentos estudantis
1968
Após o assassinato do jovem Edson Luís, de 18 anos, durante um protesto, manifestações contra o governo se espalharam pelo país. A maior delas, em novembro, reuniu mais de 100 mil pessoas nas ruas do Rio de Janeiro. 
Foto: VLADIMIR PALMEIRA. ARQUIVO/AGÊNCIA O GLOBO.
1984
Secundaristas integram a frente da campanha pelas Diretas Já!
1985
É instituída a Lei do Grêmio Livre
1992
Durante as manifestações que exigiram a saída do presidente Fernando Collor do poder, os estudantes, já reunidos pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), foram às ruas com as caras pintadas.
Foto: FOLHAPRESS/OR UZD ALVES (BANDEIRA UBES)
2015
Estudantes paulistas barram reorganização proposta pelo governo estadual
2016
Estudantes ocupam a Assembleia Legislativa de São Paulo para exigir a abertura de uma CPI para investigar desvios na verba das merendas
2016
Mais de 1.100 unidades de Ensino Médio e Superior são ocupadas contra medidas do governo federal.

 

Da fundação às ocupações

As primeiras organizações estudantis surgiram na década de 1930. Desde então, os jovens participaram tanto em reivindicações sobre o cotidiano deles próprios quanto em questões relativas à política nacional. Dois exemplos: a Revolta do Bonde, série de manifestações contra o aumento das passagens de transporte no Rio de Janeiro, em 1956, e os protestos para exigir a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial.

A atuação mais importante do movimento estudantil aconteceu durante a ditadura militar, época em que a repressão também foi mais intensa. Em novembro de 1964 (sete meses após o golpe), o governo implementou a Lei Suplicy de Lacerda - nome do então ministro da Educação -, que proibia atividades políticas nas organizações estudantis e as colocava sob controle do Estado. Apesar disso, a juventude não parou. Sem liberdade para convocar reuniões, os secundaristas se encontravam em locais secretos. "A comunicação era bastante limitada, as informações iam passando de pessoa para pessoa?, conta Gislene.

Dessa maneira, eles se mantiveram ativos na luta contra o governo instaurado. Segundo o livro O Poder Jovem, do jornalista Arthur Poenner, os mais jovens eram reconhecidos como linha dura pelos universitários: "Eles não padeciam do medo de se ?queimar?, que acometia muitos universitários quando, às vésperas da formatura, começavam a se preocupar com a conquista de um lugar ao sol na sociedade que tanto combateram?.

A morte de um secundarista, inclusive, foi o causador de um dos mais importantes episódios do período. Em 1968, Edson Luís de Lima Souto, de 18 anos, foi assassinado pela polícia durante uma manifestação. Sua morte disparou uma série de protestos que culminou com a Passeata dos 100 Mil, que reuniu mais de 100 mil pessoas nas ruas do Rio de Janeiro em junho daquele ano.

A principal diferença para hoje está na organização. A partir de 1985, os grêmios voltaram a existir e os estudantes puderam se articular. Com novas liberdades, novas formas de protestar. No caso, as ocupações, inspiradas em manifestações chilenas. "Isso dialoga com a abertura. Na ditadura, ocupar um local fechado significava que um grupo reduzido iria lidar com as agressões", explica Luis Fernando Cerri, professor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).

Nos debates em sala, a mediação é essencial. Quando a discussão esquentar, vale intervir e questionar: "Como a história nos ajuda a entender o tema?" Assim, a discussão ganha profundidade e os alunos colocam em ação as aprendizagens recém-conquistadas.