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O socialismo hoje, além dos rótulos

A briga entre direita e esquerda nas redes sociais mostrou que há muito desconhecimento sobre o tema. Não deixe a turma no escuro

POR:
Paula Peres, Patrick Cassimiro e Maggi Krause

Comunista, come criancinha, cabeça vermelha, bolivariano... Esses rótulos se multiplicaram graças à polarização na política, alimentada pela agilidade de resposta no Facebook. No cenário internacional, a morte do líder cubano Fidel Castro (1926-2016), as conversas sobre o fim do embargo econômico dos Estados Unidos a Cuba e a simpatia do presidente russo Putin por Donald Trump incitam à pergunta do momento (leia abaixo) e reacendem a curiosidade sobre os países ditos comunistas.

"A Geografia estuda essas relações porque as alterações no espaço podem ser explicadas, em grande medida, pelas mudanças econômicas e políticas", explica Fábio Augusto Machado, educador nota 10 de 2016. Ele costuma mostrar aos alunos os prós e contras de ambos os regimes, afinal, "o socialismo foi criado com base no estudo sobre o capitalismo. Não tem como falar de um sem falar do outro".

O assunto rende debates acalorados, por isso incentive os estudantes a usar argumentos sólidos. "O professor não pode dizer que um sistema é melhor ou pior. Um trabalho bem-feito gera opiniões divergentes ao final da aula", brinca Fábio. Conversamos com ele e três especialistas para convidar você - sem juízo de valores - a situar o socialismo no cenário mundial.

 

Como ficam as relações entre Cuba e os Estados Unidos a partir de agora?

Depois de mais de 50 anos de hostilidades e embargo econômico imposto pelos Estados Unidos, no começo de 2017, a ilha voltou a exportar alguns produtos. Essa reaproximação foi ensaiada desde 2014 na política entre os presidentes Raúl Castro e Barack Obama. Com a posse de Donald Trump, o futuro é incerto. "Ele teve apoio em Miami dos cubanos contrários ao regime dos irmãos Castro", lembra o professor Flavius Marcus Lana de Vasconcelos, da PUC de Minas Gerais. Por outro lado, Trump mantém diálogo com a Rússia, uma aliada histórica de Cuba. "Se acontecer uma abertura, vai ser difícil voltar ao que era antes, pois a sociedade tem o apelo do consumo", reflete Olgária Chain Feres Matos, professora da Filosofia da USP e da Unifesp.

 

Qual a diferença entre socialismo e comunismo?

Há várias correntes da teoria marxista. Em uma delas, o socialismo é a etapa de transição inevitável entre o sistema capitalista e o comunista. Este último seria organizado sem divisão de classes sociais e suprimiria até a existência do próprio Estado. Essa sociedade utópica nunca se concretizou, mas países e partidos adotaram as ideias socialistas. Karl Marx (1818-1883) defendia que os trabalhadores se unissem em uma revolução para acabar com o poder da burguesia e a propriedade privada dos meios de produção. O objetivo era instalar um sistema político voltado aos interesses dos trabalhadores (ou proletários, termo do Manifesto do Partido Comunista, de 1848), em que o dinheiro não fosse o foco. No socialismo, o governo controla a produção e a distribuição dos bens.

 

Em que momento o socialismo viveu seu auge?

Para o professor Flavius, foi entre o fim da década de 1940, com a Revolução Chinesa, e o final dos anos 1970, quando os russos desenvolveram tecnologias para concorrer com os norte-americanos na corrida espacial. O período abarcou parte da Guerra Fria (1947 - 1991), quando os países ocidentais se dividiram em dois blocos, segundo o regime das duas principais potências: Estados Unidos e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). "O socialismo era tão poderoso que acabou incentivando indiretamente os capitalistas a fortalecerem seu estado de bem-estar social", explica. Nessa época, países do norte da Europa tornaram sua Educação pública, o que era uma das demandas centrais da ideologia comunista.

Sobrou algum país realmente socialista no mundo?

Só três são considerados, e com ressalvas! Segundo os especialistas, Cuba é a experiência mais próxima do êxito, não sem críticas à falta de liberdade política e ao apego dos irmãos Castro ao poder. Todos concordam que a China trocou o socialismo pelo "capitalismo de Estado", com farta exploração de mão de obra. Para Olgária, os chineses nacionalizam tecnologias e distribuem renda para fortalecer o mercado interno. Seu plano de longo prazo é fortalecer o país rumo à hegemonia mundial. Já o obscurantismo sobre a Coreia do Norte intriga os especialistas. "Parece mais um projeto tirânico do que algo ideologicamente construído e estruturado", observa Marco Antônio Teixeira, vice-coordenador do curso de Administração Pública da FGV.

 

Por que esses regimes limitam direitos civis e democráticos dos indivíduos?

O problema está no totalitarismo dos governos. "Quando se tem a pretensão de homogeneizar uma sociedade que é naturalmente plural e diferente, a repressão é inevitável", analisa a professora Olgária. O Estado totalitário é justificado, segundo Flavius, como necessário para a preservação de um ideário socialista, por mais que isso não seja justificável. Já Marco Antônio observa que as mudanças costumam apregoar mais bem-estar, mas a um custo alto: "Sai o dono, entra o Estado, mas o cidadão permanece quase da mesma forma, só que com sua liberdade individual restrita", critica. O autoritarismo não se resume aos regimes ditatoriais de esquerda, e está mais relacionado à ideia de golpe, ou revolução, quando um grupo toma o poder sobre todos os outros, do que a uma ideologia política, especificamente. A história também mostra regimes totalitários de direita, como o fascismo italiano, com pensadores capitalistas defendendo esse modelo.


Todos ganham o mesmo salário em uma economia que não é capitalista?

Nada disso. Um médico ganha mais que um lixeiro, embora os dois tenham acesso aos mesmos produtos no supermercado, à mesma escola e ao mesmo hospital. O governo socialista controla e assegura serviços de saúde e Educação, e os meios de produção de bens de consumo, como indústrias e empresas, passam a ser estatais. Esse controle excessivo causa pouquíssima concorrência entre empresas, e menos possibilidades de escolha para os cidadãos. "No capitalismo, a disputa pelo mercado consumidor garante o aprimoramento dos serviços e da tecnologia. Sem concorrência, os produtos ficam estagnados, o que causa atraso tecnológico", explica Fábio.

 

O que é o chamado socialismo do século 21?

Essa expressão foi criada por Hugo Chávez, na época em que governava a Venezuela, e depois adotada pelos presidentes do Equador e da Venezuela. "É um movimento latino-americano que tem seu mérito por tentar resgatar a ideia de soberania nacional, no sentido de estatizar ou nacionalizar empresas de setores estratégicos, como as petrolíferas", explica o professor Flavius. Não deixa de ser um país capitalista, mas a adoção desse modelo tenta imprimir uma certa homogeneização social. Para Olgária, essas iniciativas estão bem mais próximas do populismo do que do socialismo. "O carisma do governante é muito forte, e sobressai a ideia de amor ou ódio a essa personalidade, como aconteceu com Getúlio Vargas no Brasil", reflete.


Ilustrações: OTÁVIO SILVEIRA