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A EJA precisa, sim, se movimentar

Chega do papo de que a disciplina é facultativa. Um caso prático mostra como é possível torná-la real

POR:
Jacqueline Hamine, Wellington Soares e Monise Cardoso

Alunos do CIEJA Butantã vão até o câmpus da USP provar os esportes

Noel Alves passa o dia se movimentando. A força nos braços do homem de 50 anos vem das atividades de estoquista numa padaria no bairro do Butantã, em São Paulo. O trabalho é exaustivo. Durante o dia, ele sobe e desce escadas, carrega sacos de farinha de um lado para outro. No fim das tardes, o movimento se transforma: de carregador, passa a ser jogador de vôlei, corredor e lançador de peso durante as aulas de Educação Física do CIEJA Aluna Jéssica Nunes Herculano, à margem da rodovia Raposo Tavares, que liga a capital paulista à região metropolitana.

Até pouco tempo atrás, as atividades físicas não faziam parte do currículo da instituição. Realidade parecida com a da maior parte do país. A legislação determina a obrigatoriedade da disciplina, mesmo na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Mas ela é facultativa para alunos que tenham filhos, estudem no período noturno, cumpram jornada de trabalho igual ou superior a seis horas, tenham mais de 30 anos de idade, prestem serviço militar inicial ou possuam algum tipo de deficiência. Não é difícil perceber que as exceções abrangem quase a totalidade do público do segmento. Como resultado, no fim das contas são poucos os alunos que a frequentam.

A ideia de poupar os alunos se baseia na visão de que o único objetivo da Educação Física seria pôr o corpo em movimento. Ela desconsidera, portanto, a função mais atual dela: a de colocar em discussão e propor a experimentação de diversas práticas corporais. Na EJA, o impacto pode ser ainda mais claro, como mostram os depoimentos ao longo desta reportagem.

Nessa escola paulistana, a demanda pelas aulas surgiu dos próprios alunos durante uma assembleia estudantil em 2012. Depois de levado à gestão escolar, o pedido resultou na chegada da professora Jacqueline Martins no início do ano seguinte. O trabalho dela já era reconhecido como de excelência. Além de fazer parte de um grupo de pesquisas sobre a Educação Física escolar na Universidade de São Paulo (USP), ela conquistou o título de Educadora Nota 10 por um projeto feito com turmas de Ensino Fundamental 1. Mas, mesmo para Jacqueline, trabalhar com a EJA era um desafio completamente diferente. "Quando cheguei, as necessidades eram novas, e a escola não oferecia nenhuma estrutura para as aulas. Foi difícil. Eu ligava pro meu orientador da USP todos os dias e chorava, dizia que não sabia o que estava fazendo ali", relembra.

"Estou acostumado com esforço, mas sempre acabava o dia jogado no sofá. Agora dou conta de chegar e brincar com meus netos".

NOEL ALVES, 50 ANOS

 

Desafios para todos

Na Educação Física como nas outras áreas do currículo, o trabalho com jovens e adultos apresenta desafios próprios: "A evasão de alunos, a dificuldade em dialogar com a escola, a dificuldade que os alunos têm de enxergar uma aula de Educação Física sem levar apenas para o lado dos esportes, com predomínio do que chamamos de quadrado mágico (vôlei, handebol, basquetebol e futsal/futebol)", lista a pesquisadora Rosa Malena Carvalho no artigo Educação Física na Educação de Jovens e Adultos. Superá-los requer disposição para o diálogo e um planejamento cuidadoso.

No caso de Jacqueline, um dos principais obstáculos foi a falta de espaços apropriados para a prática de esportes. A escola funciona em um prédio adaptado e atende apenas a EJA. Como não há quadra e o pátio é pequeno, as atividades ocorrem no meio da rua, fechada por cones.

Soma-se a isso outro desafio, a diversidade. O público da EJA é composto de indivíduos bastante diferentes, mas que têm um ponto em comum: o fato de estarem privados das práticas corporais. São jovens e idosos mais ou menos dispostos, com maior ou menor habilidade e familiaridade com os esportes, e uma parcela grande de estudantes com deficiência (no caso do CIEJA, 62 alunos, 10% do total de matriculados).

No planejamento, todos esses elementos são considerados, mas não são limitantes do trabalho. Jacqueline aposta na capacidade dos estudantes, às vezes até mais do que eles próprios. A professora costuma realizar levantamentos para eleger quais práticas serão trabalhadas. Nas respostas, a diversidade parece um empecilho: os alunos costumam propor os exercícios que consideram mais adequados para idosos e pessoas com deficiência, como caminhada e alongamentos. "Eles não enxergam possibilidades de fazer algo além do básico. Mas eu provoco para que pensem nas coisas mais malucas. Meu papel, como professora, é fazê-las acontecer", argumenta.

Foi assim que surgiram propostas como o atletismo e o vôlei. Jacqueline planeja como adequá-las para o espaço disponível e para as potencialidades de cada estudante. Para o atletismo, por exemplo, ela organizou uma visita à Cidade Universitária da USP. Lá, os estudantes puderam praticar na infraestrutura profissional da universidade as modalidades estudadas previamente. Já no caso do vôlei, a saída foi optar por uma adaptação "para idosos". Apesar do nome, a escolha não teve nada a ver com a faixa etária dos alunos: a prática de segurar a bola, em vez de apenas tocá-la, garante que ela não acabará voando para a rodovia vizinha à escola. Além disso, usa-se três tipos de bola: a comum, a de couro, e outra mais leve, fabricada com espuma. O cuidado é necessário para atender alunos como Talita Ribeiro da Silva, 17 anos, que tem deficiência intelectual. Nos primeiros contatos com a prática, a jovem se esquivava sempre que a bola voltava em sua direção. "Perceber que o objeto não vai machucá-la facilita o envolvimento com o jogo", explica Jacqueline.

"Antes, tinha dores que mal me deixavam mover os braços. Hoje já consigo colocá-los lá no meio das costas".

MARIA DE LURDES SILVA, 63 ANOS

 

As adaptações não são feitas para facilitar os esportes praticados, mas para que cada aluno tenha a oportunidade de experimentá-los de acordo com a sua possibilidade. "Em vez de pensar nas dificuldades, é preciso focar na potência de grupos diversos", defende Maria da Paz Castro, especialista em inclusão e formadora de professores. Com o tempo, é comum que eles avancem e estejam cada vez mais dispostos e abertos ao trabalho.

Mesmo com adultos, aprender a conviver com as diferenças é fundamental. Maria de Lurdes, que voltou para a escola aos 63 anos, diz que é competitiva e fica brava quando perde um jogo: "Mas não posso brigar com o time, cada um faz o que pode com o corpo que tem, não é mesmo?". Aposentada, a estudante mais animada não perde a chance de comemorar cada vitória com pulos de alegria e gritos de guerra.

Além de se divertir, Maria também conseguiu se livrar das dores nos braços que contraiu nos anos em que trabalhou como copeira. O foco na saúde não é o único recomendado, mas pode ser importante para o público do segmento, sobretudo quando é uma necessidade da turma.

O acolhimento da diversidade e o caráter de diversão da disciplina são, em muitos casos, fundamentais para garantir que o retorno à escola não resulte em mais um abandono. É o caso de Cosme da Silva Gonçalves, 26 anos. Ele conta que abandonou os estudos porque não se sentia à vontade na escola onde cursou parte do Ensino Fundamental, no interior da Bahia. "No CIEJA busca-se reconstruir o vínculo com a escola, enfrentando a baixa autoestima dos estudantes e uma estrutura escolar que os expulsou", diz Jacqueline. A Educação Física é central nessa acolhida.

"É muito bom estar em uma turma com pessoas diferentes e ajudar quem sabe um pouco menos do que eu".

COSME GONÇALVES, 26 ANOS


Fotos: Mariana Pekin