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Sobre a importância de desistir

Rodrigo Ratier fala sobre mudanças de vida que podem melhorar o dia a dia

POR:
NOVA ESCOLA
Rodrigo Ratier,

Rodrigo Ratier,
Editor executivo de NOVA ESCOLA e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)

Entre as palavras da moda no mundo do trabalho e da Educação, tem uma que me provoca sentimentos contraditórios. Você já deve tê-la escutado: a tal da resiliência. Segundo o dicionário Houaiss, trata-se da capacidade de se recobrar facilmente, de se adaptar à má sorte ou às mudanças. Para usar uma metáfora simples, ser a vara que enverga, mas não quebra, é uma característica festejada por muita gente como caminho para sobreviver em meio à crise e à incerteza.

A valorização da resiliência mira o imediatismo e o medo de sofrer. Justo. Nosso mundo de confortos e soluções em tempo real cria a ilusão de que nossos desejos podem ser atendidos num passe de mágica. "Não tenho tempo para esperar a hora, tem que ser aqui, tem que ser agora." A deliciosa música da Palavra Cantada, apropriadamente chamada Eu Sou um Bebezinho, descreve bem esse comportamento infantil típico dos tempos de hoje.

O choque com a vida real é inevitável. Um desastre natural, a morte de alguém querido, a perda do trabalho convoca a habilidade de resistir. Para isso, podemos repensar ações, inovar e fazer diferente ou, simplesmente, insistir quanto dá - e aí a sabedoria está em distinguir o que pode ser mudado do que não pode.

Não tenho dúvida de que a postura de seguir lutando é a chave para avançar. Mas quero aqui falar da exceção, do reverso da moeda. Tem horas que o sensato a fazer é desistir. Penso numa paixão não correspondida (e que nunca será), num negócio falido (e que assim seguirá), num emprego que não é para você (mesmo com muito estudo e preparo). Coisas, enfim, para as quais pouco importa o esforço. Elas simplesmente estão fora do alcance e nos esfregam na cara uma constatação dolorosa, mas verdadeira: em certos casos, não somos - e nem seremos - bons o bastante, amados o bastante, ricos o bastante.

Desistir nem sempre representa um fracasso. Muitas vezes, pode ser o primeiro passo rumo à liberdade.

Abandonar um sonho requer coragem para lidar com a reprovação externa e, sobretudo, com as armadilhas mentais. A cabeça prega peças, transformando sonhos inatingíveis em obsessões que aprisionam, como se fossem as únicas coisas importantes na vida. Não são, mas, quando lembrar disso não é suficiente, há uma técnica útil de mindfulness - outra palavra da moda, que indica um aprendizado para a atenção plena no presente. Assim: ao se perceber tomado pelo desejo de algo impossível, você não o reprime. A ideia é reconhecê-lo - "Aí está algo que eu realmente quero" - e, em seguida, afirmar sua impossibilidade - "mas que não vai se materializar".

Parece cruel, mas dizer isso para si mesmo é uma forma de se distanciar da ilusão inatingível e, pouco a pouco, focar energia na realidade concreta: sempre haverá outras pessoas interessantes, novas oportunidades para empreender e trabalhos que ajudem a dar sentido à vida. Desistir nem sempre representa um fracasso. Muitas vezes, pode ser o primeiro passo rumo à liberdade.
 


Ilustração: Adriana Komura