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"Coloquei a produção da escola pública no cinema"

POR:
Larissa Darc e NOVA ESCOLA

Débora mostrou que o professor da sala de informática tem muito a ensinar

 "Para muitas crianças e jovens, o professor da sala de informática é a pessoa encarregada da 'aula de computadores'. Era assim quando entrei na EMEF Almirante Ary Parreiras, dois anos atrás. Quis mostrar aos alunos do 1o ao 9o ano que o local não servia apenas para jogar. Na primeira aula, falei que não usaríamos o computador logo de cara. Alguns questionaram a decisão, mas se entusiasmaram ao saber que trabalharíamos com animação stop motion. Dividi a sala em grupos, distribuí a massinha e expliquei a proposta: criar personagens e fotografar cada ação para, no final, editar um filme de verdade.

Escolhi trabalhar com a música Faroeste Caboclo, do Legião Urbana, que seria a trilha sobre a qual a moçada criaria a animação. A ideia era explorar o tema da violência, presente na letra, por ser algo que os jovens presenciam constantemente na comunidade Alba, no Jabaquara, na zona sul da cidade de São Paulo. Grande parte deles mora lá. Não uso o termo favela por achar depreciativo. A aposta no debate sobre violência rendeu frutos. Foi o estopim para incluir no enredo elementos de preconceito e intolerância. Fez todo o sentido, pois estamos numa região carente, onde não há saneamento básico para todos e muitos estudantes vivem em casas de madeira. São questões fortes para eles.

Decidida a linha narrativa, expliquei como funciona a lógica do stop motion, onde cada quadro corresponde a um segundo do vídeo. Com fotos e slides prontos, mostrei como unificar o que foi produzido, usando um software de edição. Foi lindo: nas mãos da garotada do 8o ano, Faroeste Caboclo virou uma história de amor e violência. Repeti o mesmo processo nas outras turmas. A do 4o, por exemplo, usou a literatura de cordel para criar um conto envolvendo Lampião.

Foi muito legal acompanhar o empenho de todos no projeto e perceber que essa era uma aula muito aguardada. A recompensa final veio no início de 2016, quando esses dois trabalhos foram selecionados para o Festival de Filmes Escolares, no Espaço Itaú de Cinema. Para muitos alunos, foi a primeira vez num cinema. E eles não foram ver qualquer filme. Foram ver o deles."

DÉBORA GAROFALO, 37 anos, é professora há 11 e hoje atua na rede municipal de São Paulo.


Foto: Verônica Mancini