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Vergonha continental

O debate sobre a escravidão nos países da América Latina deve ganhar espaço com a aprovação da nova Base Nacional Comum. Prepare-se

POR:
Wellington Soares, Karina Padial e Lucas Freire

"Estes lugares são tão quentes que mesmo na metade do inverno sentimos um calor do cão. Os escravos negros somam 1,4 mil na cidade e ficam quase pelados. Em relação aos estrangeiros, nenhuma outra cidade da América, como dizem, tem tanto quanto esta. É uma oferta de quase todas as nações, que estão dispostas a negociar. Há prata e ouro. Mas a mercadoria mais em uso é a dos escravos negros. Os comerciantes os compram por preços miseráveis nas costas da Angola e da Guiné. De lá, eles são trazidos em navios bem carregados a este porto, onde fazem as primeiras vendas com incrível lucro." 

O relato de 1618, feito pelo jesuíta Carlos de Orta, poderia muito bem se referir às cidades de Salvador ou do Rio de Janeiro. Mas, nessa correspondência enviada a seu pai, ele descreve Cartagena das Índias, localizada no vice-reino de Nova Granada, onde hoje fica a Colômbia. A cidade era, na época, o principal porto de entrada dos negros escravizados da América (veja mapa abaixo).

Apesar da sua importância, a cidade é raramente mencionada em livros didáticos. Mas isso deve mudar num futuro próximo. A tradição de destacar apenas as relações entre Brasil e Europa nas aulas de História tem sido substituída por uma visão mais ampla, que aumenta a ênfase dada tanto aos outros países da América Latina quanto à África. É o que têm apontado as diferentes versões da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), cujo texto final deve ser aprovado ainda neste ano.

Diferentes metrópoles e escravidões

A ausência de menções ao trabalho escravo no restante da América Ibérica reforça um senso comum: o de que, enquanto a escravidão negra no Brasil foi a base da economia colonial, nos outros países foram os indígenas que assumiram esse papel. O exemplo de Cartagena prova que, tanto na porção colonizada pelos espanhóis quanto na explorada pelos portugueses, houve uso de ambos os tipos. Ainda que nos nossos vizinhos a utilização de mão de obra nativa tenha sido maior.

Parte da diferença é explicadada porque logo de cara os espanhóis encontraram populações que já exploravam um minério muito cobiçado: a prata. Para obtê-la foi preciso conquistar os povos e seus territórios. Uma tarefa nada fácil, mas que veio a calhar. Os países ibéricos tinham acordado com a Igreja que os nativos que não resistissem seriam evangelizados. Aos outros, a escravização estava liberada. Os que não foram mortos nos conflitos ou por doenças trazidas pelos europeus foram, então, forçados a trabalhar na extração da prata, por meio de modalidades como a servidão por dívidas (a escravidão indígena acabou sendo proibida pela Espanha em 1542).

Só que com quase a totalidade dos conquistados envolvidos na exploração de metais, faltou gente para assumir as demais atividaes. O uso da mão de obra africana foi a saída encontrada. "O emprego dos negros na América Espanhola se concentrou nas capitais, onde atuaram nos trabalhos domésticos, no comércio, na construção e, eventualmente, na agricultura. Ou seja, foi um contingente importante, mas complementar ao dos ameríndios", explica Rafael Marquese, professor de História da América Colonial na Universidade de São Paulo (USP) e autor de Feitores do Corpo, Missionários da Mente - Senhores, Letrados e o Controle dos Escravos na América. Era o caso de Cartagena. Ali, parte dos negros era usada para atividades ligadas ao cotidiano da cidade. Outra parte era enviada para outras regiões da colônia, como Alto Peru, Guayaquil, Quito e Panamá.

O menor uso de africanos nos nossos vizinhos também tem relação com o fato de a Espanha não realizar o tráfico de escravos. A atividade era dominada pelos portugueses e isso encarecia a compra por parte das colônias espanholas.

Por volta de 1625, Cartagena deixa de ser a principal entrada de escravos negros das Américas, sendo substituída por Salvador e, depois, pelo Rio de Janeiro. Oitenta anos mais tarde também perde o lugar entre as colônias espanholas, superada por Cuba, que, em poucos anos, se tornaria o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo.

O trabalho em sala de aula pode se debruçar sobre essas questões. A ideia é lançar um olhar mais diverso sobre o continente em que o Brasil se localiza e observar semelhanças e diferenças entre nossa história e a de nossos vizinhos.

Em Cartagena, como aqui, a escravidão deixou marcas. A cidade está entre as com maior concentração de afrocolombianos do país, assim como Salvador, no Brasil. Outra relação com o presente pode ser feita ao discutir aspectos culturais: por aqui, samba, por lá, champeta; por aqui, baianas do acarajé, por lá, palenqueiras de frutas. "Quando os negros chegam às colônias da América, suas diferentes culturas e tradições são ressignificadas. Por isso, a influência é distinta em cada lugar", explica Ynaê dos Santos, historiadora da FGV que estudou a relação entre espaço urbano e escravidão no Novo Mundo em seu doutorado. 

Para saber mais

O site slavevoyages.org reúne dados com base em registros portuários  e mostra a origem, o destino e a quantidade exata de escravos africanos que  cruzaram o Atlântico.

 


Ilustrações: Marcus Penna