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O que eu fiz com a pior notícia da minha vida

POR:
NOVA ESCOLA

Rodrigo Ratier,
Editor executivo de NOVA ESCOLA e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)

"Rô, eu tô fodido, anunciou meu pai, humorista nato, no que poderia ser mais uma de suas incontáveis piadas. O clima, porém, não estava para brincadeira no quarto 231 do hospital A. C. Camargo. Reunidos, minha mãe e meus irmãos ouviam um assustador resumo do futuro imediato. Já imaginávamos que seria câncer. Mas não estávamos preparados para palavras tão duras que, por força das circunstâncias, se tornariam familiares dali por diante. Leucemia mieloide aguda, sarcoma granulocítico, internação de seis meses, ao menos três ciclos de quimioterapia pesada, transplante alógeno de medula óssea para, no fim, ter 50% de chances de cura.

Era meu primeiro contato próximo com a morte. A gente espera e até se prepara para algum problema com os mais velhos e os mais frágeis. Uma avó com 86 anos, uma mãe com saúde que inspira certa atenção. Mas meu pai... Cara, você prometeu que iria chegar aos 100. Ainda faltam 36 anos e meio! Não foi assim que a gente combinou...

Nos primeiros dias depois do diagnóstico, ainda sob a sensação de que aquilo não passava de um pesadelo, eu chegava ao hospital pensando: "Que merda. Quinze dias atrás, o velho estava fazendo graça para a neta. Agora, está aqui, careca, plugado 24 horas por dia nos anticancerígenos". Algo mudou quando aceitei que aquilo tudo era para valer. Nada do que eu fizesse poderia evitar o que todos nós, principalmente meu pai, teríamos pela frente. Havia, porém, algo poderoso a modificar: o meu jeito de ver as coisas. A mesma visita triste ao paciente do quarto 231 poderia ser narrada da seguinte maneira: "Passei duas horas com meu pai conversando e assistindo TV. Mesmo com um pouco de febre, ele estava sem dor e tranquilo". Mais descrição e menos opinião.

Suspender o juízo de valor foi fundamental para tirar o foco do problema e direcionar atenção para o que eu precisava fazer. Abrir espaço na agenda para estar com meu pai. Apoiar minha mãe. Explicar para minha filha que o vovô Zé está dodói e não vai poder vê-la por um tempo. Buscar uma segunda opinião com o melhor especialista possível. Tocar, enfim, o resto da vida.

Não se trata de ver um suposto lado bom na desgraça. Confesso a vocês que essa coisa do copo meio cheio nunca funcionou direito para mim. O que tem ajudado é aceitar que o sofrimento é inevitável, mas que boa parte dele é produto de uma cabeça programada para prever sempre o pior dos mundos. Situações de vida podem ser difíceis, mas são, no fundo, uma abstração. Elas são feitas de momentos. O presente é o que temos e ele, mesmo em meio à tragédia, raramente é terrível. Pode até ser divertido. Como na tarde de domingo em que a otorrino apareceu no quarto para tratar de uma sinusite. O senhor está escutando bem?", perguntou. Apesar da audição perfeita, meu pai respondeu com um "Quê?" e uma gargalhada. Aí, sim, era piada.

O sofrimento é inevitável, mas boa parte dele é produto de uma cabeça que prevê, sempre, o pior dos mundos.


Ilustração: Adriana Komura