Até quando tardia, a Educação muda vidas

Felipe Bandoni fala sobre o dia a dia do professor

POR:
NOVA ESCOLA
Felipe Bandoni,

Felipe Bandoni,
Doutor em Biologia pela USP e professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo

Desde pequenos, ouvimos "É preciso estudar para ser alguém na vida", "A Educação transforma", entre outras frases que nossas mães nos dizem para nos encorajar a ir à escola. Claro, como professor, também acredito nisso, mas foi dando aulas na Educação de Jovens e Adultos (EJA) que tive provas reais do impacto social que a aprendizagem pode causar na vida de alguém, mesmo quando ela ocorre tardiamente, como é o caso dos alunos dessa modalidade de ensino.

Vou dar alguns exemplos relatados por colegas meus da EJA. Na aula de História, após uma atividade que diferenciava o trabalho escravo do assalariado, uma aluna disse: "Se isso é escravidão, então eu já fui escrava". Emocionada, a mulher contou sobre o período em que era mantida presa pelos patrões no local em que trabalhava como empregada doméstica. Para fugir, precisou pular o muro da casa e mudar de cidade. Os comentários da turma revelaram que a situação é familiar para muitos, mas que até então não era reconhecida por eles como análoga à escravidão.

Em uma aula de Ciências sobre sexualidade, o tema da violência doméstica veio à tona. O professor, então, pediu que os estudantes pesquisassem sobre o assunto para que eles pudessem aprofundar a discussão. Ao apresentar seus levantamentos à turma, um dos grupos chamou a atenção para a descoberta de que a agressão verbal é uma forma de violência doméstica e pode levar à prisão. Muitos alunos ficaram surpresos especialmente as mulheres, que acreditavam que somente ataques físicos eram considerados abusivos. Várias delas começaram a contar episódios pelos quais passaram, mostrando quanto a
violência desse tipo ainda é frequente.

Nesses dois casos, o conhecimento desenvolvido na escola permitiu que aquelas pessoas tivessem contato com aspectos da cidadania que não conheciam. Trabalhar somente por comida ou tolerar um marido que as xingue não serão mais práticas encaradas como naturais. Isso as ajudou a reconhecer seus direitos e, assim, lutar por eles.

Por terem um repertório de experiências maior do que as crianças e os adolescentes, os adultos tendem a relacionar os conteúdos às vivências deles, de modo que um aprendizado pode ter repercussão imediata em suas vidas. Isso também pode ser alcançado com os mais novos. Para isso, nós, professores, precisamos permitir que as discussões avancem além dos aspectos escolares, assim como fizeram os docentes dos exemplos citados, que não trataram a escravidão apenas do ponto de vista histórico e a sexualidade pelo aspecto unicamente biológico.

Estabelecer essas conexões entre a escola e o que ocorre fora dela - ou simplesmente permitir que os estudantes o façam - abre portas para que a turma transforme sua visão do mundo. Dessa forma, também ajudamos a impedir que as crianças de hoje passem pelas situações degradantes enfrentadas por muitos alunos adultos.

A Educação transforma vidas, especialmente ao estabelecer conexões entre a escola e o que ocorre fora dela.


Ilustração: Adriana Komura 

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