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O caminho certo para criar mapas

Uma caça ao tesouro – desenhada e revisada muuuuitas vezes – fez a turma entender instruções de deslocamento. Coisa que alguns adultos não sabem...

POR:
Paula Peres, Maggi Krause e Lucas Freire

P ara muita gente, é quase impossível imaginar a vida moderna sem aplicativos de celular como Waze ou Google Maps. Para além da comodidade de sugerir rotas, eles suprem uma carência fundamental: dão uma baita força na hora de se localizar no espaço, entender um mapa ou se deslocar. Muitos adultos não possuem esse conhecimento básico - e a escola tem, sim, culpa nisso. "Noções de espaço e lateralidade são conteúdos das aulas nos anos iniciais. Por uma lacuna de formação no eixo espaço e forma, os docentes evitam o tema", lamenta Lilian Marciano, selecionadora do Prêmio Educador Nota 10.

Selene Coletti

 

54 anos
35 anos de docência
Educadora Nota 10 
Itatiba (SP)
Matemática
1º ano
Projeto: Mapas do Tesouro que São um Tesouro

 

Dá para fazer diferente entendendo, antes de tudo, como as crianças aprendem. Em geral, elas internalizam as noções de esquerda e direita se guiando pelo símbolo da escola no uniforme ou pela mão com que escrevem. No fim da Educação Infantil, deixam de se ver como referência única e percebem a relevância de outros objetos. "Isso muda a maneira de se relacionar com o espaço. As crianças passam a avaliar quanto falta para chegar ao destino com base nos pontos de referência que visualizam", explica Ana Flávia Castanho, formadora de professores do Instituto Avisa Lá, em São Paulo. Ótima chance de criar situações em que as crianças analisem os elementos do ambiente antes de ir para um lado ou para outro.

 

Mapas de verdade

Fazer um mapa simples era parte das atividades do 1º ano na EMEB Coronel Francisco Rodrigues Barbosa, em Itatiba, interior de São Paulo. Mas a produção inicial desapontou. "Só havia rabiscos, sem indicação de referências ou de direção", afirma a professora Selene Coletti. "O jogo tomou outro rumo com um desafio: produzir um mapa do tesouro para ser usado pelos colegas do 2º ano", conta (conheça as etapas abaixo).

O diferencial do projeto foi o intenso processode investigação e aprimoramento dos alunos. Após desenhar um percurso, eles debatiam em grupos e revisavam o que poderia melhorar. "Em nenhuma etapa Selene forneceu um modelo para cópia. Tudo partiu das análises da turma", elogia Lilian. A cada conversa, novas descobertas. "No início, eles achavam que pontos de referência eram como os de exclamação e interrogação. Esclareci que eles representam as dicas que nós usamos para ensinar um caminho", lembra Selene.

Na hora de criar as instruções de deslocamento para o usuário, a turma brincou com jogos em que um personagem seguia uma rota indicada pelo jogador. "As crianças refletiram sobre como comunicar percursos, o que foi útil para fazerem seus próprios mapas", ressaltou a selecionadora Lilian. Tudo pronto: esconderam o tesouro no parque da escola e desafiaram colegas mais velhos, do 2º ano, a encontrá-lo. Com instruções tão detalhadas, ficou fácil: "Da mureta até a árvore, dê 14 passos à frente. Dessa árvore, vire à esquerda, ande 28 passos e chegue a outra árvore perto da gangorra. Vire à direita e dê 3 passos. Vire à esquerda. Dê 38 passos e chegue à parede branca. Vire à esquerda e dê mais 4 passos. Parabéns, você encontrou o tesouro!"

 

Além de esquerda e direita

  • Exercício da lateralidade
    Dizer "vire para o lado" não é suficiente. Para dar indicações corretas, os pequenos careciam de noções de lateralidade, com as primeiras referências de direita e esquerda nas atividades de percurso.
  • Pontos de referência
    A turma percebeu que árvores e construções são pistas para o interlocutor, que ajudam a indicar o caminho correto.
  • Noções de distância
    Como mostrar os metros a ser percorridos? Quanto uma pessoa deve andar antes de virar? Os alunos indicaram o número de passos considerando o pé de uma pessoa que calça sapatos tamanho 35.

Localize as etapas

  1. Esboço inicial
    As crianças desenham o percurso entre a sala da turma e a das inspetoras.
     
  2. Debate
    A professora e a turma discutiram o que faltava nos mapas, como pontos de referência e setas indicativas.
     
  3. Indicações
    Os pequenos aprenderam a criar e seguir instruções com jogos virtuais (De Lá para Cá, de Cá para Lá e Labirinto) e em sala (Se Eu Fosse um Robô).
     
  4. Redesenho
    Em dupla, produziram o mapa (em Paint ou Word), refazendo o caminho e revisando o desenho.
     
  5. Detalhamento
    Instruções minuciosas davam direções e distâncias a percorrer no local para chegar ao tesouro.

 


Fotografia: Alexandre Battibugli

Ilustração: 45JJ