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Somos professores até nas horas vagas

Felipe Bandoni fala sobre o dia a dia do professor

POR:
NOVA ESCOLA
Felipe Bandoni,

Felipe Bandoni,
Doutor em Biologia pela USP e professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo

Por escrever todos os meses aqui em NOVA ESCOLA, tenho contato constante com jornalistas. Posso dizer que o trabalho deles não se restringe ao momento em que estão redigindo a reportagem. Antes, pesquisam informações, entrevistam pessoas, checam dados, consultam especialistas, se reúnem para decidir que imagens precisam e como a matéria será apresentada. Só então o texto é elaborado. A escrita é o fim de um longo percurso de apuração e criação.

Vejo grande semelhança com o nosso fazer de professor. Nós também não trabalhamos somente quando estamos em sala com os alunos. A aula requer estudo, concepção e preparação. Assim como já ouvi repórteres dizerem que, mesmo nas folgas, não conseguem deixar de registrar algo que possa ser notícia, para nós, educadores, também é difícil separar totalmente nosso tempo de lazer e de trabalho. Estamos sempre de olho em coisas interessantes para inserir no planejamento.

Uma colega me contou certa vez que estava assistindo a um filme com o marido e, no ponto alto da história, teve uma ideia de como usar a narrativa em uma sequência didática com seus alunos. No mesmo instante, ela parou o DVD e passou a fazer anotações. O marido, claro, não ficou contente com a interrupção abrupta.

Eu, quando leio um livro ou visito uma exposição, mesmo que pareça não ter relação com a disciplina que leciono, consigo identificar elementos para enriquecer minhas aulas. O tempo todo, vejo docentes replanejando as atividades para ampliar as relações entre os conteúdos e o universo dos alunos. Tudo isso é compartilhado nos horários de trabalho coletivo pedagógico, quando as ações ganham sintonia e coerência. São todas essas etapas que fazem as aulas serem cada vez melhores - como uma reportagem quando é bem apurada e estruturada.

Na lei que estabeleceu o Piso Nacional para os professores, está claro que um terço de nossa jornada deve ser reservado a esses momentos fora da classe. Apesar disso, nossos contratos de trabalho, muitas vezes, negligenciam esse tempo. Mesmo quando ele existe, nem sempre é bem aproveitado pelos próprios professores. Recentemente, presenciei docentes de diferentes disciplinas conversando sobre como abordariam problemas com regra de três com os alunos. No entanto, justamente o de Matemática, que poderia contribuir tanto com a discussão, abandonou o grupo no meio. A falta de troca entre os docentes e de momentos para estudo resulta em conteúdos que não dialogam entre si, em aulas defasadas e enfadonhas, e em pouca aprendizagem por parte dos estudantes.

A qualidade requer dedicação e exige tempo. Sei que, de minha parte, não consigo desligar do meu "eu professor" mesmo fora do trabalho. Meu jeito de olhar o mundo inclui relacionar o que vejo e ouço com aquilo que leciono. Nada mais natural, afinal, estamos ensinando sobre o que está à nossa volta, não é?

Precisamos reconhecer a importância dos períodos fora de sala. A qualidade requer dedicação e exige tempo.


Ilustração: Adriana Komura