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As aulas vão deixar de existir

Para especialista português, Educação deve se adaptar ao modelo de percurso individual

POR:
Paula Peres
António Nóvoa- Professor da Universidade de Lisboa,  é estudioso da área  de formação de professores, tema sobre o qual realiza palestras em diversos países 

Em 2012, você disse: "Nunca foi tão difícil ser professor". Continua assim?  

António Nóvoa - Sim. Há as dificuldades relacionadas com a própria profissão: questões salariais, desvalorização, formação muito precária etc. E há um segundo problema, muito importante e relevante: o fim da escola tal qual a conhecemos. Está surgindo outro modelo e não sabemos exatamente como ele será. E, portanto, não temos ainda as maneiras de trabalhar nessa nova realidade. Essa dificuldade pode ser positiva, inspiradora e abrir coisas para o futuro, mas é claro que isso traz uma complexidade para o professor. 
 

Qual é essa nova realidade?

Temos escolas em que tudo é normatizado: o ensino, o uso do quadro, as turmas, os espaços, as disciplinas, a progressão nos estudos, os exames etc. Agora estamos indo para o oposto, de acabar com a padronização e ter pedagogias diferentes, individualização dos percursos e melhor relação com a sociedade. É outro entendimento das questões educativas. Isso não é utópico, mas algo já em curso em todo mundo, inclusive no Brasil.
 

Quais saberes serão necessários ao docente?

Ao imaginar uma sala, vemos o célebre triângulo pedagógico: alunos nas carteiras olhando o quadro e um professor transmitindo o conhecimento por meio de uma aula. Isso vai mudar radicalmente. Os estudantes estarão espalhados em grupos, sendo orientados por um docente, ou sozinhos pesquisando. O que vai prevalecer é um sistema de cooperação. Vamos colocar os alunos não em situação de ouvir uma explicação, mas de construí-la. O papel do professor não será mais o daquele que dá aula, mas o que coloca os estudantes para trabalhar. E o conhecimento? Ele não está mais no quadro. A ideia agora é pesquisar. Talvez ainda haja a necessidade de, às vezes, reunir os alunos para uma exposição que estruture o que está sendo feito. Mas não teremos mais uma aula atrás da outra ao longo de todo o dia.
 

Como a formação dará conta desse modelo?

Ela já precisa ser feita sem aulas, com estratégias de estudo e aprendizagem diferentes. Se continuar como está, o professor irá reproduzir com seus alunos a maneira como aprendeu. Também é necessário criar condições nas escolas para que elas sejam um lugar de formação continuada. E ter políticas que permitam ao docente trabalhar apenas em uma escola, o que seria uma revolução. Ele conseguiria ter outra relação com os alunos, os colegas e o projeto educativo da instituição. O Brasil é o único país que conheço em que o professor pode atuar em mais de uma escola.
 

O que já pode ser feito hoje?

Tentar acabar com pelo menos um dos polos do triângulo. Pode ser derrubar a parede das salas ou deixar de usar o quadro. Com um contexto diferente de aprendizagem, o professor vai ter que se adaptar. É difícil, mas há algo interessante: quem muda nunca mais quer voltar ao que era antes. 


Foto: Bruno Fernandes