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Por: Rodrigo Ratier

O ano em que pifei – e o que aprendi com isso

Rodrigo Ratier,

Rodrigo Ratier,
Editor executivo de NOVA ESCOLA e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)

Era 2002 e eu tinha todo o gás de um universitário recém-formado. Minha lista de atividades era ofegante. Por semana, eu dava 12 aulas e dedicava seis horas a um projeto voluntário de redação, escrevia oito páginas mensais numa revista, fiz um projeto para o mestrado em Ciência Política (não passei), um jornal para estudantes do Ensino Médio (não deu certo) e um boletim de atualidades para a turma que ia prestar vestibular. Quando as férias chegaram, foi um alívio. Foi também quando meu corpo pifou.

A exaustão não veio de uma vez. Estava irritado, passei a ter dificuldades para dormir e travei diante do computador ao escrever. Às vezes, não bastam os avisos do corpo: é preciso que ele berre. No meu caso, o grito do organismo veio num fim de semana em Ubatuba. Justamente quando eu achei que poderia relaxar, minha cabeça decidiu que o mar verde não tinha cor e que o convívio com os amigos não fazia sentido. Mergulhei numa mistura de depressão e transtorno de ansiedade que deixou marcas. Remédio e terapia foram aliados para me reequilibrar, mas nada foi tão fundamental quanto um aprendizado: eu precisava descansar. Sempre.

Fazer com que os momentos de pausa sejam parte da rotina é importante por muitas razões. A mais óbvia, no meu caso, foi a saúde. Meu cérebro avisou que simplesmente não me deixaria viver no ritmo em que eu estava. Claro que em
momentos pontuais, como início e fim de projetos ou em períodos de aperto financeiro, é possível pisar no acelerador. Mas com data certa para voltar à velocidade normal. O que não dá é transformar a exceção em modo de vida.

Além de arriscado, exagerar no trabalho é pouco inteligente. O economista John Pencavel, da Universidade Stanford, examinou essa relação numa situação extrema: uma fábrica de munições na Primeira Guerra Mundial, em que a ordem era produzir o máximo possível no menor tempo. O economista mostrou que, mesmo sob intensa pressão, o desempenho desabava em jornadas superiores a 48 horas semanais. Se você pensar, a maioria de nós trabalha mais que isso somando o batente em casa...

Na minha experiência pessoal, a descoberta mais fascinante foi o impulso que os momentos de pausa dão à criatividade. A ideia é bem conhecida desde que o sociólogo italiano Domenico De Masi lançou o best-seller O Ócio Criativo. Experimentei na prática um dos significados do conceito ao escrever meu doutorado. Tive boas sacadas e encontrei soluções para a tese enquanto praticava tranquilamente minha corrida diária. "Não é do trabalho que nasce a civilização. Ela nasce do tempo livre e do jogo", diz o filósofo francês Alexandre Koyré. Parece contraintuitivo. Mas minha vida mudou para melhor, diria até que foi salva, quando passei a reservar para o descanso um lugar especial. E permanente.


Ilustração: Adriana Komura