Matéria de capa | Ciências | Matéria de capa

No fim do Rio Doce, um pouco de esperança

Um ano após o rompimento da barragem em Mariana, causa do maior desastre ambiental brasileiro, a força de uma ação liderada por um jovem professor e sua turma de estudantes aliviou o sofrimento de quem teve a vida destruída pela lama em uma vila de pescadores

POR:
Pedro Annunciato, Alice Vasconcellos e Maggi Krause

A vila de Regência Augusta é a última comunidade de pescadores à margem do Rio Doce antes que ele deságue no Oceano Atlântico. Fica na borda sul da foz, no litoral norte do Espírito Santo. De um pequeno cais cheio de barcos vazios, dá para ver o Doce correndo em direção ao mar. Ao longe, as águas se encontram. Tudo parece tranquilo, mas a sensação é enganosa. Em 22 de novembro do ano passado, Regência se tornou a última vítima dos 55 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração que vazaram da barragem de Fundão, de propriedade da mineradora Samarco, em Mariana (MG). Desde então, a pesca está proibida. Na margem, uma grossa camada de argila avermelhada cobre o chão, com detritos levados por ela  galhos de árvore, pedaços de plástico, pneus. Em alguns buracos, acumulou-se um material arenoso e preto como asfalto. As águas do rio retornaram à cor escura original, mas a lama não foi embora: apenas sedimentou.

WEMERSON DA SILVA  NOGUEIRA 

26 anos
5 anos de docência

Educador Nota 10
Boa Esperança (ES)  

Ciências
9º ano   

Projeto: Filtrando as Lágrimas do Rio Doce

 

O silêncio é quebrado pela chegada de um grupo que caminha em direção ao rio. São os alunos do 9º ano da EEEFM Antônio dos Santos Neves, de Boa Esperança, cidade que fica a 129 quilômetros dali. Por cima do uniforme, trajam jalecos brancos que destoam da sujeira. Vieram como pesquisadores para coletar 20 litros de água, em baldes e garrafas PET esterilizados. Wemerson da Silva Nogueira, professor da turma, tem 26 anos e é formado em Química. Ele ajuda a carregar os vasilhames e põe os jovens para trabalhar. Quem contempla a cena é Benedito Firmino, um homem idoso, moreno, de boné e roupa suja. "Esse barco aí é meu. Podem usar à vontade", diz ele aos meninos, depois de contar que muita gente apareceu em Regência para saber o que houve. "Eu nasci em Minas Gerais. Quando era menino, já nadava no Rio Doce lá. Faz tempo que vim pra cá", diz o pescador. Sobre o dia em que a lama veio, três palavras: "Vermelho. Tudo vermelho".

Foram as mesmas palavras que Ramiro Tartaglia Rodrigues, aluno da turma, 14 anos, utilizou para descrever o que viu na primeira visita, em março. Ramiro e a maioria dos colegas não conheciam a comunidade de Regência. Em Boa Esperança, não sofreram nenhuma consequência do acidente. Eles estavam ali porque, assim como eu e você, viram pela televisão o desastre e queriam responder a uma pergunta: o que tem nessa lama que tanto sufoca o Rio Doce?

Aula prática: Wemerson e os alunos Ruan e Iandra coletam amostras de água na margem do Rio Doce, em local próximo à foz 

ESCUTA AOS MORADORES 

A turma preparou questionários para saber como a tragédia afetou a população  de Regência. Conceição Sales Vieira vive em um casebre de madeira com quintal grande, onde ela e o estudante Ruan se sentam para conversar. "A Samarco manda para a gente pouca água  e com gosto ruim", conta. "A senhora acha que um filtro pode ajudar?", questiona ele. "Acho que sim", diz Conceição.

 

 

ANÁLISES QUÍMICAS 

Com a ajuda da diretora da escola, Adriana Bonatto Merlo, o laboratório de ciências foi equipado com kits para fazer os testes de pH, turbidez e alcalinidade da água do Rio Doce. Wemerson organizou as salas em grupos e conduziu os experimentos, explicando o passo a passo de como fazer. Nas aulas seguintes,  os alunos fizeram também análises da lama no microscópio.

 

DA TABELA, UM PORTFÓLIO 

Os elementos encontrados (chumbo, ferro, cádmio, arsênio, manganês e mercúrio) ganharam uma página cada um. Nela, os alunos pintaram o símbolo do elemento químico, inseriram informações como o número atômico, o cientista que descobriu o elemento e as ocorrências dele na natureza, informações colhidas na internet.

 

"Os alunos comentavam sobre as notícias da barragem, preocupados com a lama que chegava ao Espírito Santo', lembra o professor. Nos planos dele, o próximo assunto a ser trabalhado era a tabela periódica: conteúdo difícil, extenso e que parece distante da realidade. Dava para estudá-lo de forma contextualizada? Ao ouvir o papo dos alunos sobre os metais pesados e tóxicos na lama, Wemerson reuniu notícias, imagens, dados sobre o Rio Doce e a contaminação. Imaginou que poderia articular o tema do momento ao conteúdo e usar experimentos. Na sala, antes de iniciar, deu a cada aluno uma tabela periódica, sem dizer nada sobre ela. Quando o professor começou a tratar dos metais pesados, Lizandra Perin fez uma relação direta: "É por isso que a mídia está dizendo que despejaram uma verdadeira tabela periódica no Rio Doce?", perguntou a adolescente.

"O professor criou uma situação para que o questionamento surgisse. Um aluno só pergunta quando se dá conta de que não sabe algo", explica Mário Domingos, doutor em Ciências da Engenharia Ambiental, professor da Universidade de Santo Amaro (Unisa) e selecionador do Prêmio Educador Nota 10. A partir daí, os alunos partiram para a pesquisa com dois objetivos: fazer seminários para toda a escola e preparar uma visita à comunidade de Regência. Um dos grupos ficou responsável por elaborar um questionário para conversar com os moradores (leia acima). 

 

Como pesquisadores de verdade

Wemerson fez questão de que todos os alunos se comportassem como pesquisadores. Vestiram luvas de látex para coletar a água e jaleco branco para as entrevistas. "Queríamos transmitir credibilidade e seriedade", justifica o docente. Os meninos sabiam que aquela gente estava sofrendo as consequências de um desastre grave. "A cor da água mudou para um vermelho alaranjado, indicativo da presença de ferro", descreve Valéria Quaresma, doutora em dinâmica sedimentar pela Universidade de Southampton, na Inglaterra, e oceanógrafa da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Ela e sua equipe estudam a área desde antes da tragédia. Mas não há só ferro. Um relatório da Ufes mostrou que os índices de alumínio, manganês, ferro e cromo se elevaram. Outro, do Ibama, apontou altos níveis de arsênio e chumbo em peixes e camarões. Por isso, a pesca, atividade tradicional de Regência, está suspensa.

Tristeza e desilusão. Foi o que os meninos viram estampadas no rosto dos moradores. As vizinhas Inês e Miriam responderam às perguntas de Ruan Bis Fagundes e Iandra Souza, ambos de 14 anos. Inês contou que já havia consumido água do rio, mesmo diante dos alertas. "Não tem jeito,  a Samarco não manda ajuda, a água é pouca". Para Ruan, Miriam conta que a lama estragou bens da casa dela na inundação. A poucos metros dali, Eduarda Lavanholle, 15 anos, encontrou Elisângela Mara na varanda de sua residência. Enquanto respondia às perguntas, o pequeno Samuel, de pouco mais de 1 ano, assistia quietinho, no colo da mãe. "A senhora recebeu ajuda da Samarco?", pergunta Eduarda. "Não", responde Elisângela. "Eles mandam dois galões de água de 20 litros por semana para quatro pessoas. Os pescadores não podem trabalhar e isso dá muita tristeza porque vivemos a vida inteira junto do Doce." Resignada, ela olha para Samuel. "Esse aqui não vai saber o que é tomar banho de rio".

Ao regressar a Boa Esperança, Wemerson e os alunos se debruçaram sobre as amostras (leia acima). Uma parte delas foi enviada para o Laboratório de Química Analítica da Ufes e voltou indicando metais pesados. Diante dos resultados, os estudantes associaram as condições da água contaminada com a presença dos metais, e com base nisso estudaram a tabela periódica, concentrando-se nos elementos encontrados no relatório (veja o quadro acima). "É muito difícil abordar os 118 elementos da tabela. O Wemerson fez uma opção realista e adequada para a etapa", explica Márcio Cotomacci, biólogo e pesquisador da Abramundo, em São Paulo. 

Mas enquanto registravam informações sobre os elementos, os alunos não tiravam da cabeça a visita a Regência, de marcas profundas. A comunidade que cresceu e construiu sua identidade a partir do mar e do rio estava destruída. Como Benedito Firmino tinha contado, o mar era a vida daqueles pescadores. Diante da calamidade, eles tinham que fazer alguma coisa. Estava claro que havia um problema sério de escassez de água, que criava dificuldades e riscos. O consumo de água e peixes com metais pesados, em curto, médio e longo prazo traz terríveis consequências para a saúde. De fato, o que eles, simples alunos, poderiam fazer? Foi aí que Ramiro, aquele estudante que ficou impressionado com a cor vermelha da água, teve uma grande ideia.

 

RECUPERAÇÃO DA ÁGUA 

O filtro instalado em 56 casas foi fruto de muitos testes. Dentro deste tonel de plástico resistente, há camadas de brita, areia grossa, areia fina e, por fim, uma areia especial para reter metais. A água não é potável, mas pode ser usada para a limpeza doméstica e até para regar plantas. Wemerson garante que dá para filtrar 100 litros do líquido por dia.

 

Muita ação, muita mudança

"Professor, na 6ª série, a professora da minha escola fez um filtro numa garrafa PET usando areia e pedrinhas. E se a gente inventasse um para voltarem a usar a água do Rio Doce?" Quando Ramiro lançou a ideia, a turma parou, com aquele silêncio de admiração. Era excelente. Com o filtro, os moradores poderiam usufruir do estoque ilimitado de água do rio - e a areia, em uma região litorânea, é uma solução barata.

Wemerson e a turma buscaram na internet tipos de filtros caseiros e voltaram a Regência para validar com os moradores a proposta, bem recebida. O passo seguinte era descobrir como tratar a água - o sonho é que ela fosse própria para consumo. Wemerson, então, preparou um passeio à Estação de Tratamento de Água da Companhia Espírito-Santense de Saneamento (Cesan), em Boa Esperança, onde ficaram de olho nas etapas do tratamento e nos tipos de areia e cascalho utilizados. Com as informações, construíram um filtro com areia fina, areia grossa, brita e, no final, um coador de café. Quando jogaram uma amostra da água, ela saiu bege, da cor da areia! Fizeram e refizeram o teste, trocaram de recipiente, de areia, de coador... E nada. A água saía mais suja do que entrava. Todos começaram a discutir sobre o que estaria dando errado. "Aí alguém levantou a mão e disse: 'E se a gente lavasse a areia?'", conta o docente. Novamente, fez-se a luz. 

Então, os alunos passaram a tarde no jardim da escola, lavando montes de areia grossa e fina e brita com a mangueira. Depois, armazenaram tudo em sacos plásticos limpos e transparentes. Havia ainda outro ponto a corrigir. O filtro testado dava conta dos resíduos sólidos diluídos, mas não do mais perigoso: os metais pesados. Então, Wemerson descobriu uma areia especial, com micropartículas retentoras de ferro, vendida a um preço acessível na própria cidade. Com tudo lavado e a areia especial comprada, montaram o filtro num galão de água. Na primeira tentativa, a água desceu bem amarela. Dois minutos depois, começou a ficar mais clara. Após cinco minutos de funcionamento, eles nem acreditavam: a água saía por baixo do galão transparente! 

Amostras do líquido filtrado foram enviadas ao laboratório de Química Analítica da Ufes que comprovou que a maior parte dos metais havia sido retirada. A água ainda não era própria para consumo, mas já dava para limpar a casa, lavar roupas e vasilhas e regar hortas. Com o projeto pronto, a diretora da escola buscou apoio da prefeitura e doações de cidadãos de Boa Esperança para conseguir material e transporte. Os estudantes partiram para mais uma expedição a Regência. Ao longo de três semanas, alunos e moradores montaram filtros em 56 casas.


AGRICULTURA POSSÍVEL 

Próximo à vila fica Areial, uma região com famílias remanescentes de quilombolas. Jackson da Fonseca Santos e a esposa Eva vivem num pequeno lote nas áreas alagadas do Doce. Ali, passaram momentos de desespero. ?A água vermelha inundou parte da terra e, como ficamos sem água, perdemos tudo o que a gente tinha plantado?, diz ele.  Graças ao filtro, hoje  o casal já planeja  uma segunda horta. 

 

Mar de incertezas

No dia 5 de novembro, a tragédia da barragem da Samarco completa um ano, e está longe do fim. As autoridades ainda debatem com Vale e BHP, controladoras da empresa, para ressarcir um prejuízo que parece infinito. Alguns pescadores ganham salário mínimo, mas a maior parte das famílias só recebe água. Sobre o mar, alguns barcos e um helicóptero monitoraram o tamanho da mancha de lama. O leito do rio parece normal, mas basta mexer um pouco a água para que o vermelho ressurja do fundo, como se sangrasse. 

O prognóstico é sombrio. "A lama é formada por uma argila muito fina que vai para o fundo, mas é facilmente suspendida", explica Valéria. Ela torna a água turva e pouco oxigenada, compromete a reprodução de algas e microrganismos, destrói o equilíbrio ambiental e sufoca animais - só na foz do rio, dizimou 3 toneladas de peixe. Além disso, os metais pesados se acumulam no organismo e passam para outros seres vivos, como o próprio homem. Retirar esse material do rio é praticamente impossível. Não há muito o que fazer, além de monitorar a situação. "É lamentável, mas a verdade é que, durante anos, veremos essa lama descendo da calha do rio", diz Valéria. O maior desastre ambiental da história da mineração no mundo é um problema que ninguém sabe resolver. "Alguns alunos me perguntavam o que poderiam fazer diante de uma tragédia tão grande. O que eu dizia era que Samarco, Vale e autoridades teriam que trabalhar para amenizar os impactos. A nós, cabia fazer algo que estevisse ao nosso alcance", conta Wemerson. 

O projeto ainda não acabou. Há muitas casas na fila para receber o filtro. Em quatro ou seis meses, os que já foram instalados terão que ser trocados, e ainda não se sabe o que fazer com o material contaminado dentro deles. Essas são as próximas perguntas. O mais importante é que os estudantes já provaram que têm entusiasmo suficiente para encontrar as respostas. 


Fotos: Diana Abreu