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Quem ainda manda cartas?

Seus alunos! Veja como abordar o gênero sem ignorar que elas caíram em desuso

POR:
Wellington Soares, leonardo de sá e Victor Malta

É impossível fugir do gênero nas aulas de Língua Portuguesa. A maioria das orientações curriculares sugere o trabalho com cartas. Mas nem sempre é simples. A professora Adriana Berton, da EE Professora Júlia Wanderley, em Arapongas, no interior do Paraná, teve de lidar com o estranhamento dos alunos do 6º ano quando propôs uma atividade sobre o tema. A turma trocaria correspondência com jovens de uma escola em Santa Catarina, alunos de um amigo dela. "Eles questionaram a necessidade de enviar cartas, diziam que elas demoravam. Alguns estudantes também alegaram que mandar uma mensagem via WhatsApp seria muito mais rápido, e já teria corretor automático. Além, é claro, dos áudios, que, segundo eles, facilitam muito a comunicação", lembra a professora.

Situações assim indicam a necessidade de repensar o trabalho com esse conteúdo clássico, o que não significa deixá-lo de lado. "Não devemos expor os alunos só àquilo com que eles lidam cotidianamente", defende Petrilson Alan Pinheiro, professor do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade de Campinas (Unicamp). Os tempos mudaram e as cartas assumiram um novo status: de veículo de comunicação usado com frequência para um resquício do passado. "É preciso refletir sobre as mudanças que esse gênero sofreu, em função do avanço dos recursos tecnológicos: em que suportes escrevemos? Em que situações sociais ela é usada? Como podemos nos comunicar hoje com uma pessoa distante?", indaga Heloisa Ramos, especialista no ensino de Língua Portuguesa e autora de livros didáticos.

A saída, então, é fazer com que a turma se familiarize com esse gênero, pense nas maneiras como está acostumada a se comunicar hoje e discuta as semelhanças e diferenças entre os dois.

Para os mais jovens, uma carta pode ser um objeto tão estranho quanto um aparelho de fax ou um toca-fitas. É preciso guiá-los nos primeiros passos, o que signfica ter contato com correspondências reais. Uma primeira possibilidade é que o professor apresente cartas de seu acervo pessoal. Heloisa Ramos conta que, quando atuava na rede estadual de São Paulo, costumava utilizar uma mensagem enviada a ela por seu sogro quando ela morava nos Estados Unidos, nos anos 1980. "É curioso porque ele conta sobre um líder operário que começava a surgir na época. A turma se diverte ao saber que se tratava do Lula, que se tornou presidente do país", conta Heloisa.

 

Utilizar cartas trocadas por pessoas célebres também pode ser interessante. O professor pode retirá-las de coletâneas como o livro Orgulho de Jamais Aconselhar: A Epistolografia de Mário de Andrade. Nela, o pesquisador Marco Antonio de Moraes reúne e analisa a correspondência trocada pelo escritor brasileiro, ícone do modernismo.

Algumas características são importantes de destacar. Uma delas é que as mensagens traziam notícias sobre um período maior, de alguns dias ou meses, dependendo da frequência com que as duas pessoas envolvidas se comunicassem.

Já nas mensagens instantâneas, as ações são comunicadas no exato momento em que acontecem. Esse imediatismo se mostra na ausência de uma postura analítica. Nas cartas, os autores - em tese - refletem mais sobre pensamentos e sentimentos com relação ao que narram.

A própria linguagem também pode ser questionada. Nas cartas, dominava um certo nível de formalidade - sobretudo quanto o destinatário não era tão próximo -, conceito subvertido no caso das mensagens de texto, em que há uma coloquialidade que a aproxima da linguagem oral. Além disso, abreviações e emojis (pequenos desenhos) têm mais espaço.

Na tela

Características das mensagens de WhatsApp

O que se escreve?
Pequenas narrativas sobre acontecimentos diários e compartilhamentos de mensagens recebidas em outras redes sociais.

Como se escreve?
Cumprimentos e despedidas que marcam o início e o fim da conversa são raros. A linguagem se aproxima da fala, é informal, tem abreviações e recursos gráficos.

 

 

Ao escrever, foco na experimentação

Depois do choque inicial, a professora Adriana conversou com a turma. Juntos, eles combinaram uma série de passos: a ideia seria trocar algumas cartas antes que eles se comunicassem por WhatsApp ou trocassem os perfis de Facebook com os colegas de outra cidade. 

Depois de analisar diferentes modelos de carta, a turma colocou a mão na massa. Além de aspectos relacionados ao conteúdo, também pensaram em questões formais, como colocar a data e o local de onde a carta é escrita, iniciar com um cumprimento e enviar uma saudação ao final. Também é importante que eles aprendam onde e como escrever os nomes e os endereços do remetente e do destinatário (as instruções estão disponíveis no quadro acima e no site dos Correios). Não é formalismo: essas informações serão úteis na vida adulta, já que algumas questões burocráticas - como recorrer de multas de trânsito e enviar documentos - ainda requerem uma ida ao correio.

O resultado agradou a professora: "Cada carta ficou bem pessoal. Os alunos contaram suas histórias de vida, falaram sobre a cidade, sobre suas famílias", lembra a docente.

Não dá para esperar que eles passem a se comunicar por esse meio (afinal, nem nós fazemos isso), mas talvez incorporem algumas características das cartas na comunicação do dia a dia.

 

No papel

Características das cartas

O que se escreve?
Acontecimentos muito pequenos são deixados de lado. Apenas situações consideradas importantes são relatadas. Elas também podem ter acontecido em um período longo: o destinatário pode demorar meses para ficar sabendo de um episódio da vida do remetente. Também é comum que o texto inclua os sentimentos e pensamentos que quem escreve possui sobre a situação narrada.

Como se escreve?
Aspectos formais como a data e um cumprimento inicial são importantes (as saudações, inclusive são comuns em trocas de e-mails). Também é necessário destacar o modo de envio: na parte da frente do envelope são colocados os dados de quem recebe (o destinatário) e na parte de trás o endereço de quem envia (o remetente).

 


Consultoria: Heloisa Ramos, especialista no ensino de Língua Portuguesa e autora de livros didáticos.
Fotografia: Ricardo Chicarelli