Os desafios da segunda plasticidade cerebral

É entre 12 e 20 anos que os sujeitos aprendem habilidades sociais e emocionais essenciais para a vida adulta

POR:
NOVA ESCOLA
Lino de Macedo,

Lino de Macedo,
Professor aposentado do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP)

Muito se fala da importância da primeira infância e da estimulação para o desenvolvimento sensório-motor e cognitivo da criança. De fato, nesse momento da vida, o cérebro tem maior plasticidade, ou seja, alto índice de criação de sinapses (conexões entre as células), o que interfere diretamente na capacidade que ela terá de aprender. O cientista suíço Jean Piaget (1896- 1980) valorizava imensamente essa etapa. Mas também atribui ao período que vai dos 12 aos 20 anos de idade a última e mais sofisticada etapa de desenvolvimento, o das operações formais. É que nessa época amadurece o córtex pré-frontal, área cerebral em que se processam as funções executivas, que são habilidades cognitivas, afetivas e sociais necessárias para a vida adulta, como controlar emoções, se relacionar e tomar decisões.

O momento é complexo para os que passam por ele e também para quem acompanha essa passagem. São cinco os principais desafios enfrentados pelos jovens e que nós, adultos, devemos ficar atentos para auxiliá-los a superá-los.

1. A ESCOLA Até o 5º ano do Ensino Fundamental, a criança conta com um professor principal que orienta suas atividades. A partir do 6º ano, ela já não tem mais essa estrutura externa que a guia o tempo todo. Tem de aprender a ser gestora da própria vida escolar. Espera-se que cuide de si mesma e de seu tempo e que saiba administrar os vários docentes e obrigações como lições de casa, estudos, provas e anotações das aulas.

2. A VIVÊNCIA EM FAMÍLIA O sujeito ganha responsabilidades em casa, como arrumar a cama, cuidar do irmão e ir e voltar da escola sozinho. Já não é tratado como criança e os pais deixam de ser as únicas figuras importantes para ele.

3. A VIDA SOCIAL Os amigos adquirem grande valor. Há o desafio de fazer amizades e mantê-las, de se relacionar. Compartilhar confidências e opiniões com os pares, desabafar sobre problemas e falar sobre os desejos são rotina.

4. O INTERIOR Nessa fase, é problemático gerenciar sentimentos como a culpa e descobrir a sexualidade; ser você e também alguém participante ativo de uma sociedade; moderar a tendência à impulsividade ao mesmo tempo que se tem a necessidade de experimentar coisas novas; aprender a fazer escolhas e ir além das regras impostas, mas estabelecendo e respeitando limites. Não à toa, muitos se iniciam no uso de drogas e bebidas.

5. O FUTURO Ele é o grande mistério. Momento de decidir que profissão seguir, de perseguir sonhos, de optar por continuar como está ou fazer tudo diferente, experimentar ou reprimir.

Nessa travessia dos jovens para a fase adulta, não podemos ser indiferentes ou omissos. Principalmente, não dá para sermos os últimos a saber o que se passa com eles. Dialogar, orientar, respeitar, observar e dar alternativas às suas ações e ideias faz parte de nossa responsabilidade para com os que se preparam para ser como nós ou, quem sabe, melhores do que somos.

 


Ilustração: Adriana Komura

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