“Minha namorada está grávida. E agora?

O problema é pessoal, mas tem consequências fora e dentro da escola. Não dá para falar: "Não tenho nada com isso"

POR:
NOVA ESCOLA
Felipe Bandoni,

Felipe Bandoni,
É professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo

Fui surpreendido há pouco tempo com essa confidência feita a mim por um aluno de 16 anos logo após o fim de uma aula. Em seguida, ele perguntou: "Você acha que um feto de três meses já tem coração?". Como biólogo que sou, a força do hábito - e o choque diante da revelação - me fez começar a discorrer tecnicamente sobre o desenvolvimento do embrião humano. Enquanto tentava articular alguma resposta, meus olhos cruzaram os do garoto e, no mesmo instante, percebi a gravidade da situação. Fiquei pensando no que eu, como professor, deveria ou poderia fazer diante dessa informação. Devo relatar à gestão da escola? Conto para os pais? Como ajudá-lo sem quebrar a relação de confiança dele comigo?

Imagino que muitos de vocês já passaram por experiências similares, em que alunos compartilham segredos ou pedem ajuda para algo íntimo, envolvendo sexualidade ou até violência. Não raro, determinados fatos vem à tona para os docentes antes de a família tomar conhecimento. Apesar do cunho pessoal, são situações com consequências tanto fora quanto dentro da escola. Portanto, não dá para falar: "Não tenho nada com isso". 

Quando um caso assim acontece, é preciso acolher esses estudantes em suas angústias, sem julgamentos. Muitas vezes, eles nos procuram por não encontrarem um ambiente seguro em casa para se abrir. Todo cuidado e carinho são fundamentais. Porém, fico pensando que nós, professores, somos representantes do mundo adulto para esses alunos. Nos contar significa revelar também a informação a um outro círculo, que não o dos amigos. Como adultos, temos a obrigação de agir para que o problema tenha o melhor encaminhamento possível, ainda mais quando envolve situações graves, como é a gravidez de uma menina menor de idade.

Na ocasião, olhei para meu aluno e questionei quais as pessoas que mais poderiam ajudá-lo. Ele disse que seriam os pais. Minha pergunta o fez perceber que não era possível manter o segredo e o melhor a fazer era discuti-lo em casa. Acredito que se colocar disponível para estar junto no momento da conversa com a família, caso o estudante tenha receios, e ajudá-lo a ver formas de agir com responsabilidade sejam atitudes adequadas para o professor em situações como essa.

No entanto, o ideal é que o docente não precise agir sozinho. A escola é o ambiente em que se dão as primeiras relações sociais das crianças para além do restrito e íntimo círculo familiar. Portanto, deve oferecer formação adequada aos educadores e espaços de troca e tomada de decisões em conjunto, com respeito e confiança. A responsabilidade pelos alunos é de todos.

Ao final da conversa, eu o abracei. Prometi segredo até que ele falasse com os pais e disse que, apesar de ele só ver dificuldades naquele momento, tudo melhoraria. Depois, o aluno contou à família e à direção. E me falou quanto nosso diálogo tinha sido importante nessa decisão.

 


Ilustração: Adriana Komura

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